Diago cao-3
A CONFIDENCIALIDADE NO REINADO DE D. JOÃO II
O reinado de D. João II ( 1481 -1495), no que diz respeito às viagens de exploração efectuadas ao longo da costa ocidental de África para lá do paralelo 2 a Sul do Equador, revela-se muito sóbrio de fontes históricas, perseverando-se pleno de posições ocultas.
Armas do rei de Portugal. Vigoraram a partir do reinado
de D. João II (1481-1495), com algumas alterações durante
o período filipino (1580 -1640). Iluminura extraída do Livro
de Armas, da autoria de João de Cros (1509), que se
encontra no Arquivo Nacional de Torre de Tombo.
Há uma espécie de mistério sobre os acontecimentos náuticos dessa época e, a isso não são estranhas as controvérsias políticas do reinado e a necessidade de ocultar os conhecimentos portugueses a olhares cobiçosos de estrangeiros.
As delicadas relações com os reis de Espanha (os reis católicos Isabel e Fernando de Aragão) concorreram para algumas das tramas que, nos estudos posteriores, resultaram em grandes dificuldades de interpretação dos factos.
Poucos anos após a morte do soberano, João de Barros confundia os acontecimentos, descrevendo-os com pouca regra e com erros significativos.
As "descobertas marítimas" — sobretudo depois de 1481 – envolviam projectos ambiciosos que, a concretizarem-se, podiam representar uma vantagem significativa dos portugueses no contexto das nações europeias daquela época.
É natural que o rei português tentasse escondê-las de observações indiscretas, sendo de admitir haverem causas que assumiam proporções de confidencialidade - segredo de estado, tal como aconteceu e acontece com muitas das descobertas científicas do século XX.
Esta é, seguramente, uma das possibilidades de interpretação da falta de documentos acerca das viagens efectuadas no tempo de D. João II, embora não sejam de pôr de parte as hipóteses que responsabilizam os problemas políticos ocorridos com algumas das mais importantes casas nobres de Portugal ou ainda outras causas que escapam à nossa observação actual.
Às situações para que se procurem causa determinantes, normalmente são fruto de um conjunto de circunstâncias que determinam uma conjuntura.
A escassez de documentos sobre as explorações marítimas do reinado do Príncipe Perfeito, são fruto de várias causas.
As viagens de Diogo Cão estiveram assim envolvidas durante 400 anos em mistério, e ainda hoje se especula sobre as viagens que fez, as circunstâncias da sua morte, a votação ao ostracismo pelo Rei D. João II e o desaparecimento dos roteiros de bordo.
Nos finais do séc. XIX, o epigrafista, Luciano Cordeiro, iniciou um estudo muito detalhado dos padrões que acima se refere, elaborando uma monografia,(Sociedade de Geografia), das viagens que Diogo Cão efectuou ao Sul do Equador.
É a partir da referida (monografia) que se iniciou o conhecimento das datas em que ocorreram a 1ª e a 2ª expedições ( viagens) ao longo da costa, para além do paralelo 2º a sul do Equador, abrangendo os actuais territórios do Gabão, Congo Brazaville, Congo Zaire, Angola e Namíbia.
Viagens, datas e duração.
Nos finais do séc. XV, os mais importantes navegadores ao serviço da coroa portuguesa foram: Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e os Cortes Reais.
Naquele tempo, (1482 a 1497), os portugueses partiram do Tejo (Portugal) em demanda do mar ao sul do Equador em plena estação estival (Verão).
Dias, partiu em Agosto 1487.
Vasco da Gama partiu para a Índia, em 08 de Julho de 1497.
A excepção foi Pedro Álvares Cabral, que em 09 de Março de 1500, zarpou com 13 caravelas, a caminho da Índia.
A antecipação da viagem teve como consequência evitar as monções do oceano Índico, atrasavam a navegação. Vasco da Gama foi prudente em avisar Cabral.
Por analogia, Diogo Cão nas duas viagens que efectuou para sul do Equador (1482) e (1485) , percorrendo a costa ocidental de África, saiu do Tejo em plena estação do verão.
Acontece que, sendo verão no hemisfério norte, é inverno no hemisfério sul e vice-versa.
