Diago-1
Diogo Cão
Navegador português, que, por duas vezes (1482 e 1485), foi mandado aos descobrimentos por D.João II.
Dirigiu-se para a Mina e daí para o Zaire. Depois de várias vicissitudes seguiu até à ponta dos Farilhões (serra Parda), a 22° 10', de latitude Sul. A tribulação regressou ao Tejo em 1486/87, trazendo o ensinamento conveniente para atingir a África do Sul a navegar pelo largo.Na Sociedade de Geografia de Lisboa existem 3 padrões de Diogo Cão (séc. XV):
- O padrão de S.Jorge, erguido em 26ABR1483 , na ponta do padrão (foz rio Zaire). - O padrão de S. Agostinho, erguido em 28AGO1483, no cabo de S.Maria (sul de Benguela). - O Padrão do Cabo Negro, erguido em 16JAN1486, (Porto Alexandre).
No museu do Institut fur Deutsche Geschichte, Berlim-Leste Alemanha existe - O Padrão do Cabo da Serra, erguido em MAR/ABR 1486 em (Cape Cross)- Namíbia
Fernando Pessoa, que passou dez anos na África do Sul, no seu livro Mensagem diz:
O esforço é
grande e o homem é pequeno
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.
A alma é divina
e a obra imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada , é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.
E ao imenso e
possível oceano
Ensinam estas Quinas , que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.
E a cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.
(Fernando Pessoa, Mensagem )
INTRODUÇÂO
A primeira referência conhecida sobre Diogo Cão deve-se a um estrangeiro: trata-se do relato da Voyage D’Eustache Delafosse sur la côte de guinée, au Portugal & en Espagne (1479-1481).
O francês Eustache de la Fosse identifica-o como um dos capitães portugueses que patrulham o golfo da Guiné, cerca de 1480.
Na descrição do apresamento de um navio castelhano na costa da Mina, em 1480, Diogo Cão desempenhava na altura as funções de Capitão de um dos quatro navios portugueses.
O navio de Eustáquio de la Fosse, foi tomado naqueles mesmos lugares e o seu capitão caíu nas mãos de Diogo Cão, que, depois de o obrigar a ajudá-lo a vender as suas próprias mercadorias aos indígenas em benefício dele, captor, o trouxe para Portugal. Uma vez aqui, Eustáquio de la Fosse foi condenado a morrer na forca, mas conseguiu escapar-se para Espanha, " Descobrimentos dos Portugueses, Edgar Prestage, pág. 185
Ao certo, apenas se sabe que a sua família se instala em Vila Real de Trás-os-Montes e que ele se torna escudeiro da Casa Real.
Segundo a tradição , o navegador Diogo Cão nasceu nesta casa, situada em Vila Real de Trás-os-Montes (Portugal . É um edifício de dois pisos, de pedra, com uma escadaria exterior sob uma arcada. Trata-se de uma construção do século XV
No tempo de D. João I, o seu avô Gonçalo Cão fora companheiro de armas do rei, prestara relevantes serviços à Pátria nas lutas com Castela, pelo que lhe havia sido feita a doação de Badajoz.
Seu pai fora igualmente batalhador nos tempos de Afonso V e distinguido nas campanhas efectuadas pelo rei.
D. João II tinha boas referências sobre Diogo Cão e não foi por acaso que o escolheu para dar continuidade aos descobrimentos.
Em 1481, quando D. João II tomou conta dos destinos do país, os portugueses tinham chegado ao Cabo de Santa Catarina (actual Gabão), e os descobrimentos estavam praticamente parados.
Sobre a vida do navegador pouco se conhece, sendo escassas e ambíguas as informações, à semelhança do que se passa com as viagens pelas quais é recordado.
Aos descobrimentos realizados por Diogo Cão referiram-se os cronistas Rui Pina (1440-1522), Garcia de Resende (1470-1536), António Galvão (1490-1557), João de Barros (1496-1570), e o cosmógrafo e roteirista Duarte Pacheco (1570).
Todas essas notícias, úteis para o conhecimento de alguns pormenores, são, porém, bastante incompletas e confusas quanto a pontos fundamentais, tais como o número de viagens, datas em que foram realizadas e extensões.
Rui de Pina (Crónica de D. João II cap. 62º ) começa por aludir a uma viagem encetada em 1485, acrescentando logo ter havido outra antes, de que não diz a data; descreve sumariamente as duas, apontando como limite da primeira o Zaire, e acaba a narração com a chegada dos navios ao Tejo, em conclusão da segunda viagem, facto a que atribui a data de 1489.
Garcia de Resende (crónica D. João II, capº CL V) descreve uma viagem de Diogo Cão ao Congo em 1485, acrescentando, de passagem que aquele navegador «outra vez já lá fora por seu descobridor». Nada diz dessa primeira viagem, descreve aquela que considera segunda, e fá-la seguir de uma terceira, já sem referências a Diogo Cão; em nenhuma alude a navegações para sul da foz do Zaire.
António Galvão ( Tratado dos descobrimentos pág. 26), descreve uma só viagem, começada em 1484, dando-lhe por limite o Trópico de Capricórnio « .... chegado ao rio de Manicongo, pôs nele padrão de pedra com armas e letras reais....; daqui foram ter ao rio Pico de Capricórnio pondo padrões onde pareceu ser necessário ».
João de Barros ( Asia, Dec. I, livro 3º cap III ) descreve duas viagens : à primeira, que diz começada em 1484 e concluída em 1486, dá como termo a foz do Zaire; à segunda, feita logo após a primeira, atribui o reconhecimento de mais 200 léguas para além daquele rio.
Duarte Pacheco (Esmeraldo de situ orbis liv 3º cap. 4º) igualmente atribui a partida de Diogo Cão, e também só alude a uma viagem, terminada no Zaire.
Apesar de tantas imperfeições e contradições, os aludidos relatos foram durante perto de quatro séculos a informação quase única de que se dispôs relativamente aos descobrimentos realizados por Diogo Cão.
Historiadores, escrevendo no séc. XIX, quando já era notável o desenvolvimento dos estudos de história das navegações portuguesas, esforçaram-se por uma explicação razoável, porém, nunca conseguiram desfazer satisfatoriamente a confusão das notícias quinhentistas quanto às datas e ao âmbito das viagens efectuadas por Diogo Cão.
Em 1892 tais factos começaram a ser conhecidos, devido ao aproveitamento de outras, e mais sólidas fontes históricas: as de carácter epigráfico, cartográfico e diplomático, até então desconhecidas ou totalmente ignoradas.
Desde o segundo quartel do séc. XIX, o incremento dos estudos da história das navegações portuguesas fez despertar o interesse do que poderiam revelar essas inscrições.
Era, porém, geral a crença de tê-las a acção do tempo deteriorado a ponto tal, que nenhum esclarecimento útil ministravam.
O "Continente Africano" – África –
– O navegador, Diogo Cão percorreu (navegou) pela 1ª vez na história da navegação marítima, a costa ocidental de África da latitude 2 sul à latitude 22º 10´sul, o correspondente a 20 graus de descoberta da costa ocidental africana, ao serviço de el- rei D. João II de Portugal.
Os 20 graus equivalem a 2.230 Km aproximadamente.
Considerando, a estrutura real do mapa físico a sul do Equador, o navegador percorreu mais de 5.000 Km o equivalente 2.900 milhas naúticas por mares nunca antes navegados.
A proeza foi alcançada em duas expedições (viagens):
1ª expedição -De Julho de 1482 a Abril de 1484, da era Cristã – alcance da Lat. 15º 45’ Sul- actual baía de Moçâmedes –Angola – Setembro de 1483.
Diogo Cão
Navegador português, que, por duas vezes (1482 e 1485), foi mandado aos descobrimentos por D.João II.
Dirigiu-se para a Mina e daí para o Zaire. Depois de várias vicissitudes seguiu até à ponta dos Farilhões (serra Parda), a 22° 10', de latitude Sul. A tribulação regressou ao Tejo em 1486/87, trazendo o ensinamento conveniente para atingir a África do Sul a navegar pelo largo.Na Sociedade de Geografia de Lisboa existem 3 padrões de Diogo Cão (séc. XV):
- O padrão de S.Jorge, erguido em 26ABR1483 , na ponta do padrão (foz rio Zaire). - O padrão de S. Agostinho, erguido em 28AGO1483, no cabo de S.Maria (sul de Benguela). - O Padrão do Cabo Negro, erguido em 16JAN1486, (Porto Alexandre).
