A minha conferência em Cuba, Portugal !
Por Manuel Luciano da Silva, Médico

Brasão de Cuba,  em estanho com Cereais e Uvas 

Como o ano passado eu e a minha mulher não podemos visitar o Museu de Beja por estar fechado à segunda-feira, este ano (2004), indaguei informação na Internet sobre Beja e também sobre Cuba, situada apenas a 16 quilómetros ao norte daquela cidade, com a finalidade de este ano visitarmos estes dois lugares históricos.

Foi assim que vim a descobrir duas websites dedicadas a Cuba: (1)  uma da Câmara Municipal e  (2) outra mantida pela “Associação dos amigos da Cuba” e trabalhada pelo Engenheiro Carlos Calado, demonstrando um interesse muito especial pela nacionalidade portuguesa de Cristóvão Colom, como tendo nascido em Cuba, Alentejo!

Contactei por e-mail o Engenheiro Carlos Calado e da nossa troca de correspondência vim a saber da existência de um movimento da Câmara de Cuba para se nomear uma nova avenida com o nome de Cristóvão Colom. Mais ainda, que se estava a preparar uma sessão solene, a realizar no Centro Cultural de Cuba, dedicada ao navegador Cristóvão Colom, como sendo alentejano, nascido em Cuba. O Presidente da Câmara, Sr. Francisco Orelha, nomeou coordenador desta conferência, o Vice-Presidente, Dr. Francisco Pólvora, responsável pelo pelouro da cultura. 

Presidente do lado esquerdo, Dr. Luciano da Silva ao  centro e Vice-Presidente do lado direito

Na sua ausência ou impedimento assumiria a responsabilidade a Dra. Dulce Lopes. E os convidados seriam o historiador Mascarenhas Barreto e eu se estivesse em Portugal no mês de Maio. De bom grado aceitei o convite e na sexta-feira, 28 de Maio de 2004, às 6 horas da tarde, lá estava no Centro Cultural de Cuba, acompanhado de minha mulher e com o meu projector e os meus 'slides'  ou diapositivos  coloridos.

Fomos então informados pelo Vice-Presidente da Câmara, Dr. Francisco Pólvora, que primeiro iria haver um jantar na melhor churrascaria da vila e depois seguir-se-ia a sessão cultural. No restaurante tivemos que esperar que o Dr. Mascarenhas Barreto, a esposa e filho Paulo chegassem vindos de Lisboa de automóvel, que é uma distância de 200 quilómetros de Cuba. Mas a nossa espera serviu para conhecermos melhor o Presidente da Câmara, Sr. Francisco Orelha, um verdadeiro gentleman, o Engenheiro Carlos Calado, sua esposa, D. Maria da Luz e o filho deles, um jovem de nome João. Ao meu lado direito ficou o Vice-Presidente, Dr. Francisco Pólvora, possuidor de mestrado em inglês e alemão, estando já a tratar do seu doutoramento pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Muito pragmático e objectivo com uma personalidade influenciada pela maneira de ser anglo-saxónica.

Gostei. A minha mulher e eu comemos um prato de bacalhau assado no formo que estava uma delícia. Todos os convivas escolheram o seu prato preferido e isto serviu para atrasar a chegada dos oradores ao teatro onde se ia realizar a sessão cultural. Mas em Portugal é uso e costume não se respeitar a hora marcada.

Tem que se começar sempre mais de meia hora atrasada! Nada que se compare com o comportamento social americano! Quando chegamos ao Centro Cultural de Cuba, um teatro muito confortável e aprazível, vimos uma audiência muito boa. O palco apresentava-se com garrafas de água, pastas para notas e vários ramos de flores. Haviam quatro lugares assinalados para os oradores.

Na extrema direita estava o Engenheiro Carlos Calado, a seguir o Dr. Mascarenhas Barreto, o Presidente da Câmara ao centro, depois eu e na extremidade esquerda o Vice-Presidente. O Presidente da Câmara iniciou os trabalhos pedindo desculpa à audiência pelo atraso, congratulou-se pela realização deste sarau cultural com dois especialistas sobre a história do Cristóvão Colom – Dr. Mascarenhas Barreto e Dr. Luciano da Silva – e deu a palavra ao Engenheiro Carlos Calado que, com a ajuda de projecções, explicou a razão de ser da website da “Associação dos Amigos da Cuba” para informar especialmente os emigrantes de Cuba espalhados pelo mundo e teceu também considerações sobre o facto do “navegador ser alentejano por ter nascido na Cuba”.