À medida que as caravelas iam sulcando as águas do hemisfério a sul do Equador, o bom tempo já se fazia sentir.
Navegar com bom tempo e vento de feição eram as condições ideias para o sucesso do empreendimento.
É humanamente impossível nas circunstâncias em que decorreram as viagem, e o espaço de tempo, em que foram efectuadas ter Diogo Cão realizado, três viagens (meados de 1482 a finais de 1486 ou princípios de 1487).
Os padrões de Diogo Cão colocados na costa de Angola e Namíbia resumem-se a quatro:
"Diogo Cão colocou ao longo do litoral angolano 3 (três) padrões e 1 (um) no actual Cape Cross - Namíbia (antigo Sudoeste Africano)".
( I )"O padrão conhecido de S. Jorge foi erigido junto à foz da margem esquerda do Rio Zaire ou Congo - Angola, num local conhecido por Moita Seca (Ponta do Padrão), latitude 6º 2' 60" Sul".
( II ) "O Padrão de Stº Agostinho foi erigido no Cabo do Lobo, depois chamado de Cabo de Stª Maria a sul de Benguela -Angola, à Lat. 13º 25' sul".
( III ) "O Padrão do Cabo Negro, erigido a norte da Baía de Porto Alexandre, actual Tombua- Angola, à latitude de 15º 42' Sul".
( IV) "E por último o Padrão do Cabo da Serra erigido no actual Cape Cross - Namíbia, à latitude de 21º 47' sul".
"Deste modo, os dois primeiros erigidos na 1ª viagem ( 1482-1484) Os dois últimos erigidos na 2ª viagem (1485-86-87)".
As inscrições dos Padrões da 1ª Viagem ( 1482 -1484 )
Padrão de S. Jorge
Pouco ou nada há a dizer. Este padrão (parte superior) encontra-se perdido nas águas do Rio Zaire. Alguns fragmentos estão na Sociedade de Geografia em Lisboa.
Assim, relativamente às inscrições do Padrão de S. Jorge, desconhece-se o teor das inscrições.
Acresce o facto de Diogo Cão ter escolhido para o brasão de armas os dois padrões que ergueu (S. Jorge e S. Agostinho), o primeiro dos quais na ponta da margem esquerda do rio Zaire, moita seca e o segundo no cabo do Lobo (cabo de Stª. Maria - Angola).
No brasão das armas de Diogo Cão, verificar-se a semelhança dos dois padrões.
Assim sendo, as inscrições efectuadas no Padrão S. Jorge eram idênticas ao do Padrão de Stº. Agostinho?
Padrão de Stº Agostinho
Muito bem conservado, na Sociedade de Geografia em Lisboa refere apenas uma inscrição em português daquele tempo e menciona duas eras:
A da criação do mundo: 6681
A de Nosso Sr. Jesus Cristo: 1482
O ano 6681, da criação do mundo, (era Eusebiana) vai de 01 de Setembro de 1481 a 31 de Agosto de 1482.
O ano de 1482, de Nosso Sr. Jesus Cristo, (era actual), marca o anos já decorridos do nascimento de N.S. Jesus Cristo.
Como se vê a inscrição efectuada no padrão, (feita em Portugal), antes das caravelas partirem, foi talhada no ano de 1482.
Os portugueses partiram do Tejo nesse ano (1482), antes ou mesmo no dia 31 de Agosto, após o começo do solestício (21 de Junho), em plena estação de Verão.
Diogo Cão partiu em Julho ou Agosto de 1482, como aconteceu mais tarde com Bartolomeu Dias (Agosto de 1487) e Vasco da Gama (08 de Julho de 1497).
A duração da 1ª viagem foi de 20 meses aproximadamente, 1 ano e 8 meses, saída em (Julho/Agosto de 1482) e chegada a Portugal em princípios de Abril de 1484.
As inscrições dos Padrões da 2ª viagem (1485 -1486/87)
O Padrão do Cabo Negro
Pouco ou nada a acrescentar, encontra-se na Sociedade de Geografia em Lisboa.
Este Padrão está em mau estado de conservação.
