A regra dos cinco pês!
Por Manuel Luciano da Silva, Médico

 

  Foi no dia primeiro de Julho de 1963,  que eu comecei a trabalhar como médico no Centro Médico de Bristol,  Rhode Island. Dois dias antes tinha terminado  o meu treino  em Medicina Interna na famosa Lahey Clinic em Boston. Toda a  vila-cidade de Bristol e arredores  eram para mim terreno novo a desbravar. Não conhecia  ninguém, nem ninguém me conhecia. Para ganhar clientela eu tinha que fazer qualquer coisa para me tornar conhecido.

Naquele tempo  a regra  da ética da Associação Americana de Medicina proibia  qualquer anúncio  de  consultório médico, quer nos jornais quer na rádio.   Eu tinha que me mostrar, tinha que fazer qualquer coisa para  que  a comunidade soubesse que eu existia como professional. Depois de dar  muitas  voltas ao miolo resolvi pôr em prática a  Regra dos Cinco Pês.

  (1) Polícia -- Logo na primeira semana fui entregar-me à policia... Era o  primeiro pê. Cheguei à  sede na Court Street, disse "Good Morning" ao oficial que estava de serviço   e expliquei-lhe  quem eu  era e  que  tinha principiado  a exercer medicina no novo Centro Médico de Bristol.

Vinha  apresentar-me  à polícia, porque no exercício das nossas profissões ia   haver ocasiões dramáticas em que  ambas as partes  teríamos que  nos complementar, médica e legalmente,  para socorrer  as mesmas vítimas em  acidentes ou outras emergências. O polícia de nome Frank Brown, luso-americano,  que me recebeu, apercebendo-se  da originalidade do meu gesto,  quis  apresentar-me ao Chefe da Polícia Anthony Ferrara que me deu as boas vindas  com muita simpatia.

  (2) Press ou imprensa -- Indaguei se havia algum jornal na cidade. "Oh, sim! Temos aqui em Bristol o "Bristol Phoenix" um dos jornais mais antigos da América, fundado em 1837". Onde fica? -- perguntei. "No princípio da Bradford Street".

Peguei numa fotografia minha e no meu curriculum vitae e dirigi-me à redacção do mesmo jornal. Disse à simpática recepcionista quem era e que gostava de apresentar os meus cumprimentos ao editor. "Um momento, por favor". Em menos de um minuto veio receber-me o editor do "Bristol Phoenix",   um "gentleman" de 65 anos de nome Roswell Bosworth Senior.  Levou-me para o seu gabinete onde começámos a conversar.  Principiou a  escrever  apontamentos  no seu caderno amarelo, mas eu pedi-lhe licença para  lhe entregar a minha foto e a minha biografia. Foi "amor" à primeira vista. No dia 13 de Julho, menos  de duas semanas  de  eu  ter  começado  a trabalhar em Bristol,  apareceu na  primeira página  do jornal a minha foto seguida de  toda a minha biografia. Ficámos amigos de tal maneira que o Sr.  Bosworth  Senior passou a ser meu doente. Acabou de completar cem anos, em 17 de Setembro de 1998,  e ainda vai todas as quartas-feiras ao Clube dos Rotários que ele ajudou a fundar em 1929 e do qual eu sou membro há 23 anos!

  (2) Padre -- Do mesmo modo quis saber se havia alguma igreja portuguesa na cidade. "Sim, temos cá a Igreja de Santa Isabel. É a maior  paróquia de Bristol. Foi  fundada em 1913."   "É em honra da Rainha Santa de Coimbra?" perguntei.  "Sim, é  ela mesma."

Fui à lista dos telefones e chamei a reitoria para marcar apontamento e poder ir visitar o  pároco, Monsenhor Henrique Rocha.  Passados dois dias lá estava com a minha mulher e o nosso filho mais velho Manuel,  ao colo, porque  naquela altura  ele tinha pouco mais  de quinze meses.  Fomos recebidos muito bem pelo Monsenhor Rocha, oriundo  da Ilha da Terceira e formado pelo Seminário Maior de Angra do Heroísmo, mas já com muitos anos de América. Deu-nos uma descrição geral da composição das famílias da paróquia na sua maioria  de origem dos Açores com predominância  da  Ilha de São Miguel. A única nota negativa desta entrevista foi eu  notar que o padre Rocha não olhava directamente para as pessoas... Pareceu-me complexado!

