Carta do Almirante Gago Coutinho que recebi em 1952

Como Secretário Fundador da “Miguel Corte Real Memorial Society” de Nova Iorque escrevi ao Almirante Gago Coutinho a pedir-lhe a sua opinião científica sobre as viagens dos Corte Reais e a descoberta da América. Aqui está, na integra, o documento do investigador que durante sessenta anos estudou  os descobrimentos navegando no Oceano Atlântico mais de 31 mil milhas e não comodamente sentado na sua biblioteca.

Carta do Almirante:

Almirante Gago Coutinho

 

Lisboa 9 de Março de 1952

Exmo. Senhor Secretário da “Miguel Corte Real  Memorial Society, Inc.”

Vou responder à vossa interessante carta de 30 de Janeiro passado, que vinha acompanhada dos fascículos “The Portuguese World”, muito interessante, o que muito vos agradeço. Já pelo correio passado  vos enviei uma dezena de  folhetos  sobre a   viagem dos Corte-Reais, que concretiza algumas ideias  inéditas a tal respeito. A vossa remessa, por causa de demoras na Alfândega daqui, só há uma semana me veio  às mãos.

Peço vossa atenção para as minhas ideias náuticas sobre o descobrimento americano, realizado muito provavelmente  mesmo antes de Colombo, possuído de ideias portuguesas, ter chegado às Antilhas em 1492. Só chegou ao Continente sul-americano na sua exploração de 1498.

Desde que os navegadores portugueses foram aos Açores, em 1431, notaram que lá iam dar restos de vegetais estranhos na Europa  e levados por ventos e correntes de Oeste, lá dominados. Tais terras  ocidentais, que os “Doutores”  da Península tinham  fortes razões para suporem não indianas, interessaram alguns aventureiros Portugueses – citados por H. Harrisse  - a começar com Teive em 1452, antes de o Infante falecer em 1460.

Aconteceu, porém, que essas terras misteriosas não interessavam os Reis de Portugal --  que nunca financiaram as expedições para Oeste, porque estavam convencidos de que o ambicionado “Plano da Índia”, só era praticável a contornar a África pelo Sul. O caso foi lucidamente preparado desde o tempo do Infante – desde, digamos, 1434 – mas só foi afinal realizado por Vasco da Gama em 1498, depois de estudada a maneira  de vencer o Vento Sudeste, oposto a viagens directas de Cabo-Verde para o  da Boa-Esperança.

Reconhecido que tinham sido tais ventos  o “Monstro” que tinha impedido o sucesso das tentativas de Cartagineses, Fenícios, Catalães, Normandos e Genoveses, o Infante resolveu começar o estudo pelo princípio convencido de que as viagens de Alto Mar estavam interditas aos barcos do Mediterrâneo – às Galés – por causa de numerosa chusma de remadores, que era preciso alimentar bem, o Infante, ouvindo Doutores  e Mareantes – segundo a versão do conhecido  quadro do pintor Sousa-Lopes conclui  que se impunha a criação de um barco próprio para reconhecimentos no Alto-Mar, pequeno, maneio, de tripulação reduzida. Assim, nasceu a chamada “Caravela  Portuguesa”. Para a orientar quando fora da vista de terra, sem receio de os navios não poder  voltar --  receio que Colombo, meio século depois não  levava – recorreu-se,  a observação da única coisa que lá podia  servir – os Astros – como se faz hoje. Para o  que bastou simplificar o Astrolábio e tornar  os Almanaques astronómicos, conhecidos na  Península  havia séculos, extraindo deles, manuscritos e  os Regimentos da Estrela do Norte e do  Sol.

Armados com este novo recurso, os “Caravelistas” passaram além das Canárias, do Cabo Bojador. Ventos e correntes eram contrários  ao regresso. Mas descobriu-se que ao largo da costa se faziam de leste, permitindo ganhar norte, até que, no Mar dos Açores, os ventos de Oeste, e depois de Norte, permitiam o regresso a Sagres. Tal navegação era apoiada nas observação astronómicas, que indicavam os erros das agulhas e, também as Latitudes. Só desde o século 1700, com os instrumentos de “duplas reflexão”, criados por Newton, é que foi praticável a determinação da hora no alto mar e se melhorou a Navegação, com a longitude.