O Padrão do Cabo Negro apresenta semelhanças com Padrão do Cabo da Serra, tendo em conta a estrutura e a altura do Padrão, bem como alguns caracteres indecifráveis no fuste.
O Padrão do Cabo da Serra
O melhor conservado de todos os padrões, encontra-se em Berlim Alemanha, encimado com a cruz de Cristo original, refere duas inscrições uma em latim e outra em português, abordam o capitel e o fuste do padrão:
Tanto na inscrição em latim como em Português refere duas datas: A da criação do mundo e a de Nº Srº Jesus Cristo
Na inscrição em latim duas datas – 6684 e 1485
Na inscrição em português duas datas – 6685 e 1485
Porque razão as datas da criação do mundo (inscritas em latim e em português) não são coincidentes!?.
As inscrições em latim e em português foram efectuadas em momentos diferentes.
A inscrição latina gravada até 31 de Agosto de 1485 e a inscrição em português depois daquela data.
Eis os motivos porque as datas não são coincidentes.?!
Compreende-se que Diogo Cão tenha saído do Tejo nesta segunda viagem, o mais tardar a meados de Setembro de 1485, logo a seguir à conclusão das inscrições dos padrões (Revainstain refere-se a este assunto).
O cronista João de Barros (Décadas da Ásia) diz:
"…Diogo Cão, no retorno da segunda viagem subiu o Rio Zaire e foi visitar o Rei do Congo, dando a entender que o navegador regressou ao reino"
Estas afirmações à luz dos factos conhecidos, não correspondem à verdade:
1º - João de Barros nasceu em 1496, algumas fontes históricas das viagens de Diogo Cão, relatadas em "Décadas da Ásia", encontram-se destorcidas. Barros, inicia a descrição dos acontecimentos, trinta anos depois.
2º - Diogo Cão visitou o Manicongo, isso é certo, mas não esteve na M’Banza (residência) do Rei do Congo e muito menos já no regresso da 2ª viagem.
3º - Segundo Garcia de Resende, (contemporâneo de Diogo Cão), o Manicongo, ou rei do Congo, deslocou-se ao Rio Zaire, ao encontro do navegador e nautas para confraternizar, onde as caravelas se encontravam, quando os navios acabavam de chegar de Portugal.
4º - Aconteceu, logo que chegaram ao Zaire, nesta 2ª viagem, subiram o rio até onde é navegável, (160 Km da foz), imediações da actual cidade de Nóqui – Angola.
5º - Devido à preocupação de encontrar o mais rapidamente possível, os emissários portugueses, (não sabiam se estavam mortos ou cativos), dois anos antes foram enviados à residência do rei do Congo (Maio/Junho de 1483).
6º - O mapa veneziano do frade Fra Mauro, indica em destaque, um grande canal de ligação (oceano Atlântico até Quilóa no oceano Índico). O canal só podia ser o rio onde se encontravam.
7º - Era mais fácil transpor o rio e seguir em frente, do que dar a volta pelo sul onde já tinham chegado (Baía de Moçâmedes), e que suspeitaram (Setembro de 1483) ser o extremo sul do continente africano.
8º - Diogo Cão levava a bordo os negros que prometera devolver, dentro de 15 luas, ou 15 meses, ao Reino do Congo ( promessa feita ao Manisoyo residente em M’Pinda quando zarpou com eles no regresso da 1ª viagem), pelo cômputo da contagem do tempo, os nautas estavam atrasados.
9º - Assim sendo, é evidente ter Diogo Cão subido o rio Zaire logo à chegada, vindo de Portugal, do que tê-lo feito no regresso desta viagem. O navegador trazia ordens urgentes e bem definidas de D. João II, para se encontrar com o imperador daquelas terras para se tornar um forte aliado de Portugal.
Pelo exposto, as afirmações de João de Barros, contradizem a realidade, Diogo Cão não estivera com o Manicongo no regresso da 2ª viagem.
Nessa visita ao Manicongo, Diogo Cão e os nautas andaram à procura de uma saída a montante, e deram com as cataratas de Ielala, (termo da navegabilidade do rio Zaire).