No museu do Institut fur Deutsche Geschichte, Berlim-Leste Alemanha existe - O Padrão do Cabo da Serra, erguido em MAR/ABR 1486 em (Cape Cross)- Namíbia
Fernando Pessoa, que passou dez anos na África do Sul, no seu livro Mensagem diz:
O esforço é
grande e o homem é pequeno
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.
A alma é divina
e a obra imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada , é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.
E ao imenso e
possível oceano
Ensinam estas Quinas , que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.
E a cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.
(Fernando Pessoa, Mensagem )
INTRODUÇÂO
A primeira referência conhecida sobre Diogo Cão deve-se a um estrangeiro: trata-se do relato da Voyage D’Eustache Delafosse sur la côte de guinée, au Portugal & en Espagne (1479-1481).
O francês Eustache de la Fosse identifica-o como um dos capitães portugueses que patrulham o golfo da Guiné, cerca de 1480.
Na descrição do apresamento de um navio castelhano na costa da Mina, em 1480, Diogo Cão desempenhava na altura as funções de Capitão de um dos quatro navios portugueses.
O navio de Eustáquio de la Fosse, foi tomado naqueles mesmos lugares e o seu capitão caíu nas mãos de Diogo Cão, que, depois de o obrigar a ajudá-lo a vender as suas próprias mercadorias aos indígenas em benefício dele, captor, o trouxe para Portugal. Uma vez aqui, Eustáquio de la Fosse foi condenado a morrer na forca, mas conseguiu escapar-se para Espanha, " Descobrimentos dos Portugueses, Edgar Prestage, pág. 185
Ao certo, apenas se sabe que a sua família se instala em Vila Real de Trás-os-Montes e que ele se torna escudeiro da Casa Real.
Segundo a tradição , o navegador Diogo Cão nasceu nesta casa, situada em Vila Real de Trás-os-Montes (Portugal . É um edifício de dois pisos, de pedra, com uma escadaria exterior sob uma arcada. Trata-se de uma construção do século XV
No tempo de D. João I, o seu avô Gonçalo Cão fora companheiro de armas do rei, prestara relevantes serviços à Pátria nas lutas com Castela, pelo que lhe havia sido feita a doação de Badajoz.
Seu pai fora igualmente batalhador nos tempos de Afonso V e distinguido nas campanhas efectuadas pelo rei.
D. João II tinha boas referências sobre Diogo Cão e não foi por acaso que o escolheu para dar continuidade aos descobrimentos.
Em 1481, quando D. João II tomou conta dos destinos do país, os portugueses tinham chegado ao Cabo de Santa Catarina (actual Gabão), e os descobrimentos estavam praticamente parados.
Sobre a vida do navegador pouco se conhece, sendo escassas e ambíguas as informações, à semelhança do que se passa com as viagens pelas quais é recordado.
Aos descobrimentos realizados por Diogo Cão referiram-se os cronistas Rui Pina (1440-1522), Garcia de Resende (1470-1536), António Galvão (1490-1557), João de Barros (1496-1570), e o cosmógrafo e roteirista Duarte Pacheco (1570).
Todas essas notícias, úteis para o conhecimento de alguns pormenores, são, porém, bastante incompletas e confusas quanto a pontos fundamentais, tais como o número de viagens, datas em que foram realizadas e extensões.
Rui de Pina (Crónica de D. João II cap. 62º ) começa por aludir a uma viagem encetada em 1485, acrescentando logo ter havido outra antes, de que não diz a data; descreve sumariamente as duas, apontando como limite da primeira o Zaire, e acaba a narração com a chegada dos navios ao Tejo, em conclusão da segunda viagem, facto a que atribui a data de 1489.
Garcia de Resende (crónica D. João II, capº CL V) descreve uma viagem de Diogo Cão ao Congo em 1485, acrescentando, de passagem que aquele navegador «outra vez já lá fora por seu descobridor». Nada diz dessa primeira viagem, descreve aquela que considera segunda, e fá-la seguir de uma terceira, já sem referências a Diogo Cão; em nenhuma alude a navegações para sul da foz do Zaire.
António Galvão ( Tratado dos descobrimentos pág. 26), descreve uma só viagem, começada em 1484, dando-lhe por limite o Trópico de Capricórnio « .... chegado ao rio de Manicongo, pôs nele padrão de pedra com armas e letras reais....; daqui foram ter ao rio Pico de Capricórnio pondo padrões onde pareceu ser necessário ».
João de Barros ( Asia, Dec. I, livro 3º cap III ) descreve duas viagens : à primeira, que diz começada em 1484 e concluída em 1486, dá como termo a foz do Zaire; à segunda, feita logo após a primeira, atribui o reconhecimento de mais 200 léguas para além daquele rio.
Duarte Pacheco (Esmeraldo de situ orbis liv 3º cap. 4º) igualmente atribui a partida de Diogo Cão, e também só alude a uma viagem, terminada no Zaire.
Apesar de tantas imperfeições e contradições, os aludidos relatos foram durante perto de quatro séculos a informação
quase única de que se dispôs relativamente aos descobrimentos realizados por Diogo Cão.Historiadores, escrevendo no séc. XIX, quando já era notável o desenvolvimento dos estudos de história das navegações portuguesas, esforçaram-se por uma explicação razoável, porém, nunca conseguiram desfazer satisfatoriamente a confusão das notícias quinhentistas quanto às datas e ao âmbito das viagens efectuadas por Diogo Cão.
Em 1892 tais factos começaram a ser conhecidos, devido ao aproveitamento de outras, e mais sólidas fontes históricas: as de carácter epigráfico, cartográfico e diplomático, até então desconhecidas ou totalmente ignoradas.
Desde o segundo quartel do séc. XIX, o incremento dos estudos da história das navegações portuguesas fez despertar o interesse do que poderiam revelar essas inscrições.
Era, porém, geral a crença de tê-las a acção do tempo deteriorado a ponto tal, que nenhum esclarecimento útil ministravam.
O "Continente Africano" – África –
.– O navegador, Diogo Cão percorreu (navegou) pela 1ª vez na história da navegação marítima, a costa ocidental de África da latitude 2 sul à latitude 22º 10´sul, o correspondente a 20 graus de descoberta da costa ocidental africana, ao serviço de el- rei D. João II de Portugal.
Os 20 graus equivalem a 2.230 Km aproximadamente.
Considerando, a estrutura real do mapa físico a sul do Equador, o navegador percorreu mais de 5.000 Km o equivalente 2.900 milhas naúticas por mares nunca antes navegados.
A proeza foi alcançada em duas expedições (viagens):
1ª expedição -De Julho de 1482 a Abril de 1484, da era Cristã – alcance da Lat. 15º 45’ Sul- actual baía de Moçâmedes –Angola – Setembro de 1483.
2ª expedição - De Setembro de 1485 a 1486/1487, da era Cristã. – alcance da Lat. 22º 10´ Sul – actual Hentiesbay ( Namíbia). – Fevereiro / Março de 1486
A armada de Diogo Cão esteve a 1º 17´ = 170 Km de atingir o Trópico de Capricórnio (23º 27´Sul) a 6´ de Anichad ( 23º 21´´ Sul)
1ª Viagem de Diogo Cão – 1482 /1484
2ª viagem de Diogo Cão – 1485 a 1486/1487
(caravela Bartolomeu Dias –finais do séc.XV –réplica)
EM BUSCA DE DIOGO CÃO
O Professor ERIC AXELSON, catedrático jubilado da Universiadde de Cape Town (cidade do Cabo – Africa do Sul ), considerado como a maior autoridade na história do estabelecimento dos portugueses na África austral nos séc. XV a XVII, escreve sobre as viagens de Diogo Cão:
" Diogo Cão que se tinha distinguido na captura de três caravelas espanholas na Costa do Ouro, em 1480, foi nomeado para capitanear uma expedição que partiu de Portugal em 1482.
A frota fez escala em São Jorge da Mina e navegou depois para além do Cabo de Santa Catarina.
Na margem sul da foz do Rio Congo, quase ao nível do mar, Diogo Cão levantou um padrão- um pilar de pedra composto por uma coluna circular, sobreposto por um bloco rectangular, que por sua vez tinha sobreposta uma Cruz.
O Brasão do Rei D. João II e uma inscrição, proclamavam a soberania portuguesa sobre aquelas águas, direito reconhecido pelo Papa, enquanto a cruz anunciava a chegada da fé cristã.