Mas os recursos usados no século de 1400 --  com os quais se contornavam  os ventos contrários, passando ao largo da África pelo chamado  “Mar de Sargaço” -- permitiram ir-se a toda a parte, à vela.   Naquela  volta larga, descobriu-se o vento de leste, dominante no Atlântico-Central, ao qual já me referi. E assim se tornaram praticáveis as viagens ao Ocidente, com o regresso garantido pelos Açores sempre com ventos favoráveis. Isto era conhecido dos Pilotos aventureiros, e, foi com estes, que Colombo aprendeu a maneira segura de ir e voltar das Antilhas, o que não poderia ter adivinhado.   E, embora isto não seja considerado por alguns Professores americanos, como George Nunn, W. Greenlee, Samuel Eliot Morison, etc., todos desprezando a Arte-Náutica, e tão “colombianos” que admitem que Colombo os conheceu por inspiração ou instinto, e não por  ter navegado entre  1480 e 1490 com Pilotos Portugueses, para quem tais princípios tinham sido bebidos a bordo das “Caravelas  Portuguesas”, é certo – isto é lógico.

De sorte que, por os Aventureiros Portugueses, não subsidiados como Colombo por uma Rainha-Aventureira e Ambiciosa – D. Isabel de Castela – e por saberem  navegar melhor que escrever, é pouco claro para letrados o rasto que eles deixaram, ao contrário do que aconteceu com Colombo.

Henry Harrisse, no seu estudo, “Les Corte Real”, como juris-consulto, não dá valor a estas considerações, e duvida da passagem de GASPAR CORTE REAL   pela  Terra Nova em 1472, portanto antes  de Caboto  ter chegado  a uma terra ocidental que não sabemos bem  onde fica e que,  teria, talvez, sido costa dos actuais Estados Unidos da América do Norte. Acontece, porém, que o conhecido mapa Português, ainda existente, e lavado para Itália por Cantino, secretamente, apresenta  já em 1500 a característica Península da Flórida, indicando  que Pilotos Portugueses lá chegaram idos pelo sul com só mesmo ventos favoráveis que levaram Colombo às Antilhas, muito antes de os espanhóis lá terem chegado em 1511.

Certo,  é  mais lícito supor que nas conhecidas  e numerosos viagens portuguesas à Guiné, repetidas, desde  1445, os Pilotos Portugueses  descobriram aquilo que é gratuitamente  atribuído em geral ao génio de  Colombo, como os  ventos dominantes, todo o ano – os “alisados” – de “corrente”  de Oeste – o  “Gulf  Stream”  - e até à   “variação  da agulha” , sem dúvida conhecida  dos Astrólogos, por ser essencial para os “Relógios de Sol”.

Esta e outras  conclusões infantis, são facilmente desfeitas por quem tenha viajado  à vela “com olhos de ver” como me aconteceu a mim desde  1892, há sessenta anos. E o ‘talent’ do instinto de Colombo, como o do acaso de Cabral, estão tão  arreigados no espírito dos letrados terrestes, que quem começar por escrever sobre Colombo, como é frequente  em Itália – onde é acatada a fantasia dos descobrimentos  de Vespúcio pelo Professor Magnaghi – aqueles partem sempre  em principio por aceitar as “conceptions”  de George Nunn!

Em resumo, há provas de que os Pilotos que frequentaram o “Mar dos Sargaços”,  desde pelo menos 1446 -- antes de Colombo nascer  -- tinham experiência para muito antes dele, e mesmo antes de 1472, poderem ir à costa americana. Nauticamente, tal costa  foi  descoberta pelos experientes pilotos portugueses muito antes de 1492.

Tal  é o comentário técnico-náutico, com que apoio a versão das navegações  dos Corte Reais  como os  Pioneiros incontestáveis  do descobrimento  da América.

Assinou,   Gago Coutinho