As “novas descobertas” de que Menzies fala, 
não passam de
meras "histórias das Arábias"!
Pelo Professor Jin Guo Ping    Barreiro, Portugal   23 de Julho de 2004 

Gavin Menzies, autor de “1421 Year China Discovered the World (versão norte-americana: 1421- The Year China discovered America)”, na sua recente passagem por Lisboa, para participar no lançamento da versão portuguesa do seu livro sensacionalista, anunciou duas novas “descobertas”. Vamos reproduzir e analisar parte da sua entrevista com o jornalista António Carvalho.

A primeira:

“Trago-vos precisamente duas descobertas, feitas já depois da publicação do livro, e que dizem respeito à história portuguesa. A primeira é a confirmação da presença chinesa nos Açores (ilhas das Flores e do Corvo), em 1422, ou seja, antes da sua descoberta pelos portugueses. Essa confirmação é feita pelos estudos de DNA ali realizados pelo professor Antonio Arnaiz-Villena e pela sua equipa - esses estudos, publicados em Tissue Antigens, volume 54 (HLA in the Azores Archipelago: possible presence of Mongoloid genes), em 1999, assinalam a existência de genes chineses e mongólicos entre a população dessas ilhas.”

O referido estudo foi publicado por um grupo de investigadores espanhóis (Bruges-Armas, J. Martinez-Laso, B. Martins, L. Allende, E. Gomez-Casado, J. Longas, P. Varela, M. Gonzalez-Granado, A. Arnaiz-Villena) in Tissue Antigens 54: 349-359, 1999.

Eis o resumo

“The HLA profile of the Azoreans has been compared with those of other world populations in order to provide additional information regarding the history of their origins. The allele frequencies, genetic distances between populations, correspondence analyses and most frequent haplotypes were calculated. Our results indicate that the Azorean population most likely contains an admixture of high-frequency Caucasoid, Mongoloid and, to a lesser degree, Negroid HLA genes. The middle Atlantic Azores Archipelago was officially colonized by the Portuguese after 1439 and historical records are concordant with the existence of Caucasoid and Negroid population. However, Mongoloid genes were not suspected, but the Oriental HLA haplotypes A24-B44-DR6-DQ1, A29-B21-DR7-DQ2 and A2-B50-DR7-DQ2 are the fourth, fifth and sixth most frequent ones in Azores . A correspondence analysis shows that the Azorean population is equidistant from Asian and European populations and genetic distances are in some cases closer to the Asian than to European ethnic groups, and never are significantly different; also, B*2707 subtype is found in Asians and Azoreans (but not in Europeans) and the same Machado-Joseph Disease founder haplotypes (Chr 14) are found in both Japanese and Azoreans. It is proposed that a Mongoloid population exists in Azores ; whether, the arrival occurred prior to discovery is undetermined.”

Para forjar a primeira descoberta, o Sr. Menzies fez duas “operações”.

Primeiro, tirou o adjectivo “possible” para fundamentar a sua afirmação.

Segundo, não hesitou em igualar os Chineses aos mongoloides.

Reparem bem: Os investigadores espanhóis não falam em chineses. Dizem apenas: “Our results indicate that the Azorean population most likely contains an admixture of high-frequency Caucasoid, Mongoloid and, to a lesser degree, Negroid HLA genes…. A correspondence analysis shows that the Azorean population is equidistant from Asian and European populations and genetic distances are in some cases closer to the Asian than to European ethnic groups, and never are significantly different”.

O Sr. Menzies tomou a liberdade de interpretar os “Mongoloid” e a “Asian population” como chineses para a sua necessidade. Que falsificação flagrante!

A conclusão do referido estudo é muito clara: “It is proposed that a Mongoloid population exists in Azores ; whether, the arrival occurred prior to discovery is undetermined.”

O Sr. Menzies alterou de propósito tudo:

“A primeira é a confirmação da presença chinesa nos Açores (ilhas das Flores e do Corvo), em 1422, ou seja, antes da sua descoberta pelos portugueses.”

Segundo o investigador Rui Lourido, a presença chinesa nos Açores de que há notícias documentadas data apenas do século XIX, quando foram introduzidos súbditos do Filho do Céu para experimentar a plantação de chá no Arquipélago.