Ao ouvir falar dum rei todo poderoso no interior do continente, Diogo Cão mandou emissários a fim de entrar em contacto com ele.
Continuou a navegar para Sul e, no Cabo do Lobo, mais tarde Cabo de Santa Maria, na latitude 13º 26’ S, ergueu em 28 de Agosto de 1483 um segundo padrão, dedicado a Santo Agostinho.
A partir do Cabo de Santa Maria, as terras altas estendem-se 5 Km para sul, até ao Cabo de Santa Marta e parece que aí, por razões desconhecidas, Diogo Cão, voltou para trás.
É possível que tivessem escassez de mantimentos e sofressem de escorbuto, mas há quem pense que Diogo Cão estava convencido de que tinha atingido a extremidade Sul do continente.
Regressado à foz do Congo, a fim de embarcar os emissários que tinha mandado ao rei, viu que não tinham voltado.
Raptou, então, alguns indígenas como reféns. Em Abril de 1484, Diogo Cão chegou a Portugal e o rei, convencido de que ele tinha alcançado um notável êxito, armou-o cavaleiro e concedeu-lhe uma pensão, assim como aos seus descendentes.
Diogo Cão escolheu para o seu brazão os dois padrões que tinha levantado.
O embaixador do rei junto da Santa Sé afirmou, com muito orgulho, que os portugueses se tinham aproximado do Promontório Prassum, onde começa o Golfo da Arábia.
Encarregado de empreender uma segunda expedição, Diogo Cão partiu na segunda metade de 1485.
Devolveu os reféns e procurou, provavelmente na ida, explorar o Rio Congo, na esperança que pudesse vir a ser a extremidade meridional do canal que, segundo a mapa de Fra Mauro, separava a África Austral da massa do continente e desembocava no Índico perto de Quilóa.
Não há dúvida que D. João esperava que Diogo Cão alcançasse pelo menos os reinos periféricos de Prestes João ou, mesmo, o Índico, pois um tal percurso tornava desnecessário mais expedições ao longo da costa.
A expedição progrediu até às cataratas de Ielala, que se situam a noventa e duas milhas náuticas do mar, onde os marinheiros gravaram várias inscrições nas rochas, deixando assim para a posteridade um precioso registo da sua façanha.
Segundo o cronista João de Barros, Diogo Cão viajou por terra até à capital do rei do Congo – cidade que no século seguinte viria a receber o nome de São Salvador – onde iniciou a duradoura aliança entre o Congo e Portugal.
Mas também recebeu notícias desoladoras de que o rio era intransponível, por causa das muitas cachoeiras no percurso superior, e que encontrar uma rota até ao Índico estava fora de questão.
As explorações tiveram assim de continuar por via marítima e, ao navegar para além do Cabo de Santa Marta, verificou, com desilusão, que o continente se estendia para sul, aparentemente sem fim.
No Cabo Negro, na latitude 15º 42’ S, Diogo Cão ergueu outro padrão.
Logo a seguir ancorou numa baía, hoje Porto Alexandre, a que deu o nome de Angra das aldeias, devido à existência de duas povoações.
Também entrou na manga das areias, hoje Baía dos Tigres.
Navegando ao longo duma costa deserta, alcançou a latitude 21º 47’ S, onde ergueu outro padrão, o mais meridional de todos, num sítio que hoje se chama Cape Cross (Cabo do Padrão).
Mais a sul fica a serra Parda e é provável que fosse perto dali que Diogo Cão morreu; pelo menos sabe-se que a expedição acabou neste ponto.
Diogo Cão tinha aumentado os conhecimentos dos Europeus sobre o sul do continente africano e o sul do Atlântico, desde o Cabo da Santa Catarina até ao sudoeste da África (Namíbia).
Logo que os sobreviventes da expedição de Diogo Cão chegaram a Portugal, o rei mandou Bartolomeu Dias continuar o empreendimento.
(réplica-caravela Bartolomeu Dias- finais séc.XV)
Dias deixou o Tejo em Agosto de 1487, com duas caravelas e uma naveta de mantimentos.
A pequena frota fez escala em São Jorge da Mina e depois seguiu a costa reconhecida e traçada por Diogo Cão.
Lançando ferro numa baía abrigada, provavelmente a Baía dos Tigres, Dias transferiu mantimentos para as caravelas e seguiu para sul, deixando alguns homens na naveta.
Para além do último padrão erguido por Diogo Cão e para lá da Serra Parda, as caravelas teriam navegado com terra à vista. ......"
Trezentos anos antes da descoberta da nascente do Nilo, um português deu notícia dos lagos imaginados por Ptolemeu. No século XVI, Duarte Lopes revelou velhos segredos ao mundo.
Este é um excerto do artigo que pode encontrar na edição impressa da NGM – Portugal.
Em 1591, um livro publicado em Roma causou grande sensação na Europa. Tratava-se da "Relatione del Reame di Congo et delle Circonvicine Contrade", ditada a Filippo Pigafetta pelo português Duarte Lopes, que durante seis anos viveu naquele reino da África Ocidental.
Repleta de informações precisas sobre o Congo e outras regiões do interior africano, a "Relatione" deu a conhecer terras e gentes de que os europeus tinham apenas notícias vagas, desmistificando ideias herdadas de tempos antigos.
À data da viagem de Duarte Lopes, o reino do Congo era já bem conhecido dos portugueses.
Cem anos antes, Abril de 1483, as caravelas de Diogo Cão explorando a costa africana encontraram a foz do rio Congo, ou Zaire, o segundo maior de África a seguir ao Nilo.
Regressando em 1485 subiram a foz do rio Zaire às cataratas de Ielala, onde deixaram os seus nomes gravados nos rochedos junto ao rio Zaire a montante de Matádi.
Em finais de 1488, Bartolomeu Dias regressando ao Reino, depois de encontrar a passagem do cabo de Boa Esperança - ligação do oceano Atlântico com o Índico -, aportou a M’Pinda e trouxe uma embaixada congolesa, sendo um dos principais o Caçuta, que já estivera em Portugal em 1484/1485 no tempo de Diogo Cão.
Em Dezembro de 1490, uma nova expedição, trouxe o Caçuta de volta ao Reino do Congo, e morreu de doença em Cabo Verde. Os portugueses estabeleceram relações amistosas com aquele povo, cujos reis se converteram à religião cristã adoptando os nomes de João e Leonor em homenagem aos reis de Portugal.
Nos anos a seguir, enviaram os seus dois filhos para Lisboa a fim de aprenderem português e se instruírem nos ensinamentos da nova fé.
Missionários franciscanos, dominicanos e agostinhos, bem como alguns comerciantes, estabeleceram-se em S. Salvador do Congo, ou Banza, a capital daquele reino - uns para evangelizar, outros para comerciar.
É consensual que em torno da figura de Diogo Cão, subsistem duas grandes questões por esclarecer.
Em que circunstâncias ocorreu a sua morte e ou quantas viagens teria feito para sul do cabo de Stª Catarina ( actual Gabão).
Na verdade, boa parte do que se julga conhecer sobre as viagens de Diogo Cão depende dos padrões que deixou ao longo do seu trajecto e respectivas inscrições, cartas, gravações, crónicas e a oração de obediência ao Papa :
- Três (3) padrões actualmente na Sociedade de Geografia em Lisboa ( o Padrão de S. Jorge – os quais existem alguns fragmentos- , o Padrão de Stº Agostinho e o Padrão do Cabo Negro).
- Um ( 1) padrão, actualmente na Alemanha ( Padrão do Cabo) ou Cape Cross.
- Toponímia incluída nas cartas de Cristóforo Soligo, datada de 1486, de Henricus Martellus de 1489 e do globo de Martim Behaim, de 1492.
- Gravações nas pedras das cataratas de Ielela, 160Km (92 milhas náuticas) da foz do rio Zaire ou Congo a montante de Matádi.
- Oração de Obediência que D. João II, envia ao papa Inocêncio VIII e que foi lida em Roma por Vasco Fernandes de Lucena em 11 de Dezembro de 1485.
- Crónicas de Rui de Pina, Garcia de Resende e de João de Barros.
Com as viagens de Diogo Cão, para além do Cabo de Santa Catarina (Gabão ) inicia-se a prática de assinalar com padrões de pedra (calcário) as terras descobertas pelos portugueses e de se estabelecer os primeiros contactos com o rei do Congo, cuja residência ficava em M’Banza Congo (S. Salvador - Angola) para o interior e a sudeste das cataratas de Ielala (100Km).
