Os Bandidos do Corno da África
Por Manuel Luciano da Silva, Médico

Este artigo já foi publicado há dez anos, mas o seu conteúdo esta actualizado. Se os americanos forem atacar os terroristas que controlam ainda hoje  Somália, a explicação dos motivos está bem esclarecida neste artigo. 

O leitor certamente  sabe onde fica o Cabo da Boa Esperança  e  que foi o  glorioso  navegador português  Bartolomeu Dias que o ultrapassou em 1487!  Permita-me que lhe pergunte: onde fica o Corno da África?  Na Somália!  O cognome de Corno da África  deve-se à configuração geográfica que aquele  país  apresenta no mapa do continente africano. O nome Somália faz-me lembrar  uma coisa sómal... uma coisa somenos como dizem os faialense... Realmente é verdade,  a Somália é,  há muitos séculos,  uma terra paupérrima! A única coisa que se aproveita é a sua posição estratégica no  Oceano Índico em relação ao Golfo de Adem  e do Mar Vermelho.  

A Somália está localizada numa região tórrida,  com uma latitude até doze graus ao norte  do equador e com uma longitude entre 40-50 a leste de Greenwich.   Tem uma costa marítima de 1,850 milhas virada para o Índico. Na parte ocidental tem fronteiras com a Djibouti (Somália Francesa), Etiópia e Quénia.

O território que hoje compõe a Somália resultou da fusão  da Somália Inglesa (no norte) e da Somália Italiana (no sul) criando-se assim uma República Independente em 1960 devido à intervenção das Nações Unidas.  Em 1936 Mussolini a partir da Somália Italiana atacou a Etiópia só para saciar as suas ganas megalomaníacas  de imperador romano... "Porca miséria!" 

A Somália tem uma população de 8,5 milhões  e a sua área é de 246,00 milhas quadradas,  quase igual ao estado de Texas!  A maior parte do terreno da Somália é constituído por um planalto irregular, com temperaturas entre os 70 e 120 F (21 e 49 graus Centígrados)  e  tem chuvas  anuais  desde uma a 20 polegadas.

Os primeiros povos que arribaram na Somália entre 1200-1300  eram formados por tribos que vieram das bandas do Egipto. Ainda hoje a estrutura  económica e social dos somalianos é baseada em várias tribos que  vivem da criação de  gado (bovino e caprino), e  cultivam também  a  agricultura   com produção de açúcar, bananas, milho e  incenso.

Para ficarmos com uma visão  mais clara  do nível de vida do povo da Somália basta observarmos algumas estatísticas. Com uma população de 8,5 milhões possuem  apenas um rádio para cada vinte habitantes e têm um médico para cada vinte mil pessoas! O país possui dezassete mil automóveis e nove mil veículos pesados. A longevidade é de 53 anos tanto para os homens como para as mulheres. Quarenta por cento da população é analfabeta, cinquenta por cento só tem a instrução primária e sete por cento frequenta  o liceu. 

Fome na Somália
Todos nós sabemos que as Nações Unidas tem estado a socorrer  com alimentos o povo da Somália que estava  aos milhares a morrer de fome. Mas como é tradicional nestas empresas humanitárias (Operation Restore Hope) os americanos é que aguentam sempre com a maior bucha! Para lá foram  mais de trinta e sete mil americanos,  comparticipados com muitos milhões de dólares do Zé Povinho Americano! 

Como é que a Somália chegou a tamanha miséria? Por causa  do negócio que os "bandidos da Somália" (warlords) têm feito com as folhas de "khat".  A causa principal da anarquia na Somália tem sido o uso da  droga chamada "khat"  contida nas folhas dum arbusto do mesmo nome. Já há centenas, se não milhares de anos, os povos da África Oriental mastigam as folhas de "khat" por causa das suas propriedades estimulantes. Mastigando as folhas de "khat"  -- como se faz com o tabaco -- a pessoa tem uma reacção semelhante à da anfetamina, isto é, fica  mais eufórica, mais excitada, embora depois a sua concentração mental fique perturbada.

O agente estupefaciente da droga  "khat" chama-se catione  e é quimicamente muito semelhante à anfetamina e à efedrina,  ambas estimulantes do sistema nervoso simpático ou seja do  nosso sistema acelerante. 

Mastigar "khat" é tão  socialmente aceitável na cultura da Somália, como  é aceitável beber-se café expresso na civilização europeia.  Tanto  homens como  mulheres mastigam  folhas de "khat"  quer em festas  de  família ou reuniões  sociais onde se ouve música ou recitais de poesia!  Na Somália existem até casas especiais chamadas muffraj  designadas especificamente  para  as reuniões de "khat". Os mastigadores de "khat" usam cerca de 100 a 200 gramas de folhas durante 3 a 4 horas por dia.  Sabe-se que  no sul cerca de 18 por cento da população usa diariamente  "khat",  mas no norte a percentagem é muito maior: 55 por cento. A maior quantidade das folhas de "khat" é cultivada na Quénia sendo   transportada para Nairobi e depois rapidamente  voada para Mogadíchio, numa média de oito toneladas por dia!  As folhas têm que ser mastigadas ainda verdes, praticamente no mesmo dia, porque depois de secas perdem a potência  do catione. 