A seguir o Vice-Presidente fez uma interessante apresentação biográfica do Dr. Mascarenhas Barreto. O Dr. Mascarenhas Barreto no seu discurso, que trazia já escrito, congratulou-se por Cuba querer dar a uma avenida o nome de Cristóvão Colom, disse-nos da sua já avançada idade, mais de 82 anos, mas depois fugiu ao tema principal que era a consagração de Cristóvão Colom, como famoso navegador nascido em Cuba e portanto de nacionalidade portuguesa.

 Continuou a dissertar pormenorizadamente sobre as suas conquistas de medalhas desportivas, desde a esgrima, às pegas de touros e quase que perdia o contacto com a audiência! Foi pena porque Mascarenhas Barreto tem contribuído muito para a tese de que o Cristóvão era realmente português. Em todas as minhas palestras, quer em Portugal, quer na América, eu tenho-lhe prestado a minha homenagem sincera. Para mim foi uma lição  desagradável o que aconteceu, porque eu não quererei fazer mais palestras históricas se chegar a atingir assim uma idade avançada! Preferirei que o grande público guarde as boas impressões das minhas descobertas quando eu era mais jovem! 

A minha conferência 

A hora já ia avançada, quando o Vice-Presidente, fez a minha apresentação ao público. Foi rápido e objectivo, como eu desejava. Comecei por agradecer às autoridades camarárias o amável convite que me dirigiram. Aproveitei a oportunidade para oferecer algumas das minhas obras autografadas, ao Presidente da Câmara, para serem colocadas na nova Biblioteca de Cuba. Entreguei-lhe um exemplar de “Os Pioneiros Portugueses e a Pedra de Dighton” (esgotado); a monografia intitulada “Colombo era cem por cento Português”; outra monografia “As Verdadeira Antilhas - Terra Nova, Nova Escócia a Ilha do Príncipe Eduardo”, e ainda um exemplar do meu livro “A Electricidade do Amor!” (esgotado). Quis dedicar esta minha palestra a todos os alentejanos residentes ou espalhados pelo mundo e expliquei as fortes razões para assim proceder.

(1) A minha mulher, Sílvia, nasceu no Alentejo, em Santana de Cambas, no concelho de Mértola, portanto também é alentejana! (2) Além disso há mais de 500 anos o Alentejo foi o epicentro do mundo! (3) Foi em Alcáçovas, em 1479, que o Rei D. João II assinou um tratado com os Reis Católicos com o qual se dividia o mundo entre Portugal e Espanha (linha chamada de latitude 28, que passa pelo sul das Canárias). Este tratado foi confirmado pelo tratado de Toledo em 1480, mas o Palácio de Alcáçovas está agora totalmente abandonado. (4) Foi também no Alentejo, em Évora, que o Rei D. Manuel I deu ordem a Vasco da Gama para comandar a frota da descoberta do caminho marítimo da Índia. (5) Vasco da Gama também era alentejano. Nasceu em Sines. (6)  E o maior matemático dos descobrimentos e de todos os tempos, Pedro Nunes, também era alentejano: nasceu em Alcácer do Sal, em 1502. Apesar dos maiores feitos dos descobrimentos portugueses estarem ligados ao Alentejo, os chamados grandes “historiadores portugueses” não têm dado esse mérito aos alentejanos. Portanto o movimento da Câmara de Cuba em querer agora homenagear Cristóvão Colom é um gesto muito louvável.

Posto isto entrei na apresentação documental:

(1) Com a ajuda de slides coloridos fomos directos à Biblioteca do Vaticano para mostrar à audiência fotografias das duas Bula Papais de 3 e 4 de Março de 1493, as quais revelam o nome do navegador claramente em português antigo: Cristofõm Cólon. Sendo os textos das duas Bulas escritos em latim, o nome do navegador não está escrito em latim: Christopher Columbus, nem em italiano: Cristoforo Colombo, nem tão pouco em espanhol: Cristóbal Colon.

Fotos das Bulas Papais 

(2) Depois expliquei os 3 significados da palavra Cólon de origem grega como: (a) sinal de pontuação, (b) significado anatómico e (c) religioso ou místico para afastar o mau olhado. Com esta simples explicação a audiência pode compreender e ler a Sigla do navegador que contem dois nomes: Cristóvão Colon e Salvador Fernandes Zarco.

Fotos do colon e semicolon

Foto da Sigla 

(3) Continuando a apresentar só documentos, expliquei como é que a minha mulher, Sílvia, decifrou o Monograma do navegador que aparece em quinze documentos ao lado esquerdo da Sigla, mas nenhum historiador mundial foi capaz de o diagnosticar, confirmando assim o nome de Salvador Fernando Zarco.