Ó, Sr. Menzies, onde está a base para poder afirmar que a presença chinesa nos Açores data de 1422?

A segunda é uma ignorância rematada.

“É a de um mapa do mundo desenhado em Veneza, em 1408-1410, e depois trazido para Portugal pelo infante D. Pedro. Calculava que este mapa devia existir e agora tenho a certeza, realçando que este livro tem um dramático impacte na história portuguesa. O que aconteceu foi que Zheng He chegou à Europa em 1408, entrou no Mediterrâneo através do mar Vermelho e dirigiu-se a Veneza, onde este mapa foi feito, dois anos depois. Portugal obteve essa informação e os capitães portugueses navegaram em seguida com cópias do mesmo mapa. E penso que a razão pela qual, depois, disseram a Colombo que não estavam interessados no seu projecto é porque conheciam o caminho verdadeiro para a China!”

No seu livro, é mencionada uma cartografia de 1428, perdida, agora uma anterior, que apresente ao Mundo!

Tendo sido o Sr. Menzies marinheiro durante uma dezena de anos, deve saber em que século foi aberto o Canal Suez, aliás isto é de conhecimento geral. Não é preciso ser marinheiro para o saber. Diga-nos então como é que “Zheng He chegou à Europa em 1408, entrou no Mediterrâneo através do mar Vermelho e dirigiu-se a Veneza”?

A intenção desta “ignorância” é mais do que óbvia e as restantes “estórias” são obviamente fantasiadas.

Quanto ao mapa, o Sr. Menzies, perante os Chineses, lançou outra versão, em 5 de Julho deste ano: “Há 3 meses atrás, um estudioso australiano, junto com outro estudioso norte-americano descobriram uma cartografia náutica do Mundo, feita por venezianos em 1410.” Evidentemente, ele não podia dizer aos Chineses que Zheng He chegou à Europa em 1408, via Mar Vermelho, porque não há nenhuma fonte chinesa que forneça qualquer informação sobre isto. Uma afirmação destas o colocaria logo em ridículo. Não teve esta preocupação em Lisboa, pois o público português levaria algum tempo a verificar e confirmar o que ele dizia. Pelo menos, arranjou algo “novo” para sensacionalizar a sua estadia em Lisboa.

Todo o livro “1421 Year China Discovered the World” não passa de fabricações das mais desvairadas. Sendo “historiador amador”, o Sr. Menzies julga ter toda a liberdade em deturpar fontes à vontade para as suas necessidades, ignorando toda e qualquer regra académica básica.

Não estamos a fazer guerra ao Sr. Menzies.

Estamos a defender a dignidade da comunidade científica internacional e a verdade dos factos das histórias da China, Portugal e Mundo.

O silêncio da sinologia ocidental em relação às “teorias” do Sr. Menzies traduz um profundo repúdio a um laico que não sabe o que anda a dizer.

Dois conhecidos professores universitários chineses que participaram no Congresso Internacional “A Civilização Mundial e as Viagens de Zheng He”, que teve lugar na Universidade de Pequim, entre 11 e 12 de Julho, reagiram às novas “descobertas”de Menzies. O Prof. Li Jinming, do Instituo da Ásia Marítima da Universidade de Amoy, declarou à imprensa chinesa frisando: “Para mim, os pontos de vista de Menzies sobre a descoberta chinesa das Américas não passam de suposições. As novas teorias de Menzies baseiam-se principalmente em algumas peças cartográficas dos séculos XV e XVI, em que ele descobriu que a Patagónia e os Andes já se encontram traçados um século antes das suas visitas pelos primeiros europeus. A Antártida foi desenhada com exactidão, 4 séculos antes da chegada europeia ao Novo Mundo. A costa da África Oriental já se encontra cartografada com longitudes exactas. O Sr. Menzies acha que o único país capaz de produzir estas cartografias era a China. Estas suposições carecem de fundamentos documentais históricos e achados arqueológicos de supostos barcos das expedições de Zheng He. (Zheng He, o primeiro descobridor do Continente Americano? Posição de inglês suscita dúvidas no meio académico chinês. 13 de Julho de 2004