Bandidos da Somália
Os "bandidos da Somália" (warlords)  é que são os grandes vendedores das folhas de "khat". Os "bandidos"  fornecem  aos soldados que compõem as suas quadrilhas  as folhas de "khat" para que eles  não tenham fome, nem sono, para que percam o libido sexual, tornando-os ao mesmo tempo psicologicamente dependentes ou apetentes  da droga,  aumentando-lhes o desejo de agressão e de  fantasia  omnipotente.  Tal qual a anfetamina,  altas doses de "khat"  tornam o indivíduo paranóico, psicótico e agressivo. Na Somália tem-se verificado  a associação do uso da droga  "khat" com a condução desastrosa,  com argumentos disparatados  e até com o abuso das armas de fogo.  

Antigamente víamos nos filmes de "cowboys" os bandidos andarem sempre a cavalo. Mas na Somália os "bandidos" andam à moderna:  de "jeeps"  com   metralhadoras no tejadilho!  Tem sido os "Bandidos da Somália" que têm arruinado a vida económica do país causando a morte e a fome a muitos milhares de concidadãos. A venda  ilegal da droga "khat" tem causado uma enorme extracção irreversível de dinheiro  para fora da nação.  O "negócio"  da importação da  droga "khat"  da Quénia para a Somália ultrapassa  os cem milhões de dólares por ano incluindo  os lucros dos grandes vendedores (bandidos), dos transportadores e dos vendedores  das folhas aos consumidores. A transacção da droga  para  a Somália é superior  à do custo da importação dos alimentos e das armas.  O mais dramático é que os lucros da droga "khat"  não voltam  à economia da Somália, porque são depositados pelos "bandidos"  em bancos estrangeiros,  esvaziando  assim cada vez mais os recursos financeiros do país.  

O que se verifica é que as pessoas que se drogam com  a "khat" gastam cerca de 50%  do  seu ordenado para manterem o vício. Gastam em média cerca de seis dólares por dia,  o suficiente para comprarem  20 quilos de arroz ou milho, o  suficiente para alimentar seis pessoas durante uma semana. 

Soldados americanos 
Os soldados americanos foram para a Somália não só para distribuir alimentos mas também para manter a ordem  social e ao mesmo tempo confiscar as armas  dos "bandidos e soldados somalianos".  É muito conhecido o ditado: "a caridade deve começar em casa". Se analisarmos as estatísticas americanas sobre  o uso das drogas  e dos assassinatos nos Estados Unidos com armas de fogo verificamos que em  1992 mais de dez mil pessoas perderam a vida. Em contrapartida na Inglaterra apenas 22 pessoas morreram por meio de balas. Se a América tem 250 milhões e a Inglaterra 55 milhões quer dizer que nos Estados Unidos existem cem vezes mais assassínios. Porquê? Devido à enorme abundância  de armas que existe neste país.  O povo americano possui mais de sessenta milhões de revólveres e espingardas.  Porquê? Porque o Segundo Artigo dos Direitos Humanos da Constituição Americana diz que "todo o cidadão tem o direito de possuir uma arma de fogo para se defender". Mas esta lei foi criada  há mais de duzentos anos!  Tem havido várias tentativas no Congresso Americano para se modificar esta lei mas devido à pressão da Associação das Armas de Fogo nenhuma ainda foi aprovada.  Na América qualquer pessoa pode facilmente comprar um revolver ou metralhadora  como se comprasse um quilo de açúcar numa mercearia... Não há controle rigoroso das armas de fogo como acontece na Inglaterra ou em Portugal!  Na América pode-se até comprar  qualquer arma de fogo dando a ordem por  catálogo!...

Exemplo universal 
Os soldados americanos  foram daqui para a Somália, a tantos milhares de milhas  de distância,  sujeitando-se a perder a vida  quer por doença, quer  por balas,  para eliminar o uso da droga "khat"  e confiscar as armas "aos bandidos da Somália" quando afinal  temos ambos os problemas aqui na América muitíssimo mais intensos e mais  graves!  As Forças das Nações Unidas  quando terminarem a sua missão na Somália podiam vir fazer uma "limpeza" nas grandes cidades  americanas...  que continuam  contaminadas  pelos  traficantes ou "bandidos das  drogas e das armas de fogo": New York, Chicago, Boston, Miami, São Francisco, Los Angeles, etc.

Foi o abuso da droga "khat" que levou a Somália ao abismo. Esta  situação dramática devia servir de exemplo para alertar  todas as nações do mundo.  Todos os lidadores mundiais têm que fazer uma guerra sem tréguas e sem perdão aos traficantes das drogas e das armas de fogo.

  Ficamos profundamente confrangidos  ao  vermos a Primeira República Mais Antiga do Mundo, os E. U. A., ser a  lidadora da democracia  mundial, mas também ser a campeã dos assassinatos com armas de fogo. Porquê? Porque nos Estados Unidos continua a existir uma lei -- o II Artigo -- que é  ambivalente sobre o  controle do uso de  armas de fogo, favorecendo as pessoas  que usam  ilegalmente as drogas e os "bandidos americanos" que as vendem!   Será que o Congresso  actual e o Presidente Clinton vão aprovar uma lei para o controlo de armas para  se acabar com a gigantesca tragédia  dos dez mil assassínios anuais na América? 

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