A descoberta da América pelos chineses  é uma chinesice!
Por Manuel Luciano da Silva, Médico

Quando eu era rapazote  e  ia às feiras dos 9 ou dos 23  em Vale de Cambra, Portugal Continental,  uma das coisas que mais me surpreendia era ver homens com feições chinesas a venderem gravatas!  Gravatas muito coloridas e garridas que eles exibiam dependuradas  numa barra à altura do umbigo.  Apregoavam  bem alto: “50 escudos,  baratas,  50 escudos!”  e depois acabam por as vender por  cinco escudos! Este exagero de preço ficou enraizado no nosso  povo de tal maneira que quando alguém  exagerasse qualquer história  passávamos  logo a dizer que se tratava duma chinesice.   

Agora a publicidade  exagerada que se está a dar ao caso da descoberta da América pelos chineses faz-me lembrar a venda das gravatas nas feiras da minha terra natal...  

Eu tenho aqui em minha casa uma cópia do vídeo quando o Sr. Gavin Menzies fez a sua apresentação na Sociedade Histórica de Londres, Inglaterra,  sobre a  “sua”  descoberta da América e do mundo pelos chineses.   A apresentação do Sr. Menzies é uma autêntica porcaria. Não tem pernas nem cabeça.  Não apresenta documentação nenhuma coeva, nem mapas,  nem documentos comprovativos. Toda a apresentação é uma verdadeira fantasia, um pesadelo!

A mim o que mais me admira é a máquina organizada de publicidade que se estabeleceu na Inglaterra e que se está a generalizar  para os Estados Unidos e para os outros países envolvendo traduções do livro,  em várias línguas. --  “1421- The Year China discovered America” – “1421- O ano em que os Chineses descobriram a América".   Este  livro custa 27 dólares. Claro que vai haver, infelizmente, muita gente  que vai comprar o livro, só por curiosidade.  Eu é que não vou gastar um centavo a comprá-lo.

Como refutação ao livro do Menzies,  vou só dar dois exemplos muito concretos. O Sr. Gavin Menzies diz no seu livro que os chineses construíram a Torre Octogonal de Newport e que gravaram  também as inscrições originais na  face da Pedra de Dighton.   O Sr. Menzies  NUNCA examinou no local nem a Torre de Newport nem a face da Pedra Dighton. Primeiro não existem nenhumas torres octogonais na China e na face da Pedra de Dighton não existem nenhuns caracteres chineses nela  gravados.  Como é que o Sr. Menzies pode  fazer tais afirmações?! Ridículo! Não é assim que se analisam os  dados arqueológicos e  epigráficos! Nunca mais! 

A  mesma notícia  publicitária sobre o referido livro diz  que o chefe da grande armada chinesa era um eunuco!  Para se enfrentar o mar tenebroso são preciso homens com testículos grandes e negros e não  homens capados!!! 

Correntes marítimas e correntes dos ventos

Admira-me bastante  que o Sr. Gavin Menzies foi capitão dum submarino inglês e  na  apresentação que fez  na Sociedade de Geografia de Londres não  prestou atenção nenhuma às correntes  dominantes  marítimas e dos ventos  nos oceanos.  Para os barcos à vela,  antigamente as navegações nos altos mares dependiam  (e ainda dependem), do predomínio das correntes dos ventos da água do mar, sendo as forças, absolutamente necessárias,  para moverem os barcos nos altos mares!  

 

Notar  os sentidos das correntes e os ventos 
DOMINANTES  do Atlântico 

Dizer-se que os Chineses vieram da China  descobrir  as costas americanas, por exemplo a Nova Inglaterra,  sem se analisar as correntes dominantes dos oceanos,  é a mesma coisa que discutirmos  uma viagem de ida e volta á lua sem prestarmos atenção   nenhuma ao tipo de foguetões  que transportam a cápsula que leva e traz de volta  os astronautas!... Falar de descobrimentos marítimos sem primeiro  se apreciar devidamente  as correntes dominantes dos oceanos é simplesmente estúpido. Infelizmente muitos historiadores americanos e portugueses cometem essa burrice e depois armam-se em muito sabedores.  São uns coitadinhos!...

Outra informação   descabida é dizer-se que os barcos usados pelos chineses tinham um comprimento de quinhentos pés e 180 de largura  que a armada era composta por vinte  e oito mil marinheiros chineses!  Que afirmação tão disparatada!

Os descobrimentos marítimos são acontecimentos históricos que podem ser repetidos e analisados cientificamente.  Há muitos capítulos da História Universal que não se podem  repetir,  como  por exemplo  a conquista de Moscovo por Napoleão,  nem a batalha de Trafalgar. Mas,  repito,  podemos repetir os descobrimentos marítimos.  Porquê?  Porque existem as mesmas condições  laboratoriais agora que existiam há quinhentos anos. As correntes marítimas e os ventos dominantes dos oceanos são os mesmos. O que temos que fazer é construir barcos com quinhentos pés de comprimentos, do mesmo tipo chinês,  enchê-los de vinte mil chineses ( eles tem na China agora  um bilião e 300 milhões de  habitantes) e depois observar o que é que vai acontecer a esta frota que vai “descobrir a América e  o mundo”!  Mas desta vez quem vai ser o  capitão eunuco desta  grande frota  será o Gavin Menzies, mas não  poderá levar a bordo nenhum mapa nem nenhum aparelho de navegar, como os chineses em 1421!   Vamos a ver até onde esta “frota chinesa” vai chegar e quanto tempo é que durará nos altos mares....

