A maior mentira do mapa Cantino!
Por Manuel Luciano da Silva, Médico
Agosto 25, 2003

Os historiadores e cartógrafos de todo mundo conhecem  bem o chamado Planisfério de Alberto Cantino, presentemente guardado na Biblioteca Estense, na cidade de Modena, localizada  ao norte de Bolonha, na Itália

Modena é célebre  por causa dos carros de corrida fabricados nos seus arrabaldes com as famosas marcas  Ferrari e Maserati.  Esta cidade hoje com 175 mil habitantes desenvolveu-se  muito culturalmente  quando os  Duques d’Este  se mudaram da cidade de  Ferrara para ali,  em 1598. 

A Biblioteca Estense  possui muito livros raros e também uma colecção magnífica  de mapas originais, entre eles o Planisfério de Alberto Cantino.

Este mapa é considerado anónimo mas hoje sabemos que foi feito por um cartógrafo português em Lisboa em 1502.  No canto esquerdo inferior tem uma legenda que diz o seguinte: “Dono Alberto Cantino, ao Sr. Duque Hércules”.   Isto é o princípio  da atribulada história deste mapa.

É  agora do conhecimento geral  que Alberto Cantino era um espião italiano em Lisboa  nos fins do século XV e princípio do século XVI. Ele era um espião tão esperto e eficiente  que chegou a ser secretário particular do Rei D. Manuel I.   O facto mais demonstrativo são as duas  cartas de espionagem que ele escreveu para o Duque d’Este, então Duque de Ferrara, descrevendo todos os detalhes da viagem de regresso  que Gaspar  Corte Real fez a Terra Nova em 1501.  Nestas cartas datadas em Lisboa em 17  e 18 de Outubro de 1501, o próprio Cantino afirma  em ambas que ouviu tudo directamente porque “estava  na presença ao Rei“ quando Gaspar Corte Real fez a sua  apresentação ao monarca português!

Pois foi este mesmo Alberto Cantino, agente secreto de Hércules d’Este,  ao tempo, Duque de Ferrara, que tinha sido enviado  para Lisboa para colher informações sobre os  descobrimentos portugueses porque já naquele tempo tinham muita fama  e causavam muita inveja por toda a Europa.

Com o pretexto de vir a Lisboa negociar em cavalos, Cantino conseguiu subornar um cartógrafo português  que lhe fez uma carta náutica com toda a informação geográfica secreta nos arquivos  da Casa da Índia em Lisboa. Pagou um elevado preço pelo planisfério:  doze ducados em ouro! 

Sabemos por outra carta assinada por Cantino que ele enviou este mapa ao seu patrão, Duque de Ferrara, no dia 19 do mês de Novembro de 1502, a qual terminava da seguinte forma: “ a carta (o mapa) é di tal sorte, et spero che in tal manera piacerà a V. Exa.”  Tradução  “Este mapa é de tal qualidade que eu espero venha a  ser de muito agrado a Vossa Excelência”.

O Planisfério de  Cantino esteve durante cerca de 90 anos na Biblioteca Ducal  até que o Papa Clemente VIII o transferiu para outro palácio em Modena. Mas este mapa teve pouca sorte porque devido aos motins de 1859  desapareceu até ser encontrado a servir de forro num anteparo duma salsicharia na mesma cidade de Modena.   O Director da Biblioteca Estense foi chamado  ao local e levou-o  então para a  sua Biblioteca onde se encontra desde 1868 até ao momento actual. 

O Planisfério de Cantino de 1502 é hoje considerado  uma obra prima da cartografia portuguesa e como carta geográfica é  uma das mais importantes do mundo. É a  primeira carta que representa o planisfério duma maneira mais completa: desde a  Europa,  América do Norte, Central e Sul, toda a África, a Ásia  até ao Oriente. 

É uma carta rica  e com muito pormenor em topónimos.  Mas a parte que nos interessa mais é a parte mais ocidental dos Açores, isto é, que diz respeito às Terras Americanas.  Nesta região vemos ao centro uma linha perpendicular que é a Linha do Tratado de Tordesilhas de 1494 a dividir o mundo entre Portugal e Espanha.  Esta linha imaginária foi traçada a 370  léguas a oeste da ilha mais ocidental do Arquipélago de Cabo Verde, por exigência do Rei D. João II. O Tratado de Tordesilhas foi  assinado em 2 de Julho de 1494.  A cidade de Tordesilhas fica em Espanha  entre Valhadolide  e Salamanca.  Os Reis Católicos, D. Fernando e D. Isabella de Espanha,  queriam que a Linha de Tordesilhas fosse 100 léguas,  de combinação com o Papa Alexandre VI que era de origem espanhola, mas o Rei D. João II exigiu que fosse 370 léguas e ganhou. 