Nuns rochedos próximos gravaram as armas de Portugal, assinalando a presença dos portugueses para a posteridade. (
O escudo, os castelos, as quinas gravadas revelam serem posteriores à reforma decretada por D. João II -Março de 1485).As perigosas cachoeiras perto das cataratas, puseram de parte as aspirações de Diogo Cão. (A rota até Quiloa, no oceano Índico, pelo rio estava fora de questão). Era natural que o canal do Mapa de Fra Mauro correspondesse à verdade?1
Desceram o rio até à foz. Depois rumaram para sul até às imediações do Promontório Prasso onde começa o golfo arábico do Mapa de Fra Mauro. (Oração de Obediência), onde anteriormente tinham chegado (Setembro de 1483),
Depois daquele cabo (actual cabo saco do Giraul), acabavam de entrar numa larga baía a perder-se de vista (Baía de Moçamedes), cujo limite indicava a direcção do Sul.
Apreensivos, pelo inesperado, contornaram a baía e seguiram para sul até atingirem o paralelo 22º 10’, onde a viagem terminou, percorrendo mais de mil milhas náuticas por uma costa totalmente deserta e sem rios à vista.
Desconhecem-se as razões porque ali terminara, porém suspeita-se de qualquer fatalidade.
Diogo Cão, teria morrido (a célebre legenda do mapa de Henricus Martellus Germanus afirma … por alturas da serra Parda o navegador aqui morre), ou se embrenhou por terra a dentro e nunca mais aparecera.?! (notícias dos sobreviventes).
A costa por onde navegavam também não oferecia quaisquer hipóteses de sobrevivência (falta de água, víveres).
Bartolomeu Dias, passando junto àquela costa em finais de 1487 a caminho do extremo sul de África, ia bem provido de mantimentos.
Da naveta transferiu os alimentos para as caravelas e deixou-a ficar com 9 homens na angra das duas aldeias, actual Porto Alexandre (Tômbua).
Dias, foi avisado pelos sobreviventes da expedição de Diogo Cão que a partir dali as tarefas a bordo, dia a dia tornar-se-iam cada vez mais penosas.
Desconhece-se, a data da chegada dos sobreviventes ao reino.
No entanto há uma certeza, os sobreviventes desta viagem chegaram a Portugal, antes de Bartolomeu Dias partir, ( Agosto de 1487) na aventura da descoberta do extremo sul do continente africano.
Esta afirmação tem a seu favor, João de Santiago que foi o piloto da naveta de mantimentos da armada de Dias.
O nome de João de Santiago, está registado nos rochedos de Ielala, fez parte da 2ª expedição de Diogo Cão.
Conclui-se então, terem os sobreviventes da 2ª viagem de Diogo Cão, chegado ao reino antes de Bartolomeu Dias partir em Agosto de 1487, para a arrojada missão de encontrar a passagem para o oceano Índico.
À semelhança da 1ª viagem, (duração máxima de 20 meses), a 2ª viagem de Diogo não foi além daquele tempo. Iniciada em Setembro de 1485, terminou o mais tardar em Abril ou Maio de 1487.
Notícias e circunstâncias da morte do Navegador
Em tempos circularam boatos (finais do séc. XIX), de que em Vila Real de Trás os Montes existia o túmulo de Diogo Cão.
O Padre Ruela Pombo afirmou:
«Na hoje cidade de Vila Real de Trás os Montes na igreja de São Domingos (Sé Catedral) existe o túmulo que guarda os restos mortais do grande navegador Diogo Cão».Na revista Diogo Cão 1ª série ( 1931 – 1932 ), pág. 196, o P. Ruela Pombo refere o seguinte:
« Diogo Cão..... jaz em Vila Real, na igreja de São Domingos, onde o seu sarcófago simples está exposto na arcadura da nave do lado do Evangelho ».
Esta notícia foi mais tarde divulgada, por Gastão de Sousa Dias.
Ainda hoje há a convicção de que o navegador não morreu no termo da segunda viagem, e muitas pessoas acreditam ter Diogo Cão regressado dessa viagem.
De facto, na igreja de S. Domingos, a meio da nave do Evangelho, existe um túmulo embutido na parede sob um ornamentado arco, e uma inscrição de três linhas, duas na face do tampo e a terceira no rebordo, achando-se esta última muito mal conservada.