Partindo do Tejo as caravelas seguiram para S. Jorge da Mina, (Gana) entreposto comercial edificado em princípios de 1482, por Diogo de Azambuja a mando de D. João II.
Dirigiram-se depois ao cabo de Santa Catarina (actual Gabão), última etapa atingida no reinado anterior D. Afonso V.
Foi reconhecida a costa a Sul daquele cabo e descoberto um grande rio a que puseram o nome rio do Padrão ou Rio Poderoso (actual rio Zaire ou Congo), onde foi erguido na foz e ponta extrema na margem Sul, (hoje conhecido por Moita Seca –Ponta do Padrão), um padrão de pedra a que puseram o nome de Padrão de S. Jorge.
Mais a sul, no cabo do Lobo (actual Cabo de Stª Maria a sul de Benguela), até onde prosseguiu a expedição, foi colocado o segundo padrão, a que chamaram Padrão de S. Agostinho (Cabo do Lobo). Os portugueses seguiram pouco mais além até à baía de Moçâmedes?
Os navios terão então regressado a Portugal, em Abril de 1484. Diogo Cão foi distinguido por D. João II, pelos serviços prestados.
O objectivo seria continuar a exploração da costa africana para além da Baía de Moçâmedes, convencidos que estavam de terem atingido o Promontório Prassum.
No decurso dessa segunda expedição, tendo inicio na segunda metade de 1485, Diogo Cão navegou pelo Rio Zaire até às cataratas de Ielala, onde foram gravadas em rochedos a permanência dos portugueses.
Descendo o rio, navegaram depois para além da Baía de Moçâmedes, e são fixados mais dois padrões, um dos quais no cabo Negro (Porto Alexandre) e o outro no cabo do Padrão (actual Cape Cross, na Namíbia).
Não se sabe, ao certo a data de regresso desta expedição, (1486 ou mesmo 1487). Sabe-se no entanto que Bartolomeu Dias partiu de Portugal na demanda do Sul de África em Agosto de 1487, já os sobreviventes da segunda expedição de Diogo Cão tinham chegado ao reino.
E Bartolomeu Dias fez escala na Baía dos Tigres (sul Angola ), transferiu a maior parte dos alimentos da pequena naveta para os navios de maior porte e deixou ali alguns homens.
Ficou assim a memória da sua participação neste período de explorações, em que se nota claramente o interesse em encontrar o extremo sul do continente africano, que o mesmo é dizer, a passagem para a Índia.
Súmula dos factos conhecidos:
A Primeira Viagem a sul do Equador
1482
D. João II mandou Diogo Cão, seu escudeiro, prosseguir a descoberta para o Sul da África.
Levava víveres para larga demora e numerosos artigos para permuta com o gentio e presentes aos potentados das regiões africanas a visitar.
Em vez das cruzes de madeira que os navegadores dos reinados anteriores costumavam colocar nas terras descobertas, levava Diogo Cão padrões de pedra calcária.
Neste propósito, partiu do Tejo (Lisboa) com duas caravelas, no segundo semestre de 1482, acompanhado do cosmógrafo Martim Beheim?, introdutor do uso do astrolábio na navegação e autor do afamado globo de Nuremberg, fazendo escala em São Jorge da Mina (Gana).
Castelo S. Jorge da Mina, actual Gana - África
" o estabelecimento da feitoria da Mina fora resolvido por D. João II em fins de 1481, sendo encarregado dessa assaz delicada missão Diogo de Azambuja, que partiu de Lisboa em Dezembro daquele ano,, comandando uma frota constituída por dez caravelas e duas urcas. Naquelas seguiam quinhentos homens de armas e cem artífices, e nestas os materiais de construção, já aparelhados, os mantimentos e as munições.
A frota fundeou em 12 de Janeiro de 1482 defronte do lugar escolhido para assentamento da feitoria, próximo da Aldeia das Duas Partes, um pouco além da mina de ouro. A construção dos edifícios começou imediatamente e prosseguiu com rapidez. Por vezes os indígenas vieram perturbar o curso dos trabalhos, mas Diogo de Azambuja, com prudência logrou levar a obra a bom termo rapidamente.
Navegou até ao de Cabo de Santa Catarina, (actual Gabão), já reconhecido em 1474/75, por Lopo Gonçalves e Rui Sequeira no reinado de D. Afonso V.
Antes de atingir o Cabo de Stª Catarina, Diogo Cão descobriu a ilha de Ano Bom.
A viagem para além do Cabo Stª Catarina foi feita ao longo da costa.
Este método de navegação, porém, se era vantajoso por permitir um meticuloso conhecimento da costa, não era isento de graves dificuldades.
Duarte Pacheco mais tarde ainda aconselhava, " sabendo pouco a pouco o que nella hia, a asy suas Rootas e conhecenças, e cada província de que gente era, pela verdadeiramente saberem ho luguar em que estauam, por onde podiam seer certos da terra que hiam buscar" ( Esmeraldo de situ orbis )
Trecho da Costa Africana do paralelo 2 sul (Cabo Stª Catarina) ao Rio Zaire ou Congo
Seguindo para Sul reconhece sucessivamente:
"Duas moitas" ( hoje Mamas de Banda).
"Praia Formosa de São Domingos" (Ponta Negra – Congo Brazaville)
"Serra da Praia Formosa" (Luango).
"Ponta ou Praia Branca" (Lândana), actual enclave de Cabinda
Foz do Rio Chiluango – Lândana – enclave de Cabinda
"Ponta da Barreira Vermelha" ( Molembo), norte de Cabinda
"Cabo do Paúl", a sul da actual cidade de Cabinda
1483 – Chegada ao Rio Zaire
Passado aquele Cabo, aos navios deparou-se em 23 de Abril, dia de São Jorge, uma corrente de 20 Km de largo, barrenta e rumorejante que invadia o mar com violência de catarata, trazendo consigo, em remoinhos, ilhas de capim, troncos raptados à margem, ramos estilhaçados, toda a triste e aflitiva bagagem das grandes inundações, era a embocadura de um grande rio, "Rio Poderoso" ( Rio Zaire ou Congo), como lhe terá chamado alguém da frota, conhecido depois por "Rio do Padrão".
A curiosidade das tripulações, já de si aguçada pelo facto de navegarem em novos mares, devia ter sido despertada por esta inesperada circunstância.
À medida que caminhavam, experimentavam os efeitos de uma corrente vertiginosa que cortava o mar perpendicularmente à costa : " e no inverno desta terra, que he do mês de abril atee o fim de setembro, traz este Rio tam grande corrente d’ auguoa doce, que a trinta léguas em mar se sente a força dela (Esmeraldo.)
Torneando e atravessando a corrente da embocadura do rio, a armada penetra num majestoso estuário de margens baixas e foram dar com a margem esquerda, junto à foz.
Viram uma língua de terra, nesse bocado de terra frisada, que avança pelo mar como braço recurvado de muralha a proteger um ponto e que olha de um dos lados para o Atlântico e do outro para a foz do Zaire, arribou as caravelas de Diogo Cão.
Rio Zaire ou Congo – ( Ponta do Padrão, actual cidade do Soyo e M’Pinda,
residência do Manisoyo). Ao encontro do Manisoyo em M´Pinda
Festivamente, a tripulação desembarca, a que, pelo grande volume de água e impetuosidade de corrente, os marinheiros puseram o nome de Rio Poderoso, conhecido também por rio do Manicongo e mais tarde por Rio do Padrão.
Em Mbanza Malele, praia fluvial do Soyo, (hoje porto e estaleiro fluvial da cidade), Diogo Cão encontrou um pescador, Ndom Lwolo, um súbdito da rainha Malele kya Nsi, nome que figura entre os primeiros da lista de soberanos do Mfutila Neanda ( o "Soyo de baixo").
O navegador perguntou o nome da terra, o pescador respondeu: "Kinzadiko" ("não sei"). Ao interrogá-lo sobre o nome do grande rio, Ndom Lwolo respondeu: "Nzadi" ("Rio").
O visitante concluiu que o rio se chamava "Zaire".
Diogo Cão manifestou o desejo de ser apresentado à rainha. A soberana foi informada deste acontecimento e desta solicitação, mas lembrou-se que o seu antepassado Nezinga recebera ordens do tio, o Ntotila/ Manicongo, que a impediam de, como seu suserano, estabelecer relações com povos estrangeiros. Por isso a rainha recusou qualquer contacto com os visitantes mas mandou-os conduzir a Mbanza Kongo...."
