COMUNHÃO
E TURISMO
Por
Manuel Luciano da Silva, Médico.
Escrevi esta aguarela e foi publicada na “Comunidade Lusíada” de 31 de Março de 1976. (Há 27 anos). No mês anterior fui aos Açores com um grupo de Agentes de Viagens e membros da Comunicação Luso-Americana a convite da TAP (Transportes Aéreos Portugueses) que inaugurou os voos de Boston para os Açores. Gostei muito da viagem e da camaradagem, mas uma cena que mais impressionou foi a que passo a descrever e que ainda hoje me emociona. Aqui está:

Nesta imagem vemos as duas torres da Igreja de Nossa Senhora das Angústias. A baía anterior é o antigo porto baleeiro de Pim. A baía posterior é a baía em frente à cidade da Horta.
Nunca fui muito religioso. Acredito no conselho filosófico do Bispo de Viseu, D. António Alves Martins. “A religião deve ser como o sal na comida, nem muito nem pouco, só o preciso”.
Tem sido, todavia, na doutrina católica que tenho baseado o meu modo de viver. Assim fui criado e da mesma maneira educo os meus filhos.
Devo confessar que dos sacramentos que recebi, a comunhão foi aquele que mais impressionou a minha memória de rapaz de doze anos. Nunca esqueci o dia em que recebi o Senhor pela primeira vez! “Senhor, eu não sou digno, que entreis em minha morada: mas dizei uma só palavra e minha alma será salva. Amen.” Corpus Domini nostri Jesu Christi custodiat animan mean in vitam aeternam. Amen.
A comunhão é tão antiga como a própria Igreja. Começou para se celebrar a última Ceia de Cristo. Consistia numa refeição religiosa chamada ceia, mas hoje no mundo materialista em que vivemos, todos dizem “vou jantar” e são muito poucos os que dizem “vou cear”...
A comunhão até ao século XIII consistia de pão e vinho. Porém, para evitar os abusos ... a Igreja decretou que só o celebrante é que poderia usar o cálice, enquanto aos fieis só fosse dado o pão!
Pela vida fora aprendi que não existe só comunhão religiosa. Há também comunhão de bens materiais, comunhão de sentimentos, comunhão de ideais.
Comungar não é só receber a Eucaristia, receber o corpo e o sangue de Cristo. Comungar é também comunicar, unir comunidades, estreitar laços familiares. É estabelecer intercâmbio, é fazer turismo. No caso dos nossos emigrantes portugueses é matar saudades sem fim! E por isso que vou, com minha família, todos os anos a Portugal.
O mês passado fui aos Açores. Visitei quatro ilhas entre elas o Faial. Ali presenciei uma cena extraordinária de comunhão e turismo.
Eram quase seis horas da tarde na cidade da Horta. Eu estava prestes a despedir-me do Padre Júlio da Rosa, na sacristia da Igreja da Nossa Senhora das Angústias, quando um homem, típico do povo faialense, com o chapéu na mão, entrou e disse:
— 0 Senhor Padre, dá-me licença?
— Sim, diz.
— Eu recebi uma carta da minha filha que está na América e pergunta quando é que o Senhor Padre vai fazer a comunhão, porque ela quer trazer a filhinha para comungar na nossa Igreja.
— Oh, José, mas a comunhão solene, já foi há dois meses!
Num relâmpago, uma tristeza profunda apoderou-se daquele homem, pai e avô, que voltando levemente a cabeça — como que a olhar para a América distante — disse com intensa mágoa:
— Que pena!
O Padre Rosa, que compreendeu imediatamente o estado de alma do homem e para o salvar do naufrágio espiritual disse logo:
— Escreve à tua filha, que traga a tua netinha e eu farei uma comunhão especial p’ra ela.
O homem respirou fundo!
— E quanto custa?
— Não custa nada, homem!
Com os olhos humedecidos e restauradas as esperanças de abraçar a filha e beijar a netinha que certamente não conhecia ainda, o nosso homem exclamou:
— Deus o abençoe!
E retirou-se para dentro da Igreja para ouvir a missa das seis da tarde.
Fiquei comovido com aquele episódio, porque nós, emigrantes, filhos bastardos de Portugal, sublimamos mais as saudades da nossa igrejinha e dos ente queridos que deixamos lá longe a chorar por nós.
Deve ser simples, mas singela aquela comunhão na Igreja das Angústias, no Faial. Há-de haver alegria, comoção e muita fé! E quando o Padre Rosa der a hóstia àquela criancinha as lágrimas hão-de correr pelas faces daquele pai e avô de emigrantes!
É assim a nossa sina! É assim a nossa comunhão e o nosso turismo!