Camões e os advogados

Por Manuel Luciano da Silva, Médico

Já há muitos anos eu escrevi que a melhor maneira dos portugueses poderem compreender ”Os Lusíadas” seria escrevermos vários artigos relacionado com as diversas profissões que existem no conteúdo dos 8816 versos que compõem a obra-prima do nosso maior poeta, Luís de Camões.

Já escrevi um artigo intitulado “ Camões e os Médicos”.

Há muitos anos eu desejava descobrir o que é que “Os Lusíadas” teriam registado a respeito dos advogados. Primeiro, antes de examinar os milhares de versos, tive que coleccionar os sinónimos de advogado. Aqui estão eles por ordem alfabética: Advogado, Árbito, Causídico, Defensor, Delegado, Intercedor, Mediador, Patrocinador, Patrono, Procurador, Protector e Representante.

Assim munido com estes doze sinónimos, dei inicio à minha tarefa de rever os 8816 versos. Ao fim de vários meses, fui surpreendido por NÃO encontrar NENHUMA referência a NENHUM dos doze sinónimos de Advogado! Porque seria que Camões nunca usou os serviços de um advogado quando esteve tantas vezes na cadeia?! Seria por ele ter sido sempre tão pobre? Mas naquele tempo não haveria delegados públicos? Curioso que Camões usa o verbo defender 23 vezes, mas nunca no sentido jurídico. Temos que pedir aos advogados actuais para nos ajudar a encontrar a razão porque Camões desprezou de tal maneira os causídicos a ponto de nem sequer os mencionar uma só vez no seu imortal poema!

“Primeiro devemos matar todos os advogados!”

Por ter ficado tão surpreendido por Camões ter omitido totalmente os advogados, quis saber como é que os advogados eram considerados nos outros países. Como vivo nos Estados Unidos da América desde 1946, quis saber qual era o conceito atribuído aos advogados na língua inglesa. Fui ao William Shakespeare por duas razões. Primeiro por ele ser apenas uma geração mais novo que Camões e segundo por ter sido também um grande poeta e um dos maiores dramaturgos mundiais, tendo escrito 37 peças teatrais que ainda hoje são representadas com muita admiração pelo mundo fora em várias línguas. Shakespeare continua a ser considerado a maior autoridade mundial literária na língua inglesa.

Em contraste com Camões, fui encontrar na peça teatral de Shakespeare intitulada “O Rei Henrique VI” no segundo acto, uma cena com este diálogo:

“THE FIRST THING WE DO, LET US KILL ALL THE LAWERS!” 

“A PRIMEIRA COISA QUE TEMOS QUE FAZER, É MATAR TODOS OS ADVOGADOS!

Esta frase tem sido considerada muito depreciativa para os advogados na América, muito mais até do que para os advogados na Inglaterra. O diálogo desta frase faz parte dum período revolucionário no Reino Unido durante o qual os revoltosos desejavam eliminar todos os advogados por serem considerados os detentores da Lei. É por isso que os advogados na América argumentam que esta frase de Shakespeare até serve de elogio aos advogados porque defendem a ordem social e a democracia! Claro que a um advogado nunca faltarão argumentos… O certo é que esta citação “Primeiro Matar todos os Advogados” é usada com muita frequência, incluindo nos meios de comunicação nesta nação, quando um repórter pretende menosprezar os advogados.

Reacção do Hitler para com os advogados

Na sua perseguição aos médicos e advogados, que na sua maioria na Alemanha eram judeus, o Hitler declarou uma guerra aberta a estes profissionais, perseguindo-os ao ponto de eles irem acabar nos campos de concentração ou holocausto. Como Hitler era um terrível ditador, não permitia nada de democracia, generalizou as suas afirmações em relação aos advogados desta maneira: “Nunca descansarei até que todo alemão compreenda que obter um curso de advogado será um acto muito vergonhoso para a Nação”.

Ninguém gosta de Médicos nem de Advogados

Eu pratiquei a Medicina Interna na Nova Inglaterra durante 45 anos.

Nunca tive um caso de “Mal Practice” ou de Acção Judicial Compensatória, a qual é muito frequente nos Estados Unidos da América. Sempre me relacionei muito bem com os meus milhares de doentes. Custou-me muito reformar-me aos 72 anos. O que me valeu foi manter semanalmente os meus programas médicos na rádio e na televisão, para assim me manter activo e actualizado nas últimas informações médicas. Ainda hoje, aos 84 anos, continuo a gostar muito das novidades da ciência médica. Nos meus programas, tenho dito muitas vezes que é normal os doentes não gostarem dos médicos por associação com as doenças, com a dor, com operações, com cancro, com hospitais e até com a perca de entes queridos. E não podemos esquecer as grandes contas ou despesas.

Mas duma maneira geral as pessoas gostam ainda muito MENOS dos advogados! Parece que dos advogados NUNCA vem uma notícia boa! Uma intimação, uma conta desconforme, ou uma terrível ameaça! Durante dezenas de anos eu lidei com advogados todos os dias e sempre nos respeitamos. Fui muitas vezes aos tribunais testemunhar por casos relacionados com as doenças dos meus doentes. Felizmente nunca tive nenhum problema.

Mas factos são factos. Uma coisa terrível que eu não posso concordar é a situação usada e explorada pelos advogados na América, a qual a meu ver está totalmente errada e devia ser ilegal. Qualquer pessoa na América pode iniciar uma acção judicial compensatória contra outra pessoa ou instituição, sem que a pessoa que inicia a questão jurídica tenha QUALQUER responsabilidade financeira, mesmo se PERDER a questão! Isto é horrível! Isto é o mesmo que assaltar um comboio como os piratas faziam nos primórdios nos séculos dezoito e dezanove na parte ocidental desta nação! Toda a pessoa deve ter direito a processar outro indivíduo, mas se PERDER a causa deverá PAGAR os custos do tribunal, o custo do advogado que defendeu a pessoa que foi processada e ainda o tempo que essa pessoa gastou para se defender. NINGUÉM deve ter o direito, numa democracia, de ROUBAR o tempo de trabalho, de apreensão nervosa duma pessoa que foi levada ao tribunal para ser obrigada a uma compensação monetária.

Se a pessoa acusadora PERDEU a questão DEVIA PAGAR pelo mal que causou à outra pessoa acusada. Mas os advogados na América não querem que se crie uma lei que proíba este comportamento dos advogados. Eles continuam a dizer para os seus clientes: “Assinas aqui e não te vai custar nada. Se ganharmos a questão metade do ganho será para ti e outra metade para mim.”

E como na América praticamente todas acções judiciais compensatórias têm cobertura por companhias de seguro, para evitar um processo longo no tribunal e correrem o risco de se perder a questão quando o julgamento poderá envolver um júri de 12 cidadãos, os advogados de ambas as partes chegam a um acordo compensatório como acontece em muitos casos médicos e este sistema tem sido “uma mina de ouro” para os advogados na América. Esta é uma das razões porque a medicina na América é a mais cara do mundo! Eu tive que pagar a uma companhia de seguros mais de mil dólares POR MÊS para me proteger duma acção judicial compensatória. Tive sorte de nunca ter sido vítima duma acção compensatória. Mas donde é que veio essa quantia fabulosa que eu tive de gastar para me proteger? DOS MEUS DOENTES!

Em defesa dos meus doentes tenho que me juntar ao grupo daqueles que não gostam dos advogados