Espantados ficaram os habitantes do Soyo, gente pacífica, ao verem surgir, das grandes águas, navios e homens jamais vistos e que não faziam parte da sua taxonomia habitual.
No século XVII, (1694) um missionário italiano Bernardo de Gallo, recolheu as primeiras imagens gravadas nas memórias dos mais velhos e transmitidas de geração para geração:
«
Os negros do Soyo, vendo a novidade dos navios, sem saber que coisa aquilo era começaram a gritar com sinais de admiração, amindele, amindele (igual a mudele, branco na significação actual, mas, naquele tempo, amindele significava coisas, como baleias, que vêm do mar) .»Embora Diogo Cão não contactasse a rainha (Malele kya Nsi), foi aconselhado ir ao encontro do Manisoyo (Ndom Malele kya Nsi), chefe e soberano local, representante do Rei do Congo, à praça de M’Pinda, 10 Km da ponta do Padrão.
Pelos naturais do baixo Soyo e do Manisoyo, residente em Praza, M’Pinda (10 Km da foz), souberam os portugueses que estes dependiam de um grande potentado, chamado Manicongo, cuja corte ficava na M’Banza (residência) Congo, para sudeste, no interior das terras, e cujo império se estendia largamente por ambas as margens do rio e muito para sul da costa africana.
A 26 de Abril de 1483, na presença de diversos naturais e do Manisoyo, os nautas ergueram à latitude 6º 3’ Sul, na ponta meridional (Moita Seca) e margem esquerda na foz do rio, onde 3 dias antes tinham arribado, o Padrão de S. Jorge,
" como quem tomava posse por parte de el-Rei de toda a costa que leixaua atras" (Ásia, Década I, João de Barros, liv.II, capº.3 ), seguida de celebração de missa.Ponta do Padrão. O Padrão de S. Jorge foi colocado à direita desta língua de terra.
Do lado esquerdo o oceano Atlântico, em cima e direita o estuário do rio Zaire
Estabelecida a certeza da existência deste potentado, Diogo Cão, em obediência às instruções recebidas do próprio D. João II, que lhe mandavam proceder de forma a ganhar a confiança dos povos que encontrasse, levando-os a abraçarem o cristianismo, escolhe 2 portugueses idóneos para levarem ao imperador um presente, de muitas coisas variadas umas das outras.
«
E lhe mandou dizer como há dita armada era del-Rei de Portugal, que com todo o mundo tinha paz e amizade. E por lhe dizerem quam grande Rey elle era, desejando de ha ter com elle, e muita prestança, e trato, o mandaua buscar, dizendo-lhe logo o proueito e honra que aos seus e a sua terra dahy lhe poderão vir» ( Crónica de el-Rei D. João II, Garcia de Resende, cap. CLV).Diogo Cão decide enviar ao potentado dois emissários (mensageiros), levando ofertas e presentes. Seguiram para a M’Banza (residência) por via terrestre, 23 dias de caminho, acompanhados por guias do Manisoyo ?)..
Painel representando Diogo Cão, na foz do Zaire,
depois de haver colocado o padrão da descoberta
Foto obtida perto da Ponta do Padrão.
Vista geral da actual cidade do Soyo – ex- Stº António do Zaire – Sazaire -Angola
Estaleiros do porto Fluvial da cidade do Soyo
Diogo Cão e os nautas foram ao encontro do Manisoyo, na Plaza do M’Pinda, (10 Km da Ponta do Padrão). Na foto o canal à esquerda da cidade do Soyo dá acesso a M´Pinda.
Restos do padrão de S. Jorge –Sociedade de Geografia, Lisboa)
O padrão tradicionalmente chamado de S. Jorge, assente por Diogo Cão na extremidade da margem meridional (esquerda) do rio Zaire, fora em 1859, encontrado em completa ruína.
Alguns fragmentos do Padrão de S. Jorge encontram-se actualmente na Sociedade de Geografia em Lisboa. Aqueles fragmentos são de pedra calcária, foram retirados do local (Ponta do Padrão), por ordem do governo português (1859).
E não resisto á tentação de copiar o que Henrique Galvão dizia em "Outras Terras, Outras Gentes" :
" Um dia, passados séculos, um navio de guerra inglês, que se esquecera de aparecer trezentos anos mais cedo para descobrir também qualquer coisa, assinalou a sua passagem, gloriosamente, despedaçando a tiros de artilharia o Padrão de S. Jorge. Em compensação, os indígenas arrecadaram como relíquias os fragmentos do Padrão. Mas esses... não eram civilizados".
Anos antes explicavam os indígenas (naturais do Soyo)- a guarnição dum navio de guerra britânico fizera do padrão alvo de exercícios da artilharia; depois, destroçado o monumento, pretendera recolher a bordo alguns pedaços dele, mas no momento da atracação voltara-se o escaler que os trazia.
Um escaler da marinha inglesa, tentou recuperar a parte superior do padrão, onde se encontrava as inscrições e cruz original, ao dirigir-se para o navio maior, voltou-se e a parte superior padrão perdeu-se nas águas do rio.O escritor que relata tais memórias, extraídas de um relatório arquivado na Sociedade de Geografia de Lisboa, comenta: « Se o escaler não se volta, teríamos naturalmente hoje, no British Museum, a parte superior do padrão, onde poderia ler-se, talvez, a inscrição respectiva » ( Luciano Cordeiro, Diogo Cão, pág. 50 ).
Mas voltou-se, e o regresso a Portugal dos míseros restos do mutilado padrão, postos à guarda daquela Sociedade, nenhum dado útil puderam acrescentar ao discutido problema das viagens de Diogo Cão.
Assim, o Padrão colocado por Diogo Cão e nautas esteve 376 anos na Ponta do Padrão (Moita Seca).
Nesse mesmo ano (1859), o governo de Angola mandou erigir um monumento comemorativo do velho padrão, que ali permaneceu até à independência de Angola (1975), do antigo apenas existiam o pé e uns restos do fuste, que os indígenas ciosamente guardavam, venerando-os como poderoso feitiço, um feitiço de branco.
Padrão Português, na Foz do Rio Zaire ( moderno ) – Ponta do Padrão – Moita Seca
Depois foi erigido uma outra réplica do padrão na vila de ex - Stº António do Zaire (actual Soyo), a 5 Km da ponta do padrão.
Em Agosto de 1938, o então Chefe do Estado, Óscar Carmona, ali no areal escaldante na foz do rio Zaire, na presença da marinha de guerra ao som de tambores e clarins na qual prestava guarda de honra e na presença de muitas autoridades gentílicas ( sobas das regiões nortenhas e uma grande multidão compacta ), depôs uma coroa de flores em bronze, transportada pelos marinheiros vindos dos barcos de guerra, fundeados ao largo.
Nos olhos de todos os presentes marejavam lágrimas sentidas pela grandiosidade do solene momento de evocação e homenagem aos nossos gloriosos antepassados, pelo seu esforço e abnegação. Os vasos de guerra salvaram tiros de canhão enquanto a gente gritava VIVA PORTUGAL. Foi a maior homenagem feita aos pioneiros das descobertas e das conquistas em que os heróis portugueses de antanho deram « Mundos Novos ao Mundo», espalhando a fé e a civilização inscrevendo na história da humanidade o nome glorioso de Portugal.
A 26 de Abril de 1973, foi realizada a 2ª missa na ponta do padrão, 490 anos depois da chegada dos portugueses, estiveram presentes as autoridades locais do distrito do Zaire –Angola, nomeadamente os descendentes do Rei do Congo, sobas e regedores de vários concelhos do distrito, bem como representantes da marinha portuguesa, autoridades administrativas e o então governador do distrito do Zaire coronel Carlos dos Santos..
O Mito de Diogo Cão
"....Diogo Cão, navegador português e figura histórica do Século XV, entra finalmente na história tradicional do Soyo como personagem mítica, embora aí apareça de uma maneira um tanto vaga, e contudo com a missão muito precisa de reiterar a eclosão de uma nova cultura entre os basolongo, de uma nova religião e de uma nova civilização técnica que faz surgir bens materiais de tipo novo. Ora a maneira como o seu mito se desenvolve é a maneira clássica dos "heróis reformadores" da mitologia savânica desta parte de África. A sua estrutura narrativa é semelhante à de toda essa mitologia. O protagonista surge de algures, de longe, com uma comitiva; tem encontros com os mandatários dos soberanos locais mas não chega a encontrar o "rei" ( ou "rainha") do Soyo. A sua entrada em cena tem aspectos espectaculares que valorizam o personagem e que o definem como "estrangeiro". Depois percorre um itinerário bem definido onde a via fluvial -- a principal via comercial: o rio Zaire -- se desenha como dominante, e acaba em Mbanza Kongo, junto do Ntotila. Por uma das versões recolhidas desta lenda, sabe-se que Diogo Cão desembarcou numa praia do Soyo onde encontrou uma "pedra alta", sobre a qual havia dois santos: St. António e St. Maria. O visitante queria levá-los para Portugal, mas St. Maria negou-se e veio a ser deixada na praia, criando uma derivação da lenda destinada a dar conteúdo ao culto de St. Maria que, como vimos atrás, ainda hoje se pratica no Soyo.