O túmulo pertence à família Taveira de Magalhães. A letra da inscrição – alemã minúscula – corresponde ao tempo de Diogo Cão?
O sarcófago (túmulo) é de Pero Domingues, do qual se transcreve a incrição:
ESTA OBRA MÃDOU FAZER D Aº E SUA MULHER BRÃCA DYZ E JAZ SEU FILHO PERO DIZ QUE D(e)US AJAO
Assim sendo, o túmulo em questão não veio resolver o debatido problema sobre a morte de Diogo Cão.
Sé Catedral de S. Domingos em Vila Real de Trás-os-Montes - Portugal
Túmulo de Pêro Domingues. Segundo a lenda pertence a Diogo Cão
A completa obscuridade que envolve a personalidade de Diogo Cão desde a sua última viagem, continua assim por resolver?
Se voltou ao reino, onde se encontra o seu túmulo?!
Ou D. João II, fez desaparecer todas as menções do navegador, por causa de uma hipotética errada informação?
Não existem provas que corroborem o esclarecimento desse procedimento, por parte do monarca português.
Há ainda a informação de Therese Schedel –autora do livro " O Mosteiro e a Coroa ", sobre o mistério que rodeia o roteiro de Diogo Cão.
Entrevistada em 1999 refere:
«..
a não existência dum roteiro de Diogo Cão tem sido um mistério apaixonante».«...
O navegador desapareceu durante a sua segunda viagem».«...
Os tripulantes que regressaram a Portugal contaram que Diogo Cão se tinha embrenhado terra adentro e nunca mais aparecera»."
Muito possivelmente, talvez tivesse sido devorado por um tigre, quem sabe "."
Ora o que decerto não aconteceu foi o capitão levar nesse passeio fatal o roteiro debaixo do braço"."..
O roteiro era um caderno no qual os capitães e pilotos anotavam dados referentes à navegação, era um diário de bordo. E regressado a Portugal. O que, aparentemente, não sucedeu. Ou regressou e desapareceu depois de ter regressado? Eis o mistério".As viúvas dos tripulantes desaparecidos no mar e além fronteiras recolhiam com frequência aos mosteiros e conventos existentes em Portugal? Anotavam os motivos pela opção da clausura? A entrevistada recolheu as informações em alguma biblioteca do mosteiro ou convento? Eis a dúvida.
Votação ao ostracismo por el- Rei D. João II?
Depois da segunda viagem (1486/1487) o nome de Diogo Cão desaparece da cena dos descobrimentos, não existem referências oficiais ao navegador, circunstância que induziu os historiadores modernos a procurar uma explicação para este facto tão insólito
.Não há dúvidas que a Oratio de Obediencia, criou a ideia dos nautas se terem aproximado do promontório Prasso, onde começa o golfo arábico, do Mapa de Fra Mauro.
Com base na "Oratio de Obedientia", pronunciada por Vasco Fernandes de Lucena, durante a coroação do papa Inocêncio VIII, foi elaborada a teoria de que Diogo Cão se tinha aproximado do Promontório Prasso, onde começa o Golfo Arábico. (Mapa de Fra Mauro).
Chegado à angra de Moçâmedes, Diogo Cão verificou nesta segunda viagem JAN1486, o equívoco (engano). Acabavam de entrar numa larga angra a perder-se de vista, cujo limite da costa se estendia para sul.
Depois desta angra disseram " reconhecemos a costa ainda mais mil milhas para sul e não verificamos qualquer sinal da navegação para oriente ou norte", o que faz supor caso exista tal passagem, ela existir muito mais para sul ao ponto onde chegamos Cabo da Serra lat. 22º 10’ Sul ".
Ouvidas estas explicações, o Rei e os cosmógrafos do reino, ficaram surpreendidos?
Havia a certeza, de que na 1ª expedição, os portugueses se aproximaram do Promontório Prasso, já que a navegação termina num ponto onde a linha da costa (Mapa de Soligo) seguia a direcção do Norte.