 

 

O coração do Atlântico Norte tem um nome português - Mar do Sargasso

A viagem de circum-navegação chefiada por Fernão de Magalhães, com 265  homens, representando nove nacionalidades,  levou três anos menos onze dias,  a dar a volta ao globo pela primeira vez e apenas dezoito  homens regressam a Espanha! Entre 1519 a 1522.  

 

 

As galés e a caravela

Os romanos usaram no Mediterrâneo  as chamadas galés. Eram barcos compridos,  mas movidos a remos.  Por esta razão tinham que  ter uma tripulação grande. Mas as galés romanas nunca se atreveram a ir para  o Oceano  Atlântico porque seria um verdadeiro suicídio.   Foram os portugueses,  com a invenção da caravela,  os primeiros povos a poderem navegar nos altos mares. Com a caravela reduziram muito o número da tripulação e depois com a vela latina ou triangular foram capazes de navegar mesmo contra os ventos em arco. A humanidade deve aos portugueses a descoberta das correntes dominantes marítimas e dos ventos do Atlântico. Essa grande honra vai  principalmente para o Bartolomeu Dias que descobriu que as correntes no Atlântico  Norte são a imagem em espelho das correntes do Atlântico Sul.  Do mesmo modo as correntes ao norte do equador são no sentido dos ponteiros do relógio e ao sul do equador são no sentido contra-relógio, quer no Pacifico quer  no Oceano  Índico. 

 

 

Reparar que as correntes dominantes no norte são a imagem em espelho das correntes dominantes  no sul 

 

Vasco da Gama teve muita dificuldade em controlar 171 homens que levou na sua  frota quando foi pela primeira vez à  Índia. Teve que enforcar até alguns por rebeldia e dependurar  o seu corpo no convés para servir de exemplo.

Dos 171 homens (e seis prostitutas que entraram a bordo clandestinamente!), só 55 homens é que regressaram a Lisboa. A maioria morreu de escorbuto, ou seja falta de vitamina C.   

Cristóvão Colon, com uma tripulação semelhante,  também  teve muita dificuldade em controlar  os seus marinheiros quando fez a primeira viagem á América Central,  em 1492.

 Não precisamos de ser muitos espertos para imaginarmos como é  que um eunuco chinês  podia controlar  por muito tempo vinte  e oito mil homens numa viagem  planeada para dois anos nos altos mares! E alimentação para os vinte e oito mil dois mil homens?  E a água potável?  E o escorbuto? 

Vê-se mesmo que  esta publicidade toda  é uma caça à ingenuidade do povo americano.  Mesmo o título do livro em usar a América como lugar a descobrir,  em vez do Brasil , da Argentina, ou outro qualquer país,  é mesmo  uma caça ao dólar. Toda a gente fala mal da América, mas todos querem mamar dela!

O Sr. Gavin Menzies admite que a frota chinesa quando regressou à  China depois da sua  descoberta universal, todos os barcos foram abandonados, todos os diários da viagem foram destruídos e a China desde essa altura fechou-se para o resto do mundo!  É por isso, diz ele, que não há documentação nenhuma a confirmar a viagem comandada pelo eunuco chinês. É  por isso mesmo que o livro do Gavin Menzies vai meter muita água  e dentro de pouco tempo vai acabar no fundo do  mar profundo...

Minha admiração pelo povo chinês 

Eu tenho muita admiração pela civilização chinesa. É pena que o mundo ocidental não ensine nos liceus que os chineses têm sido um  grande povo inventor. 

Inventaram : (1) o papel, (2) a seda, (3) a pólvora, (4) os altos fornos, (5)  o vidro, (6) os foguetes, (7)  a agulha magnética, (8) o chá,  (9) o macarrão e o esparguete, (10)  e  a porcelana. (11) e foram os primeiros povos a estudarem a astronomia. 

Mas na ciência de navegar os grandes campeões são os portugueses!  É  uma distinção que ninguém  lhes pode tirar!

 

A maior ofensa à História de Portugal

O livro do Sr. Gavin Menzies é  a maior  ofensa,  o maior ultraje que se pode fazer à História Gloriosa de Portugal!!!

Ele falsificou a Carta Náutica de 1424 -- mapa português -- para satisfazer a sua PRECONCEBIDA TEORIA  de que os chineses foram  os primeiros na descoberta da América. 

Veja na página frontal desta website o meu artigo "A Descoberta da América pelos chineses é uma grande mentira!", no qual eu demonstro com fotografias como é que o Sr. Menzies falsificou a Carta Náutica de 1424. 

Aonde é que estão os Historiadores de Portugal, das Universidades de Lisboa, Porto, Coimbra, dos Açores e da Madeira, para refutarem as diatribes do Sr. Menzies? E até os jornais e a televisões portuguesas com tantos sabedores?  

Estes Srs. são capazes mas é ainda de louvar o Sr. Menzies, por ele ser um capitão dum submarino inglês, por ele ser  um patriota da nossa aliada e grande amiga, a Inglaterra!  Os ingleses só tem sido ladrões  e exploradores de Portugal!  Se formos a fazer um lista,  ela nunca mais acaba!  Agora só faltava mais esta porcaria, esta coisa horrível do livro peçonhento do Sr. Menzies. Parece que em Portugal já não há mais brio pelo significado patriótico de ser português!  Que tristeza! Que infelicidade! 

Fico aqui deste lado do Atlântico muito triste a pensar no conteúdo  do verso do nosso Camões:  "Entre os portugueses, alguns traidores houveram algumas vezes". 

Será  que nos últimos tempos os portugueses em Portugal, Açores e Madeira,  se sentem envergonhados do  significado de se ser português neste mundo?! 

Return