Camões e o Amor!

Por Manuel Luciano da Silva, Médico

Há  vários tipos  de amor: amor maternal, amor paternal, amor filial, amor divino, amor patriótico, amor do próximo, amor platónico e até amor sexual. Todos estes  amores  são tratados em   “Os Lusíadas”  por Luís de Camões que os apresenta em 80 versos!

Aparecem  distribuídos pelos  dez Cantos desta maneira:  Canto I - 3 amores;  Canto II- 3 amores; Canto III- 17 amores; Canto IV- 10 amores; Canto V – 6 amores; Canto VI – 12 amores; Canto VII – 2 amores; Canto VIII -2 amores; Canto IX – 20 amores;  e Canto X – 4 amores. O Canto IX é o que tem maior número de amores porque depois dos portugueses passarem por situações muito difíceis na Índia o poeta decidiu levá-los, como recompensa,  para a Ilha dos Amores!..

                                       Quantos sonetos escreveu Camões?

Eu admiro muito os sonetos que Camões escreveu. Há quem diga que ele realmente escreveu 119 sonetos. Outros afirmam que foram 400,  mas provavelmente muitos  desses sonetos foram escritos  depois da morte do grande poeta.

Para mim o melhor soneto  dele não é  “Alma minha gentil que te partiste…”  mas,  sim o soneto dedicado ao Amor . E porquê? Porque é o soneto que revela com mais intensidade a profundidade  dos sentimentos  humanos em contrastes ou antíteses!  

Ao  examinarmos  toda a obra do grande Camões verificamos que ele tinha por  regra – era o seu estilo -  escrever todos os seus sonetos baseados em  contrastes. Branco versus preto, claro versus escuro, dia versus noite, dor versus prazer, cá e lá!   

Até mesmo em  “Os Lusíadas” onde  ele glorificou a coragem dos descobrimentos, a valentia e o poder de conquista e  de victória  dos nossos navegadores e missionários, ele teve o cuidado de dedicar   VINTE estrofes  servindo-se do protagonista,   o Velho do Restelo,  para  defender o ponto de vista conservador,  afirmando  que a grande empresa da descoberta do caminho marítimo para a Índia era uma grande tolice,  que  iria ter consequências desastrosas para Portugal  porque  a saída da juventude para fora do país faria empobrecer a nação,  destruindo a harmonia de muitas famílias,  empobrecendo os portugueses e resultando na perca de muitos milhares de vidas que iriam ser comidas pelas ondas do mar!    

Com  esta explicação  vamos agora saborear o soneto que Camões   compôs, com o seu génio poético, para apreciarmos  melhor os  contrastes que ele  nos revela:

 

                                    O Amor

                                                 Por Luís Vaz Camões

 

Amor é fogo que arde sem se ver,

É ferida que dói e não se sente,

É um contentamento descontente

É dor que desatina sem doer,

 

É um não querer mais que bem querer,

É solitário andar por entre a gente,

É nunca contentar-se de contente,

É cuidar que se ganha em se perder,

 

É querer estar preso por vontade,

É servir a quem vence, o vencedor,

É ter quem nos mata a lealdade.

 

Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é o mesmo amor?