Uma segunda versão diz que Diogo Cão chegou num barco à vela (Nkumbi ya Nkutuktu) a uma praia do Soyo em Mbanza Malele. Aí encontrou um pescador, Ndom Lwolo, um súbdito da rainha Malele kya Nsi, nome que figura entre os primeiros da lista de soberanos do Mfutila Neanda ( o "Soyo de baixo").
Quando o navegador perguntou o nome da terra, o pescador respondeu: "Kinzadiko" ("não sei"). E ao interrogá-lo sobre o nome do grande rio, Ndom Lwolo respondeu: "Nzadi" ("Rio"). O visitante concluiu assim que o rio se chamava "Zaire". Então Diogo Cão manifestou o desejo de ser apresentado à rainha. A soberana foi informada deste acontecimento e desta solicitação, mas lembrou-se que o seu antepassado Nezinga recebera ordens do Tio, o Ntotila, que a impediam de, como seu suserano, estabelecer relações com povos estrangeiros. Por isso a rainha recusou qualquer contacto com os visitantes mas mandou-os conduzir a Mbanza Kongo...."
A grandiosidade do rio, despertou a curiosidade dos nautas. Diogo Cão, sondou e explorou o estuário, navegando muitas milhas para o interior. (O mapa de Soligo releva os contornos da embocadura- estuário- do rio , e parte do percurso superior).
Foram dois meses de exploração (Maio e Junho de 1483).
Por do sol, tendo como cenário a densa e inóspita floresta equatorial africana e o rio Zaire, também conhecido por rio Poderoso e depois rio do Padrão, por aí ter sido chantado por Diogo Cão, em Abril de 1483, um padrão dos descobrimentos portugueses.
Rio Zaire ou Congo – ( da ponta do padrão às cataratas de Ielala )
Porém, nesta acção exploratória, e velejando para o interior, os emissários enviados ao rei do Congo foram largados, perto de Nóqui (localidade mais próxima da M’Banza do rei).
Seguiram depois por via terrestre até M’Banza Congo. O Manisoyo, residente em M’Pinda, cedera a pedido do capitão, alguns guias que se dispuseram a acompanhá-los.
Os nautas não se detiveram no local, (Nóqui) desceram o curso do rio, e prosseguiram viagem para Sul.
Costa angolana para Sul da Ponta do Padrão a escassos Km da Ponta do Padrão
Trecho da costa angolana a sul do rio Zaire ao Ambriz
Seguindo junto à costa dão com o "Cabo Redondo", 7º 13’ 60’’ Lat. Sul ( actual N’Zeto - Ambrizete).
A 22 de Julho de 1483, chegam à foz do rio Loge, a que puseram o nome de "Rio da Madalena".
Trecho da costa angolana a sul do Rio Zaire à ilha de Luanda
Depois atingiram a embocadura do Dande 8º 28’ Lat. sul, ou "Rio de Fernão Vaz".
Feita aguada no Bengo, 8º 44´52’’ lat sul (Angra Grande) atingiram a ilha de Luanda, a que chamaram "Ilha das Cabras".
A praia de Pambala, perto da foz do rio Loge ( Ambriz).
Baía e Ilha de Luanda
Quando chegaram à ilha de Luanda, os africanos tomaram-nos por cadáveres vivos, os vumbi :
« nossos pais viviam confortavelmente no planalto de Luabala . Tinham vacas e culturas: eles tinham salinas e bananeiras. De repente viram sobre o grande mar surgir um barco.
Este barco tinha asas todas brancas, cintilantes como facas. Os homens brancos saíram da água e disseram palavras que não compreendiam. Os nossos antepassados tinham medo, dizendo que eram os vumbi, os espíritos vindos do outro mundo.»
"Desta forma a proveniência talássica dos portugueses e do cristianismo provocou um estranho equívoco na mentalidade dos africanos. É que, na cosmogonia congolesa, a jazida dos defuntos situa-se na água e os espíritos dos antepassados encarnam no outro mundo em corpos brancos e vermelhos. Saídos do mar, os portugueses apareciam no domínio do sagrado e « eram reverenciados como deuses na terra», como afirmou a comerciante Duarte Lopes, que esteve no Congo no séc. XVI"
.(Trecho da costa angolana para sul da Ilha de Luanda)
Para sul da actual cidade de Luanda deram o nome ao Futungo de Belas o de "Monte Alto".
Retomando o caminho do Sul, seguiram bastante ao largo, pois não deram pela foz do rio Cuanza.
Sul da Foz do rio Cuanza, vista da margem esquerda do rio.
A vinte léguas da ilha das Cabras, encontraram uma ponta onde os negros pescavam em camboas (canoas) a que deram o nome de "Ponta das Camboas" (Cabo de S. Brás).
" E aqui nam há comercio nem coisa dina de ser escrita. (Esmeraldo, liv.III, cap. 2º )Ao morro de Benguela Velha, actual Porto Amboim, puseram o nome de "Terra das Duas Pontas".
Cabo das Duas Pontas – Porto Amboim
Mais para sul o rio Catumbela, o de "Rio do Paúl". (10 Km a sul do Lobito), o qual fizeram aguada.
Restinga do Lobito
Até aquele rio, a viagem deu-se a grande velocidade. Em quinze dias os portugueses navegaram 368 milhas (Rio da Madalena- Loge ao rio do Paúl - Catumbela).
A 5 de Agosto ancoraram na "Angra Stª Maria das Neves" (actual baía de Benguela), para aparelhar os navios e folgar na praia morena.
Àquela latitude 12º 25’ 53’’ sul, deparou-se uma forte corrente fria vinda do Sul (corrente marítima de Benguela).
Pôr do Sol na praia Morena, Baía de Benguela (angra Stª Maria )
O Sombreiro, a Sul da Baía de Benguela
Trecho da costa para Sudoeste e Sul da Baía de Benguela
Depois de alguns dias a folgar, partiram para Sul e reconheceram o Canal de Alter Poderoso ( Rio Caporolo).
De seguida avistaram o cabo de Stª Maria "Cabo do Lobo", latitude 13º 25’ Sul, onde ergueram o Padrão de Stº Agostinho, a 28 de Agosto de 1483.
Diogo Cão dirige a implantação do padrão de Stº Agostinho no Cabo do Lobo (Cabo de Stª Maria), a sul de Benguela. A prática de assinalar com padrões os lugares atingidos que se supunham de maior importância foi seguida nas viagens dos últimos vinte anos do séc. XV e primeiros anos do séc. XVI. Padrão marcava simbolicamente a posse, por parte do rei de Portugal, de toda a área que lhe ficava vizinha
.De 1383 a Março de 1485
Nos reinados de D. João I, D. Duarte e D. Afonso V as armas reais apresentavam poucas alterações, sendo de notar as primeiras referências aos escudetes como "quinas".
- Fundo branco
- Cinco escudetes azuis dispostos em cruz (os laterais apontados ao centro)
- Os escudetes possuíam cinco besantes (dois pontos- um ponto- dois pontos)
- Bordadura vermelha
- Diversos castelos dourados na bordadura
- Quatro pontas da cruz verde floretada da Ordem de Avis dispostas em cruz na bordadura
(Padrão de Stº Agostinho na Sociedade Geografia, Lisboa)
Constituído por uma peça do calcário vulgar das pedreiras dos arredores de Lisboa, com a forma de uma coluna sobrê-punjada de um cubo, sendo a sua altura total 2,16m.
Uma das faces do cubo ostenta o escudo português do tempo de D. João II, mas do tipo anterior à reforma ordenada por este monarca em Março de 1485.
Nas três outras faces há inscrições.
