Camões e a anatomia humana!

 

Por Manuel Luciano da Silva, Médico

 

Camões demonstra na sua obra imortal “Os Lusíadas” que era de facto um barra exímio na mitologia grega e romana. Mas nos conhecimentos de anatomia humana não passava da segunda classe!

 

Revendo os 8816 versos de “Os Lusíadas”  só encontramos 57  vocábulos referentes à  anatomia humana. Aqui estão eles:

Tendão de Aquiles, barba, braço, cabeça, cabelo, carne, cauda, cego, colo, coração, corpo, dente, doença, dor, dormir, enfermo, engolir, estômago, estupro, ferida, ferido, garganta, gengiva, hirsuto, homem, homicida, homicídio, humano, intestino,  joelho, juízo,  lágrima, mulher, nariz, olho, ouvido, perna, regaço, remédio, rosto, sangue, sanguíneo, saúde, seio, sexo, sono, suspiro, suor, surdo, veia, velho, velhice, vida, virgem, vida, vivo e voz.

 

Ao rever estes nomes fez-me recordar a Anatomia Humana que tive de aprender na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra usando um livro texto com mais de cinco mil páginas cobrindo Anatomia Descritiva e Topográfica. Esta cadeira que compreendia dois anos era tão vasta e exigia tanta decoração que todo o estudante de medicina nunca mais desejaria repeti-la na Faculdade de Medicina!  

É interessante notarmos que Camões não se preocupou com  o fígado, com os pulmões, com os rins,  nem com a pele quando ele teve ocasião de a ver  de várias  cores quando viajou até ao Oriente!

 

                                                                                             Verbos:

Em contraste com a anatomia, o grande poeta preocupou-se muito mais com as partes  sentimentais e  espirituais dando aos  seus protagonistas muita energia de acção!  Por estas razões Camões usou com muito mais frequência e intensidade verbos de acção. Aqui estão eles em ordem decrescente pelo número de vezes que são  usados:

Ser, ver, ter, fazer, dar, estar, ir, vir, deixar, poder, mandar, querer, haver, tomar, por, deixar, trazer,  levar, saber, mostrar, passar, ficar, tornar, olhar e chamar.  

 

                                                                                          Substantivos:

Pelos  substantivos que  Camões usou mais  frequentemente poderemos avaliar os  valores das coisas que ele mais apreciou na sua obra como  poeta. Aqui está  a lista dos substantivos  em “Os Lusíadas” por ordem decrescente dos  números das vezes que Camões os usou. Reparem também na importância da grandeza destes substantivos: 

Gente, terra, Rei, mar, água, mundo, céu, reino, peito, Deus, mouro, parte, amor, tempo, nome, filho, fama, força, vento, vida, guerra, cidade, nau, arma, capitão, morte, povo, ilha, campo, lei, olho, dia, cor, inimigo, feito, trabalho, mão, costa, causa e fogo.   

 

                                                                                             Adjectivos:

Para mim  é  a colecção dos adjectivos mais  usados frequentemente  em “Os Lusíadas”  que me dão uma melhor ideia da alma grande que o poeta tinha e um profundo amor  pela Pátria Portuguesa e pelos feitos  gloriosos dos nossos marinheiros e dos nossos heróis.

Reparem nos poderosos e positivos adjectivos que o poeta usou  em forma decrescente pelo número de vezes:

Grande, alto, forte, duro, claro,  novo, fero, humano, vário, antigo, ilustre, frio, formoso, rico, santo, nobre, largo, estranho, certo, doce, grão, ardente, belo, ledo, longo, divino, lusitano, famoso, soberbo, escuro e verdadeiro.

 

Com esta análise anatómica e introspectiva fiquei a conhecer muito melhor  a personalidade do Camões e até a sua composição filosófica e patriótica.

 

Foi emigrante durante 16 anos na África e na Ásia. Quis voltar a Portugal:

“Esta é a ditosa pátria  minha amada (Canto III, 21), para publicar a sua obra prima “Os Lusíadas”  em 1572.  Ainda viveu mais oito anos.  Morreu a 10 de Junho  de 1580, mas ainda teve tempo para ser profeta sobre a  perca da nossa  independência  para Espanha, quando disse: “Não só morro na minha pátria,  mas morro também com ela!”