 Neste mapa vemos que a Terra Nova e o Brasil estão incluídos no hemisfério oriental, a metade da terra  que pertencia a Portugal. Hoje sabemos que o Rei D. João II comeu as papas na cabeça aos espanhóis -- ludibriou-os -- porque eles não sabiam da existência da Terra Nova nem do território que originou  mais tarde o  Brasil.   Vamos agora a  analisar o planisfério de  Cantino no espaço das  Terras Americanas.  

 Fig. No. 1 – 

(1)    Representa a Groenlândia com uma bandeira de Portugal com as Cinco Quinas.

(2)    'Terra Del Rey de Portugall,'  representando a Terra Nova com os pinheiros do Canadá.

(3)    Linha de Tordesilhas dividindo a esfera da terra entre Portugal e Espanha 

(4)    Açores

(5)    Portugal Continental

(6)    África 

(7)    Arquipélago Cabo Verde

 

Fig. No. 2- 
Nesta secção do Mapa de Cantino vemos: 

(8)    Ilha Hispaniola,  hoje Haiti e S. Domingos.

(9)    Ilha de Cuba

(10)      Península da Flórida.  Notar  que neste mapa português com a data de 1502 já vemos a Florida bem desenhada. Porque é que na América se ensina que foi Ponce de Leão que descobriu a Flórida quando ele chegou lá ONZE  anos  mais tarde  em  1513, à  procura da  Fonte do Elixir da Longa Vida!...

(11)      'Las antilhas del Rey de castella'. Notar que nesta frase  o nome antilhas está escrito bem claro em  português e não em espanhol  antilles. 

 

Fig. No. 3 – 

 (12)    América do sul 

(13)    Brasil com 3 papagaios.

 

 Onde está a Grande Mentira no mapa Cantino?

 

Fig. No 4

A Grande Mentira está no nome Antilhas --  por cima do (11).  Estas ilhas  no Mar das Caraíbas não são as Verdadeiras Antilhas.  São as Falsas Antilhas. As Verdadeiras Antilhas são a Terra Nova, Nova Escócia e Ilha do Príncipe Eduardo, no Canadá, quase a duas mil milhas mais para o norte! 

O cartógrafo que fez o Planisfério de Cantino  em 1502, ao  baptizar as ilhas das Caraíbas de Antilhas,  ENGANOU a humanidade inteira, durante mais cinco séculos, especialmente historiadores, incluindo os cartógrafos portugueses entre eles o Armando Cortesão!!! 

As Verdadeiras Antilhas estão desenhadas na Carta Náutica de 1424. Este documento  foi  profundamente analisado em pormenor pelo Professor Armando Cortesão e publicado num  livro em inglês “The Nautical Chart of 1424”, editado pela Universidade de Coimbra em  1954. De mil exemplares  existe o exemplar  No. 232 na minha Biblioteca-Museu  em Cavião, Vale de Cambra, Portugal. 

Aqui está uma secção  da Carta Náutica de 1424 mostrando as quatro ilhas: duas em azul e outras duas em vermelho. Os  seus nomes são à  Saya, Satanazes, Antilia e Ymana.  O original deste mapa está na Biblioteca da Universidade de Minnesota, na Colecção de James Ford  Bell. Foi feito em 22 de Agosto de 1424, por Zuanne Pizzigano, um cartógrafo de Veneza. 

Fig. No 5. 

(1) Data 1424, Agosto 22.
(2) Saya
(3) Satanazes
(4) Antilha
(5) Ymana
(6)  Portugal Continental 

 

Para conhecer em pormenor a minha análise total da Carta Náutica de 1424 veja na minha Internet  os artigos intitulados: 

As Verdadeiras Antilhas: Terra Nova e Nova Escócia               Resumo das Verdadeiras Antilhas


Fig. No 6 -

Neste diagrama vemos mais claramente  os nomes próprios  das 4  ilhas,  mas também outros nomes que estão escritos dentro dos lagos nas ilhas Satanazes e Antilia.

Curioso que Armando Cortesão, considerado o maior especialista mundial em cartografia,  nas suas conclusões no livro  “The  Nautical Chart of 1424” não consegui  diagnosticar que estas 4 ilhas  representam as Verdadeiras Antilhas na costa marítima do Canadá! 

Aqui está a confissão de Armando Cortesão no seu livro “The Nautical Chart of 1424”: 

“The Documentary proof that such a voyage or voyages (by the Portuguese), either willing or unwilling, took place is provided by the representation of the Antilia group of four islands in the 1424 Chart. Several islands of the Antilles were no doubt seen during one or more of these voyages. The newly acquired knowledge confirmed what was already presumed from ancient tradition and more or less recent and more or less positive information, and the first cartographer who got hold of that information, though rather vague, represented it as well as he could in his map. We do not know whether the 1424 

Chart is the first one in which Antilia was figured; we only know that it is the earliest extant in which it appears.” “ It would not be easy to say which of the Antilles islands are depicted by the Antilia group, or if the American Continent itself is represented there. Haiti, Cuba, Jamaica, Porto Rico, some of the Bahamas, Trinidad or some of the Lesser Antilles, Florida or even Greenland? There is no sure guide for any such tentative identification. The only certainty is that several of these lands were seen, but the identification of their cartographical representation is as uncertain as the meaning of the seven mysterious names which, following the legend of the Island of the Seven Cities, were written on Antilia and probably influenced the idea of writing the no less mysterious five names on the Satanazes” .