O mapa mundi de Fra Mauro. Seta a tracejado o grande canal (Ligação
do oceano Atlântico ao Índico). Seta a vermelho o Promontório Prasso
Atingindo, nesta 2ª viagem, o ponto antes reconhecido – O Falso Promontório Prasso- o actual Cabo Saco na Baía de Moçâmedes, o navegador devia ter suposto achar-se ante um mar aberto e portanto no fim de África(Cf. Fontoura da Costa – às portas da Índia em 1483, págs, 41-50), os nautas verificaram a perder de vista, o início de uma larga angra ( João de Lisboa) , cujo alargamento se dirigia para sul.
È impossível imaginar a surpresa (desilusão) dos marinheiros.
Diogo Cão ultrapassa esse ponto e empurrará para além do paralelo 22 um reconhecimento desesperado.
A costa africana, a partir dali, apresenta para o visitante, apenas perfis áridos e estende-se para Sul sem parar.
A ilusão que os nautas tiveram dois anos antes (Setembro 1483), deveu-se aos seguintes factos:
- O ponto de convergência dos dois oceanos ( Atlântico e Indico ) é visível, no grande mapa-múndi executado em 1459 pelo monge veneziano Mauro, a pedido de D. Afonso V. ,situa-se a 15º de latitude sul, muito mais a norte do que na realidade.
Devido ao mau tempo que nessa altura do ano ali se fazia e faz sentir (Bruma/ névoa ou nevoeiro cerrado), os nautas não obtiveram a necessária visão da baía.
A notícia, divulgada por Vasco Fernandes de Lucena (sem porém, indicar o nome do capitão), e que depois se revelou errada, teria causado a desilusão do monarca, e o consequente desaparecimento de Diogo Cão da cena dos descobrimentos?
Compreende-se a desilusão do rei D. João II, ele que tanta confiança depositara em Diogo Cão.
Não é menos verdade que o monarca, perante o equívoco, ostracizasse o célebre navegador da cena dos descobrimentos.
O desaparecimento de Diogo Cão, deve-se exclusivamente ao facto de não ter regressado da 2ª viagem.
É imperioso ter em conta a legenda do "Insulário", de Henricus Martellus, e também uma afirmação contida nos pareceres da Junta de Badajoz, em que menciona o falecimento de Diogo Cão na região da serra Parda.
Com efeito, é mais plausível considerar o desaparecimento do navegador da cena dos descobrimentos, como devida à sua morte por terras africanas, depois da viagem iniciada em Setembro de 1485, do que como consequência da vingança do rei D. João II por causa de uma hipotética errada informação.
Assim sendo, a votação ao ostracismo do célebre navegador, como preferem vários autores, não tem qualquer sentido.
O facto do navegador ter desaparecido de cena, é sustentada, apoiada e consubstanciada pela política de Segredo de Estado - confidencialidade, do reinado de D. João II.
Desaparecimento dos roteiros de bordo
O rei não fizera o recebimento nos Paços de Alcáçova, em Lisboa, dos sobreviventes agora chegados, como desejava, a peste ainda matava na capital e não podia correr riscos e, ali no Alentejo, embora as casas fossem menos imponentes, o ar era mais saudável.
Recebeu no Paço real o capitão substituto de Diogo Cão, Pero Anes, que detalhadamente descreveu os acontecimentos.
Embora consternado, não demonstrou qualquer atitude de desagrado.
Ouviu-o atentamente e o seu pensamento logo se virou para Bartolomeu Dias de Novais, peça fundamental de uma próxima exploração.
Como o objectivo ainda não fora cumprido, a tão desejada ligação dos dois oceanos (Atlântico e Índico ), contornando a África pelo extremo Sul e contactar o reino cristão do Preste João situado algures na Etiópia, para uma futura base na luta contra os inimigos da Fé Cristã, haveria que dar continuidade à exploração da costa até que o mesmo fosse definitivamente alcançado.
Apesar das vicissitudes, a "Oração de obediência ao Papa Alexandre VII", proferida por Vasco Fernandes de Lucena (11 de Dezembro de 1485), em Roma, continuaria de pé. A frase chave utilizada por D. João II "....mais vale torcer do que ceder...."
Os serviços de espionagem dos reinos da Europa gozavam de uma certa autonomia. Espalhados por terras lusas, procuravam a todo o custo informações preciosas das descobertas portuguesas.
