AS
VIAGENS DO CAPITÃO MENZIES
Por Daniel de Sá
"Diário Insular", Angra do Heroísmo, Terceira, Açores
11 de Julho de 2004
A falta de honestidade, intelectual ou qualquer outra, pode ser a melhor maneira de alcançar êxito na literatura - no caso de se considerar que o lucro económico é êxito e que ao produto se possa chamar literatura. Basta pensar nas poucas vergonhas que na América vão rendendo milhões. Agora, aparece por aí um tal Gavin Menzies, antigo capitão da Royal Navy, a fazer fortuna com uma tese fantástica que, mais do que demonstrar que os chineses precederam Portugueses e espanhois em todos os mares, prova a eterna sabedoria bíblica ao dizer que o número de tolos é infinito. Ele, porque o afirma, outros, porque parece que acreditam.
A profissão de marinheiro dá -lhe uma certa autoridade aparente, mas o desejo de impressionar fê-lo cometer erros imperdoáveis até‚ num simples cozinheiro de submarines. É que o "investigador", que diz basear-se em documentos que foram destruídos no século XV - sejam louvados os deuses da demência, se os há, jura que os chineses navegaram por todo o orbe terrestre, do Arctico ao Antárctico, da Austrália às ilhas do Pacífico. E estas viagens fabulosas incluem, embora ao contrário, as famosas passagens do Nordeste e do Noroeste, tentadas em vão durante séculos.
Um dos sonhos europeus era atingir a China indo pelo Norte da Europa e da Ásia, o que diminuiria a distância da rota do Cabo, sobretudo em relação aos países setentrionais. Esse feito só seria conseguido pelo finlandês Nordenskjold em 1879, depois de, por causa do rigor do Inverno, ter interrompido a viagem iniciada no ano anterior. O arquipélago de Nova Zembla fora sempre o limite de tais viagens e o cemitério de vários exploradores, entre os quais o famoso Barents.
Quanto à passagem de Noroeste, que supunha contornar o Norte do Canadá, só foi possível já no século XX. Conseguiu-a Amundsen, em 1906, que demorou três Verões para navegar da baía de Baffin até‚ Nome, no Alasca. Para piorar a dificuldade dos seus heróis chineses, Gavin Menzies põe-nos a contornar pelo Norte, quer a Nova Zembla, quer a Gronelândia, viagens impossíveis, sobretudo esta, pois que a maior ilha do Mundo fica a menos de oito graus do Polo Norte, pelo que nem um quebra-gelos se atreve a meter a proa por essas bandas. Mas estes sáo os pormenores em que qualquer leigo descobre o absurdo da imaginação "menziesca".
Com um pouco mais de conhecimentos náuticos, embora ainda elementares, sabe-se que os juncos chineses nunca poderiam fazer uma viagem ao redor da Terra, mesmo sem sair muito da proximidade dos trópicos, porquanto o seu velame não tinha capacidade de manobra para os diferentes ventos com que haveriam de deparar-se. E tudo isso, santa estultícia, entre 1421 e 1423, numa demora equivalentea que teve Amundsen apenas para viajar da Gronelândia ao Alasca ocidental!
Outro seu erro histórico e científico de crassa ignorância, refere-se a presença de genes chineses em nós, açorianos, deixados por esses navegadores. Como, se estas ilhas estavam desabitadas? Terão permanecido os genes no ar, na água ou no solo? Ou nas aves que cá havia, como se de uma pneumonia atípica se tratasse? E lá vem, por arrasto, ignorâncias afins tentando corroborar a tese. Pode ler-se num "blog" (o mal da "internet" é não ser possível filtrar os disparates nela despejados) que a existência, nos Açores, de hortênsias (de origem chinesa) e de criptomérias (vindas do Japão) talvez sirva de prova circunstancial.
Puro disparate. Umas e outras foram introduzidas no século XIX. A criptoméria talvez mesmo pelo morgado Joao Silvério Vaz Pacheco de Castro, dono do Solar de Lalém, aqui na Maia, que era um dos principals responsáveis da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense no que se referia à procura de espécies que pudessem compensar economicamente, os prejuízos causados pela perda da exportação da laranja.