Tradução: 

“A prova documentária de  que tais viagem ou viagens (pelos portugueses) quer voluntária ou involuntariamente, se realizaram, é demonstrado pela desenho  do grupo das quatro Antilhas na carta Náuticas de 1424. Várias ilhas do grupo das Antilhas, sem dúvida nenhuma, foram vistas durante uma ou mais destas viagens. Os conhecimentos  recentes confirmam  o que já era  uma tradição antiga, baseada em mais ou menos informação positiva,  e que o primeiro cartografo que obteve essa informação, embora vaga, registou-a o melhor  que ele pode neste mapa. 

Nós não sabemos se a Carta Náutica de 1424 é a primeira carta  na qual as Antilhas estão desenhadas; só sabemos que esta é a mais antiga carta existente  na qual as Antilhas aparecem.”

“ Não é fácil dizermos quais das Antilhas  é que  estão representadas neste grupo ou até o próprio  Continente Americano.  Haiti, Cuba, Jamaica, Puerto Rico, algumas das  Bahamas, Trinidade ou algumas das  Antilhas Menores, Florida ou até a  Gronelândia?  Não temos  nenhum  guia seguro que nos ajude a tentar tal identificação.  A única certeza que temos é que várias destas terras foram vistas, mas a sua identificação é tão incerta como o significado dos sete nomes misteriosos que aparecem na Lenda das Sete Cidades e estão escritos na Antilha e provavelmente influenciaram também a escrita de sete nomes misteriosos nas ilha de Satanazes” .

O que faltou a Cortesão 

O GUIA  QUE FALTOU  ao Armando Cortesão foi descobrir as linhas de latitude na Carta Náutica de 1424. Ele andou lá muito perto, mas não teve sorte . Foi pena porque ele bem merecia.  Um Homem que passou toda a sua viva a estudar e analisar mapas antigos. O seu maior monumento certamente  é  a    sua grande  participação na criação da Monumenta Cartográfica Henriquina. 

Eu falei pessoalmente várias vezes no Instituto de Cartografia  da Universidade de Coimbra  com o Professor Armando Cortesão,  por quem tinha muita admiração,  durante o período em que  fui estudante na Faculdade de Medicina na Universidade de Coimbra entre 1952 a  1958. Mas  naquele  tempo,  porque eu me  tinha que  me preocupar  intensamente com as anatomias e patologias para conseguir notas distintas, não tive tranquilidade para descobrir as linhas de latitude na Carta Náutica de 1424, como fiz no sossego da minha casa, em Bristol, Rhode Island, E. U. A.,  no dia 7 de Novembro de 1986, dois minutos para meia noite! 

Tenho muita pena do Dr. Armando Cortesão não estar vivo para saber da minha descoberta original das  latitudes na Carta Náutica de 1424 porque ele passou quatro anos a estudá-la  e a decifrá-la.  

O que é muito triste é que depois de Armando Cortesão morrer,  tanto o ‘homem mais  pequenino’, entre os  professores da Universidade de Coimbra, Damião Péres e o seu colega de história,  cem por cento comunista-leninista, Luiz de Albuquerque,  ambos criticaram negativamente  o livro escrito pelo Armando Cortesão --  “The Nautical Chart of 1424”.  Não apresentaram nenhuma interpretação da Carta de 1424. Só olharam para  ela como burros para um palácio!...   

Não sei quem é  agora o  responsável pelo Departamento de Cartografia da Universidade de Coimbra, se é que ainda  existe depois do Armando Cortesão ter morrido, porque foi ele que o criou. 

Infelizmente ainda hoje existem muitos historiadores e cartógrafos por esse mundo que não querem aceitar a veracidade da Carta Náutica de 1424, porque não sabem, nem querem  TRAÇAR  as linhas de latitude neste mesmo  mapa!  Mas este mal continua a infestar todos os professores das universidades e liceus  de Portugal.

A parte que me satisfaz e que me  tranquiliza  é que  estou a deixar escrito em  monografias, revistas e livros e também gravado e espalhado por meio da Internet,  esta minha descoberta original  das latitudes  na Carta Náutica de 1424,  para que  gerações vindouras possam realmente apreciar esta descoberta tão simples e tão singela.

Estou a consolar-me com as novas técnicas de comunicação. Os chamados ”professores”  já não podem mais bloquear as minhas descobertas nem os meus escritos usando a “conspiração  do silêncio”.  Agora até fogem de mim! São uns infelizes cheios de vaidades fúteis. Por isso não vão deixar marca  nenhuma  positiva na História!  Vão receber o que realmente merecem: Zero!

Return