João II, conhecedor desta saga de espiões, não se deixava atormentar.
Rui Pina refere «...
Foi príncipe mui justo e mui amigo de justiça e nas execuções dela mais rigoroso e severo que piedoso, porque, sem alguma excepção de pessoas de baixa e alta condições, foi dela mui inteiro executor, cuja vara e leis nunca tirou de sua própria seda, para assentar nela sua vontade nem apetites, porque as leis que a seus vassalos condenavam nunca quis que a si mesmo absolvessem.»Gravuras de D. João II, rei de Portugal (1481 – 1495)
Dizia o Rei D. João II:
" ...
lembrai-vos de que o nosso embaixador Vasco Fernandes de Lucena o afirmou em público, no ano passado, em Roma, diante do Papa Inocêncio VIII. Se Diogo Cão errou e não encontrou a passagem, vamos ser motivo de zombaria para toda a Europa.E saía, de rompante, deixando os astrónomos consternados, a olhar com reprovação para Mestre Vizinho que teria feito melhor em guardar para si as suas suspeitas e maus agoiros, em vez de os partilhar com Sua Alteza.
D. João II, a sós na sua câmara, passeava de um lado para o outro, para dominar os impulsos, temendo o malogro e o desfrute, sabia que não podia apresentar pontos fracos na sua governação! O seu poder aumentara, com ele cresciam igualmente os inimigos e os descontentes, sobretudo entre os poderosos do Reino e os mais próximos da família.
Não hesitara em cortar o mal pela raiz. Mandara prender por traição e condenar à morte no cepo, o primo D. Fernando, 3º duque de Bragança, confiscando-lhe os bens imensos em favor da Coroa.
Justiça que manda fazer el-rei nosso Senhor – fora o pregão do rei de armas e dos seus dois pregoeiros: - manda degolar D. Fernando, 3º duque que foi de Bragança por cometer e tratar traição e perdição de seus Reinos de sua pessoa Real.
A morte do duque revoltara os nobres e pouco tempo depois descobrira nova conspiração, dessa vez para o assassinarem, mas ele adiantara-se de novo, apunhalando com a sua própria mão o cunhado D. Diogo, duque de Viseu ( a Rainha D. Leonor ainda lhe não perdoara a morte do irmão!).
Um a um caçara os restantes conspiradores e a todos mandara degolar em público, com pregão de seu crime, excepto ao Bispo de Évora, o mais odioso dos seus inimigos, a quem fez encerrar numa cisterna sem
água, onde depressa morreu..... envenenado. Os que lograram fugir e esconder-se em Castela, foram descobertos e apanhados por Pêro da Covilhã, o seu espião mais eficaz.Assim, os seus aterrorizados opositores (se é que ainda restavam alguns depois da limpeza que fizera), perderam o ânimo e converteram-se em vassalos submissos.
O Reino e a Coroa ganharam finalmente a força e o poder que seu pai, o sonhador e generoso D. Afonso V, conhecido por "O Africano", havia deixado fugir para as mãos gananciosas dos nobres, em mercês e privilégios.
" Há tempos de coruja e tempos de falcão" costumava dizer e durante muito tempo fora a coruja nocturna, dissimulada, observando e atacando em segredo, até se sentir seguro no seu trono. Agora era tempo para os voos do falcão, cada vez mais velozes e amplos, à conquista de céus longínquos e de outros terrenos de caça. No entanto, para guardar esse poder, não podia cometer erros.
Tudo seria esclarecido numa próxima exploração a enviar brevemente.
Para além de novos recrutas fariam parte desta armada antigos marinheiros, de preferência os melhores das viagens de Diogo Cão, tais como João de Santiago piloto da naveta de mantimentos e tantos outros.
A "oração de obediência" proferida pelo embaixador Vasco de Lucena, junto da Stª Sé, manter-se-ia, deste modo o alarme dum pressuposto sucesso já anunciado e não alcançado, era altamente prejudicial à política seguida por D. João II
O Rei classificara aquela viagem de muito secreta.