Foi Luciano Cordeiro que descobriu tratar-se de um texto todo em português, abrangendo, seguidamente as três faces. Este texto, então lido pela primeira vez, é o seguinte
:"ERA DA CREAÇÃ DO MUDO DE SEIS MIL BJLXXXJ ANOS DO NACIMENTO DE NOSSO SENHOR JESHU DE MIL CCCLXXXJJ ANOS O MUJ ALTO MUJ EICELETE PODEROSO PRINCIPE ELREY DÕ JOAM SEGUNDO DE PORTUGAL MÃDOU DESCOBRIR ESTA TERRA E POER ESTES PADRÕES POR DIOGO CÃO ESCUDEIRO DE SUA CASA"
.Ou correntemente:
"
Na era da criação do mundo de 6681 anos, do nascimento de Nosso Senhor Jesus de 1482 anos, o mui alto mui excelente e poderoso príncipe, el-rei D.João II de Portugal, mandou descobrir esta terra e pôr estes padrões por Diogo Cão, escudeiro de sua casa".Foi transportado para Portugal em 1892, em bom estado de conservação, e as suas legendas decifradas, o que permitiu datar a viagem de Diogo Cão (1482-1484).
Encontra-se actualmente na Sociedade de Geografia em Lisboa.
Seguindo mais adiante, deram com uma angra "baía de Lucira Grande" e Cabo de Stª Marta, mais para sul à Ponta Grossa chamaram de "Penedo Alto", depois a baía das Pipas, rio Giraul e finalmente contornando um cabo ( actual cabo Saco), navegaram para norte, lat. 15º 7’ 36" sul, onde a viagem terminou.
Acabavam de entrar numa angra (actual baía de Moçâmedes), sem darem por isso.
A baía de Moçâmedes, actual Namibe-Angola
Estavam convencidos, que atingiram o promontório Prassum, do Mapa de Fra Mauro, onde começa o golfo arábico, único mapa levado a bordo?
Decidiram voltar ao Reino, de passagem reentraram no estuário do Rio Poderoso (Zaire), ancorando no porto de M´Pinda, para recolher os dois emissários, um dos quais se chamava Martim Afonso, que meses antes, Maio/Junho de 1483, os largara em Nóqui perto da residência (M’Banza) do Manicongo.
Não os encontrando, tanto em M´Pinda (10 Km da foz) como em Nóqui, (170 Km da foz) supô-los cativos ou mortos.
Decidiu então velejar para Portugal, Novembro de 1483, com reféns e já não deixou sair do navio quatro negros, dos mais importantes, um dos quais era o Caçuta, que o visitavam com muita confiança e amizade.
«e, polla muyta tardança sua pareceu ao capitão que deuião ser captiuos ou mortos (os embaixadores) e vendo que os pretos da terra se fiauam delle, e entrauão já nos nauios, determinou não esperar os cristãos que mandara, e partir-se com alguns daquelles negros, e assi o fez». (crónica de El-Rei D.João II, Garcia de Resende, cap. CLV).
Por acenos, Diogo Cão, conseguiu dizer aos negros da terra que levava aqueles quatro homens para os mostrar ao rei de Portugal e que os tornaria a trazer dentro de quinze luas (costume habitual de contagem do tempo), deixando ali, como prova de sua boa fé os portugueses que tinha enviado ao Manicongo.
E, durante toda a viagem de regresso ao reino, o capitão tratara os negros com grandes mostras de respeito e amizade, ensinando-os a falar português e, assim, quando chegaram, foram levados à presença d’el - Rei, os quais puderam responder a tudo o que D. João II perguntou, com muita admiração e contentamento de todos.
Ao chegar a Portugal, esperava-o o mais lisongeiro acolhimento da parte do Príncipe Perfeito, que, reconhecendo, com a sua apurada noção de justiça.
El –Rei cumulara-os de atenções e dádivas, e mandou a todos eles dar bom trato e ensinamento, e para que os portugueses cativos no Congo não padecessem algum mal enviaria Diogo Cão numa segunda viagem com ricas ofertas para o Manicongo, pensando converter este rei num fidelíssimo aliado de Portugal e criando nele um grande desejo de se fazer cristão.
Os negros trazidos por Diogo Cão foram tratados, tanto na viagem como depois em Lisboa, com humanos desvelos, sendo instruídos na fé cristã.
"Por eles veio o Príncipe Perfeito a enviar ao Manicongo " um presente rico de myutas, e boas cousas, e lhe mandou offerecer sua amisade e descubrir sua vontade, que era desejar sua saluação, conuidandoo com razões, e amoestações pera a Fee de Jesu Christo nosso Senhor, encomendandolhe que deixasse os idolos, e feitiçarias que tinha, e adorauão em seu Reyno, dandolhe pera isso muytas, e boas razões, que elle podesse entender, e dito de maneira que elle se não escandalizasse polla erronia, e idolatria em que viuia, que nisso teue el Rey muyto resguardado, e temperança pero com brandura o prouocar" (Crónica de el-Rei D. João II, Garcia de Resende, cap. CLV)
1484 – Chegada a Portugal
Uma vez chegado, D. João II, reconhecendo os serviços por ele prestados, "..... Diogo Cão, assi tanto nas partes da Guiné como em outros lugares nos tem mui bem servido, em especial em esta ida onde o enviamos a descobrir terra nova nas ditas partes da Guiné, de onde ora veio...", Carta régia de 4.04.1484, concedeu-lhe uma tença anual de 10.000 reais brancos.Seis dias depois 14.IV.1484, era-lhe passado carta de enobrecimento, em que se atendia não só os seus serviços, senão que também aos de seu avô, Gonçalo Cão, em tempo de D. João I, nas lutas contra Castela, e aos de seu pai no reinado de D. Afonso V.
Feito nobre de cota das armas,
"....os quais ele e os que dele descenderam, por linha direita de legítimo matrimónio gerados, queremos e havemos por bem que tragam, poderia usar as armas que se referem na rub de Cão..."Grande foi a satisfação de D. João II ao tomar conhecimento dos resultados da exploração realizada por Diogo Cão; e logo um amplo galardão a traduziu.
Nas duas cartas régias de 8 e 14 de Abril de 1484, o navegador é dito « cavaleiro da nossa casa », enquanto no padrão de S. Agostinho aparece apenas como escudeiro; a elevação de categoria foi evidentemente o primeiro acto régio de recompensa.
Brasão de armas concedido a Diogo Cão por D. João II.
(Iluminura da obra seiscentista conhecida por Livro do Armeiro Mor, da
autoria de João de Gross que se encontra no Arquivo Nacional da Torre do
Tombo- Lisboa). Note-se que nas armas figuram dois padrões.
Em campo verde dois penhascos e em cada um sua coluna ou padrão de pedra levantados ao alto, sobre cada um destes uma cruz de azul.Timbre: as duas colunas ou padrões em aspas, atados por um torçal verde; elmo aberto de prata, guarnecido de ouro, paquife do metal das armas» ( Luciano Cordeiro, sobre Diogo Cão)
Brasão de Mbemba- a – Nzinga (gravura extraída da obra seiscentista intitulada
Livro de António Godinho, existente no Arquivo Nacional da Torre do Tombo),
filho de Nzinga-a-Nkuvo, senhor do Mbanza Kongo, Mbemba-a-Nzinga subiu ao
trono por volta de 1509 e, pretendendo livrar-se dos seus opositores.
Estreitou os laços comerciais com os Portugueses, por forma a ver garantido
o fornecimento de armas de que tanto carecia.
ANÁLISE AO MAPA DE CRISTÓFORO SOLIGO – 1ª VIAGEM DE DIOGO CÃO
Mapa de Cristóforo Soligo – 1486 – cartógrafo veneziano
O mapa assinala a costa africana ocidental, norte das ilhas de S. Tomé e Príncipe (golfo da Guiné), cabo de Stª Catarina, rio Zaire, e parte da actual costa angolana até ao Cabo Saco do Giraul (baía de Moçâmedes).
Destaca o estuário do rio Zaire (rio Poderoso) e percurso superior.
A curiosidade de navegar pelo rio, despertou o ensejo de encontrar por esta via fluvial uma passagem até Quilóa, (oceano Índico). Ver o Mapa de Fra Mauro na pág. 104
Diogo Cão conduziu os emissários às imediações de Nóqui, perto da M’Banza (residência) do rei do Congo, que ficava para o interior das terras e margem esquerda do rio.
A riquíssima paisagem arborizada das margens do rio constituída por muitos canais (muílas ou mangais), despertou o fascínio dos marinheiros. Verificaram bandos de papagaios a cruzar as suas margens, e notaram o perigo de folgar nas praias fluviais, devido à abundância de Jacarés e hipopótamos.