  (4) Povo -- Foi para mim uma surpresa  muito agradável saber que dos 15 mil habitantes que compunham  Bristol, em 1960,   setenta por cento eram de origem portuguesa! Isto em percentagens constituía a maior  percentagem de luso-americanos em qualquer localidade nos Estados Unidos. Entusiasmado com estes dados procurei contactar com o povo. Quis saber se os luso-americanos estavam organizados em clubes ou associações.  "Sim, senhor. Temos a   Associação Beneficente Dom Luis Filipe, a organização luso-americana mais antiga dos Estados Unidos, o Bristol Sports Club que se dedica  especialmente  ao jogo da bola (soccer),  o Club Santo Cristo  que tem como objectivo principal  organizar as festas do mesmo nome  na paróquia de Santa Isabel e ainda Banda "Indipendence Band" que é  a banda luso-americana  mais antiga do Estado de Rhode Island."  Dentro de uma semana fui à sede de todas estas organizações, pedi para ser membro de todas elas, tendo sido aceite por unanimidade. Ainda hoje tenho as minhas cotas em dia.  Presentemente (1998) Bristol tem uma população de 25 mil habitantes.

  (5) Pharmacias -- Em qualquer parte do mundo os farmacêuticos são o braço direito dos médicos. Eu sei  que uma  palavra  positiva do farmacêutico para com o doente quando este  avia as suas receitas tem uma importância muito grande, principalmente  se o médico está a começar a sua nova clientela. Por isso contactei as quatro farmácias que haviam nas redondezas: Farmácia Buffington, Farmácia Campagna, Farmácia  Standard  do Centro Médico e  a  Farmácia Delektas,  em Warren., vila contígua a Bristol. Durante os trinta e cinco anos que exerci medicina no Centro Médico não só mantive óptimas  relações  com todos os farmacêuticos mas  cheguei até a desenvolver uma amizade e consideração por  todos eles, devido à  cortesia profissional com que sempre me trataram. Para  todos eles um abraço com um agradecimento muito especial.

   Para que a "Regra dos Cinco Pês" desse frutos  eu nunca  descuidei os seus objectivos.   Mantive  me  sempre alerta com ela.  Sustive  óptimas relações com os polícias, com os reporters, mesmo com o padre, e não descuidei o povo tomando parte activa nas suas festas e cerimónias.

  Política -- Quiseram seduzir-me  para eu me envolver no campo da política  mas  eu disse sempre que não.  Ambos os partidos, quer republicano, quer democrático, vieram ter comigo a convidarem-me para eu concorrer para mayor, vereador da câmara, representativo ou senador. O que eu quisesse.  Quiseram nomear-me para membro da Comissão Escolar, porque alguém tinha desistido e assim eu entraria no campo da política mesmo sem concorrer nas eleições. Mas eu recusei sempre. Porquê? Primeiro porque entendo que um médico deve ser apolítico, segundo porque eu queria ter acesso aos meios  de comunicação como cidadão livre  que se interessa pelo desenvolvimento positivo  da comunidade  de que faço parte.

Se eu me envolvesse na política tinha que declarar pertencer ou aos democratas ou republicanos e certamente  iria perder clientela dos  doentes do partido oposto, mas mais grave ainda,  os meios de comunicação, imprensa, rádio e televisão, iriam  cortar-me  o tempo que eu tenho vindo a usar durante tantos anos para fazer os meus programas de utilidade pública não só  médicos mas também social e históricos. 

Portuguese-American -- Este é um "Pê"  pelo qual tenho uma predilecção especial.  Há muitos anos uma velhota, política descendente italiana, perguntou-me a que partido é que eu  pertencia  e eu respondi-lhe: " Ao partido Portuguese-American porque ganha um bocadinho todos os anos, mesmo até nos anos em que não há eleições.".  Ficou pasmada a olhar para mim. O  certo é que os luso-americanos  e seus descendentes na Nova Inglaterra, todos os  anos estão  a subir na estrata social americana e felizmente já não somos mais considerados pelos outros grupos étnicos  como "Poriguees" ou  "Greenhorns" (Gringos). Já não temos  mais vergonha das nossas raízes nem da nossa história luso-americana. Bem bom!

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