Foto do Monograma e sua decifração 

(4) A seguir mostrei em slides cópias das doze últimas cartas que Cristóvão Cólon escreveu ao seu filho Fernando, nas quais todas têm, na extremidade superior esquerda, uma sigla com a Bênção em hebraico, “Barush Ashen” (Deus te abençoe). E para confirmar todos estes dados mostrei uma cópia duma carta inteira com: (1) a Bênção na extremidade superior esquerda; (2) com o Monograma na parte inferior esquerda e ainda (3) com a Sigla na parte inferior direita da face da mesma carta.

Fotos da Benção 

(5) Fiz a análise comparativa do Brasão do navegador no qual aparecem as Quinas de Portugal.

Foto do Brasão do Colon 

(6) E finalmente prestei homenagem a Mascarenhas Barreto por ele ter coligido mais de 40 nomes, ou topónimos, nas ilhas das Caraíbas, todos nomes portugueses depois das 4 viagens que o navegador fez àquela parte do mundo. Entre os 40 vocábulos, nem um nome italiano aparece, como Roma, Génova, Florença, Pisa, ou Palermo! E o Colombo italiano nunca falou, nem escreveu em italiano! Os genovistas dizem que ele esqueceu o italiano!... Que tese tão estúpida! Foquei que em Portugal chamar-se ao navegador “Colombo” é um pecado mortal… “Colombo” quer dizer “pombo” e o navegador nunca foi pombinho nenhum…

Lista dos 40 topónimos 

(7) Para concluir a minha palestra disse que Mascarenhas Barreto e outros autores já tinham apresentado estudos exaustivos sobre a genealogia relacionada com Cristóvão Cólon.

(8) E finalizei afirmando que tinha chegado agora o momento de nós nos concentrarmos nos estudos científicos do ADN, quer nos antepassados do navegador ou então nos descendentes dos Zarcos. Para isso pedi, publicamente, ao Presidente da Câmara para nomear um “Comissão para pesquisar o ADN de Cristóvão Cólon “, composta pelos mais variados estudiosos. Por minha parte tenciono manter devidamente informado o Presidente de Cuba.

Depois de terminar a minha palestra ainda houve um interessante colóquio. O Presidente da Câmara terminou a sessão com um reparo acérbico aos meios de comunicação, especialmente à rádio, à TV e às universidades de Évora e do Algarve, por não terem ali nenhum representante. Só esteve uma correspondente da Agência Lusa. Infelizmente os meios de comunicação em Portugal concentram-se em assuntos de bola e de “pichotas”… Os assuntos culturais, patrióticos ou históricos estão fora da moda… Antes de nos despedirmos, o Presidente da Câmara ofereceu-me uma salva de prata com o Brasão de Cuba e uma série de livros sobre a história e cultura do concelho. Já todos eles fazem parte do espólio da minha Biblioteca-Museu, em Cavião, Vale de Cambra.

Encantados 

Tanto a minha mulher como eu ficamos encantados pela maneira tão simpática e amiga como fomos recebidos em Cuba. Nunca mais nos esqueceremos. Boa gente hospitaleira! Ao outro dia quando nos preparávamos para pagar o nossa estada na Pousada de São Francisco em Beja, fomos informados que não tínhamos nada a pagar! Perguntei. “Mas quem pagou”? “Foi a Câmara de Cuba!” Eu que tenho feito centenas de conferências quer médicas, quer históricas, em Portugal e nos Estados Unidos da América, nunca cobrei honorário a ninguém. Sempre paguei o meu transporte e o meu hotel. A oferta do custo do hotel em Beja pela Câmara de Cuba foi a primeira vez na minha vida que recebi surpresa tão agradável! Bem Hajam!

Lista dos livros oferecidos pelo Presidente de Cuba:

 (1) “ O Concelho de Cuba –Subsídios para o seu inventário artístico”, Por Emília Salvado Borges

 (2) “Homens, Fazenda e Poder no Alentejo de Setecentos--. O caso de Cuba”, Por Emília Salvado Borges 

(3) “Crises de Mortalidade no Alentejo Interior” -- Cuba (1586 – 1799) Por Emília Salvado Borges 

(4) “As Deixas” Por Manuel de Castro 

(5) “A Pintura dos Séculos XVI a XVIII no Concelho de Cuba” por Anísio Salazar Franco, Joaquim Oliveira Caetano e Vitor Serrão 

(6) “Rota do Fresco” publicado pela Associação dos Municípios do Alentejo Central.

Livros oferecidos pelo meu amigo Gonçalo Sousa Cabral, de Évora:

(1)“Gavião” – Memórias do Concelho” por José Dias Heitor Patrão 

(2)“Cantar ao Baldão – Uma prática de desafio no Alentejo” Por Maria José Barriga , com um CD. 

(3) “Bibliografia de Etnografia Alentejana” Por Manuel Cid

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