O cartógrafo, assinalou duas cruzes, uma na margem esquerda junto à foz do rio Zaire (rio Poderoso) e outra no cabo de Stª Maria (cabo Lobo). A primeira cruz é o padrão de S. Jorge e a segunda, o padrão de Stº Agostinho. Estes nomes configuram a Toponímia das datas em que os nautas aí chegaram. (23 de Abril e 28 de Agosto de 1483).
A meados de Julho de 1483, reconhecem o Cabo Redondo (actual N’Zeto - Ambrizete).
A 23 de Julho chegam à foz do rio Loge ( rio da Madalena), onde fazem aguada.
Atingem a barra do Dande a que chamam rio de Fernão Vaz (monte de barro), e de seguida alcançam a (Angra Grande) onde o rio Bengo desagua.
De seguida a ilha de Luanda (ilha das cabras), viram rebanhos de cabras e homens na apanha do zimbo (concha, servindo para moeda de troca no reino do Congo).
Contornado a Ilha de Luanda e do Mussulo, seguem em frente e não observam o rio Cuanza, navegavam ao largo da costa.
Aproximando-se da costa e já para sul do Cabo Ledo, referenciam a Ponta das Camboas (Canoas) (Cabo S. Brás) e depois a terra das Duas Pontas (Porto Amboim – Benguela à Velha).
Afastados de terra, seguindo a derrota do sul, acham o rio Catumbela (rio do Pául) 10 Km a sul do Lobito.
O Mapa de Soligo, mostra a ilha de Luanda como o ponto central (espaço que medeia entre dois pontos -Rio Zaire ao Cabo de Stª Maria, onde se encontram os padrões)?
Verificando um mapa real, a linha da costa para sul daquela ilha até ao Cabo de Stª Maria é duas vezes superior.
Este equívoco deveu-se a dois factores preponderantes:
A exploração da costa efectuada pelos nautas, a sul do rio Zaire até à ilha de Luanda foi percorrida por ventos e correntes desfavoráveis, o que permitiu um melhor apuramento e reconhecimento dos lugares assinalados.
Depois das ilhas de Luanda e Mussulo, os ventos e as correntes marítimas conhecida por " corrente fria de Benguela", permitiram que a navegação, apesar de inconstante, fosse mais rápida.
Os ventos sopravam obliquamente à costa, permitindo navegar à bolina com inclinamento das velas.
A corrente marítima de Benguela de efeitos contrários, não exerceu efeitos adversos, pois fazia-se/ faz-se sentir por mais algumas milhas ao largo da costa.
Os nautas libertados deste imponderável, puderam navegar mais rapidamente, explorando a costa para sul da ilha de Luanda até ao Rio Catumbela em apenas seis ou sete dias.
Chegados ao rio do Paul, (primeiros dias de Agosto), de águas limpas (a época das chuvas tropicais ainda não se fazia sentir nessa altura do ano), fizeram aguada acondicionando os barris nos porões das caravelas.
A restinga do Lobito situa-se a 10 Km a norte do rio Catumbela, os nautas não a observaram, pois navegavam ao largo da costa.
A partir do rio Catumbela (Rio do Pául), a conhecida corrente marítima fria de Benguela, já mais próxima da costa remeteu a 5 de Agosto as embarcações para a angra de Stª Maria das Neves, hoje praia Morena de Benguela.
Ancorados (fundeados) na angra de Stª Maria, por ser abrigo e porto seguro, e de águas serenas, folgaram durante alguns dias.
Apetrechando os navios de lenha, limpeza do forro dos cascos das caravelas (de limos e teredo), muito activo em águas quentes, beneficiaram também a reparação do calafeto, do massame, das velas e mastreação.
Devidamente aparelhados, a meados de Agosto, zarparam para sudoeste, contornando o Sombreiro, a Baía Farta, o farol das Salinas e o rio Caporolo a que puseram o nome Canal de Alter Poderoso (ou Pedroso).
Seguindo em frente, à latitude de 13º 26’ sul, atingiram o Cabo do Lobo (actual Cabo de Santa Maria), onde ergueram a 28 de Agosto de 1483, o Padrão de Stº Agostinho.
Pouco mais, dão com uma angra "baía de Lucira Grande" e o Cabo de Stª Marta para oeste da baía.
Depois à actual Ponta Grossa deram o nome de Penedo Alto.
Mais para sul a angra das Pipas, Giraul e finalmente contornando um cabo (actual cabo Saco), navegaram para nordeste.
Acabavam de entrar numa larga angra (actual baía de Moçâmedes), sem deram por isso.
O mapa assinala um cabo (extremo sul) e a continuidade da linha da costa na direcção do nordeste.
Recorte do mapa de Cristóforo Soligo- rio do Paul ao cabo Saco
Os números assinados correspondem aos nºs do mapa real da pág. 55
Analisando o trecho da costa para sul do rio Catumbela (rio do Paúl) temos:
O cabo de Stª Maria (cabo do Lobo), como sendo quase o ponto central (do rio do Paul ao cabo do extremo sul assinalado no mapa).
A distância do rio Catumbela ao cabo de Stª Maria, corresponde à distância do Cabo de Stª Maria até ao ponto (9) assinalado no mapa de Soligo.
A distância do ponto (9) ao cabo extremo sul do mapa (11) não são mais de 30 km.
Verificando um mapa real, pág. 55, chegamos às seguintes conclusões:
O cabo de Stª. Maria (cabo Lobo), também é quase o ponto central - do rio Catumbela ao Cabo Saco (Baía de Moçamedes).
Do rio Catumbela ao cabo de Stª Maria, a distância é exactamente a mesma deste cabo até ao ponto (9), assinalado no mapa real.
A distância do ponto (9) ao Cabo Saco (11) correspondem a 30 Km ,apenas.
Diogo Cão e os nautas dobraram o actual cabo SACO do Giraul da baía de Moçâmedes- Namibe - Angola, seguido rumo a nordeste, tendo a viagem terminado.
O cabo extremo assinalado no mapa de Soligo, corresponde ao actual Cabo Saco do Giraul, onde começa a Baía de Moçâmedes.
Surge depois uma larga baía (Baía de Moçâmedes) a perder-se de vista que descrevendo um arco de 60 Km, a linha da costa segue uma trajectória em direcção ao Sul.
Mapa da Baía de Moçâmedes (Namibe - Angola)
Efectuada a medição da latitude do cabo, os nautas verificaram corresponder à aproximação do Promontório Prasso (extremo sul de África) do mapa de Fra Mauro, onde começa o golfo arábico.
Não observaram a actual baía de Moçâmedes, pelos motivos seguintes:
É habitual, nos meses de Agosto/ Setembro / Outubro, adensar-se naquela baía, nevoeiro cerrado (bruma marítima) e região envolvente, retirando a totalidade do campo de visão da costa.
Quando os nautas (Setembro de 1483) aí chegaram, dobraram aquele cabo e seguiram para norte e nordeste, percorrendo pouco mais 3 ou 4 Km.
Nestas condições, ao cair a noite ficariam expostos aos perigos do mar, não permitindo permanecer por ali muito tempo.
Retomando o caminho, contornaram o cabo que antes tinham dobrado e zarparam para norte, rumo ao cabo Lobo onde antes já tinham chantado um padrão.
A algumas milhas do cabo extremo que ficou para trás, ao mau tempo deu lugar à bonança.
Estavam convencidos que tinham tocado o extremo sul do continente, os nautas ficaram assim animados.
As portas para o oceano Índico estavam definitivamente abertas?...
O regresso ao reino, passando ainda pelo Rio Zaire para recuperar os emissários que antes, Diogo Cão enviara ao Manicongo, e que em lugar destes, trouxe 4 negros reféns, termina no pátrio Tejo em princípios de Abril de 1484.
A viagem de retorno demorou 6 meses.
O anúncio da aproximação ao promontório Prasso do Mapa de Fra Mauro foi comunicado. O rei de Portugal encheu-se de contentamento e alegria.
A certeza desse convencimento está patente na oração de obediência ao Papa,
"
os portugueses estão a alguns dias de viagem de explorar o Golfo arábico, onde reinos e povos que habitam a Ásia, mal conhecidos de nós por notícias muito incertas, praticam escrupulosamente a fé santíssima do Salvador, efectivamente, descoberta já uma parte enormíssima da costa africana, chegaram os nossos no ano passado até perto do Promontório ".