O Prof. He Fangchuan, Director do Instituto da Ásia-Pacífico da Universidade de Pequim e Vice-Presidente da Sociedade da História da China, autor de “Macau e as naus portuguesas---Portugal e a formação da rede comercial do Pacífico no início da Era Moderna (Editora da Universidade de Pequim, 1996)” pus em causa a seriedade das novas “teorias”de Menzies nos seguintes termos: “Tendo o Sr. Menzies largas experiências de vida marítima, é natural que se interesse por Zheng He. O seu respeito por Zheng He constitui um motivo de alegria para nós. Servindo-se dos seus ricos conhecimentos das viagens marítimas, mostra ao Mundo grandes sucessos da antiga náutica chinesa, o que se reveste dum significado positivo que deve ser confirmado. No entanto, se quiser ser um estudioso, os seus estudos académicos devem ter certa seriedade. Não posso dizer que as suas suposições não sejam correctas, mas é preciso comprová-las. Isto requer longos tempos de pesquisa. (Zheng He, o primeiro descobridor do Continente Americano? Posição de inglês suscita dúvidas no meio académico chinês)”

No mesmo Congresso, a nossa comunicação assim classifica o livro de Menzies: “O autor é, de facto, um historiador amador, tipo ‘pára-quedista’. A sua obra está longe de poder ser considerada como académica. No máximo, poderia ser lida como ficção histórica.”

Nós, com base em fontes chinesas, portuguesas e árabes, e mediante uma metodologia comparativa, chegamos a uma preliminar conclusão de que as viagens marítimas chinesas chefiadas por Zheng He não teriam ultrapassado o Canal de Moçambique (Ming-Yang Su, Meng Xisi Zhu 1421 Zhongguo Faxian Shijie Zhongwai Pinglunji (Críticas Mundiais sobre 1421 - O Ano em Que a China Descobriu o Mundo, de autoria de Gavin Menzies), edição do compilador, Taiwan, Outubro de 2003, pp. 205-208). Segundo declarações feitas pelo Professor He Fangchuan, esta teoria é amplamente aceite pelo meio académico da China Continental (Zheng He, o primeiro descobridor do Continente Americano? Posição de inglês suscita dúvidas no meio académico chinês).

Vê-se que a imprensa chinesa já lhe tirou tanto “historiador” como “amador”, chama-lhe simplesmente “inglês”. Ao invés dos muitos títulos que lhe atribuíram quando ele fez a palestra na Royal Geographical Society e quando saiu a sua obra na Inglaterra e nos USA, isto não é significativo?

Tal como é ignorado pela sinologia ocidental, Menzies é repudiado pela melhor crítica académica chinesa, como acabamos de ver.

As viagens de Zheng He, sendo um tema relacionado com a história da China, as pessoas gostam de saber da reacção dos chineses.

O jornalista António Carvalho perguntou:

Como é que os chineses reagiram a este livro?”

Menzies respondeu:

“Recentemente foi descoberto que os registos das viagens de Zheng He não foram destruídos, como todos pensavam: estão lá, na China...Este livro tem um dramático impacte na vossa história.

Menzies respondeu, mas fugiu à pergunta. Saiu com uma resposta que não tem nada a ver com a questão. O Sr. Menzies estava atrapalhado!

O que podemos anunciar ao Mundo é que Menzies está completamente “queimado” perante os estudiosos e investigadores sérios da Sinofonia.

Vejam os comentários feitos por alguns estudiosos chineses no recente documentário de PBS.

Citemos o Professor Wang Tianyou, antigo Director da Faculdade de História da Universidade de Beijing: “Quem apresentar uma teoria nova tem que mostrar arquivos documentais ou evidência arqueológica, porque se não tiver nenhuns destes elementos, como acontece com Sr. Menzies, não tem teoria nenhuma! É por isso que a teoria do Menzies é totalmente errada e não tem valor nenhum! (www.apol.net/dightonrock/gavinmenziescondenadoatorturachi.htm)”

Esperamos que o Ocidente abra os olhos para uma pura fantasia, do tipo do “Diário de Hitler”.

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