Toda a documentação: mapas, roteiros, registos, foram sigilosamente guardados ou até levado descaminho, (não existem documentos, quer na Torre de Tombo, quer em qualquer outra parte), para não comprometer o bom nome e a glória dos portugueses.
A frota de Bartolomeu Dias larga o Tejo (Porto de Povos) em finais de Agosto 1487, cinco meses depois, tinham ultrapassado o Cabo de Boa Esperança, sem darem por isso.
Zarpando para norte, a 3 de Fevereiro de 1488 chegam a uma angra a que dão o nome de S. Brás, Mossel Bay de hoje.
Estavam em pleno Oceano Índico.
Ninguém suspeitava que a pequena frota ( 2 caravelas) realizara uma das maiores proezas navais de todos os tempos.
A meados de Dezembro de 1488, arribam a Portugal.
D. João II prudente, satisfeito com a notícia, logo mandou chamar ao Cabo das tormentas, o Cabo de Boa Esperança.
Os portugueses contornaram o extremo sul de África ligando os dois oceanos (Atlântico versus Índico), abrindo definitivamente as portas do caminho marítimo para a Índia.
O Mapa de Fra Mauro, acabara de cair no esquecimento.
Conclusão:
Martelus em (1489), limitou-se a registar um facto, a morte de Diogo Cão, e não em que circunstâncias a morte se deu, assinalando que o navegador morrera ao atingir a Serra Parda, depois de ter colocado um último padrão no Cabo da Serra, actual Cape Cross.
Esta legenda foi muito contestada por vários autores, afirmando que a viagem aí teria terminado, e não que Diogo Cão tivesse morrido.
Consideram, que o navegador regressou ao reino e dele nunca mais houve notícia, por ter sido ostracisado por D. João II, pelo malogro da expedição.
Não é certa a vinda do navegador para Portugal e muito menos ostracisado pelo monarca português, pois os acontecimentos marítimos desse tempo mantinham-se em segredo de estado.
Então o que acontecera ao célebre Navegador?
Não há dúvidas que os tripulantes sobreviventes dessa viagem regressaram ao reino, antes de Bartolomeu Dias partir para a arrojada missão, da descoberta do célebre Cabo da Boa Esperança".
Como se sabe, a viagem terminou em Cape Cross de hoje, e a atestá-lo é o Padrão aí colocado em Fevereiro ou Março de 1486, a célebre legenda do mapa de Martellus (1489) alude ao termo da viagem e a morte do navegador.
Assim, a legenda constitui o documento chave e preponderante de toda a verdade. Diogo Cão morrera no termo daquela viagem, ou por doença, ou por ter-se embrenhado por terra a dentro e nunca mais aparecer.
Em Portugal, não existem provas do insigne navegador se encontrar sepultado em mosteiro, convento ou igreja, bem como outras referências que justifiquem a tese de ter regressado dessa viagem.
Porque razão, em Portugal, não há conhecimento oficial da morte do navegador.
Parece muito estranho.
Diogo Cão deu tantas alegrias ao Rei de Portugal D. João II.
Os seus actos heróicos assim o demonstram, (apresamento de navios espanhóis no Golfo da Guiné, a descoberta de mais de 5.000 Km de costa, o contacto e a amizade com o imperador das terras do Congo, a colocação de 4 padrões ao longo da actual costa de Angolana e Namíbia, assinalando as terras descobertas para a posse de Portugal).
A notícia divulgada pelos tripulantes ao regressar desta viagem atribulada, ter Diogo Cão "embrenhando-se por terra a dentro e nunca mais aparecer", parece reunir o melhor consenso para a explicação de tão insólito mistério.
O que terá levado Diogo Cão a deixar a armada e decidido embrenhar-se por terra a dentro?
Crê-se não haver outra explicação, a não ser, por uma questão de Honra, o sentimento que leva o homem a procurar a consideração pública pelo cumprimento do dever da prática de boas acções e demonstrações de respeito e dignidade.
Vir de tão longe, chegar onde chegou e diante dele uma costa deserta sem o fim à vista.
Acabava de atravessar a costa mais deserta e traiçoeira alguma vez vista, (a actual costa dos esqueletos), onde ao longo dos tempos por ali vão deambulando carcaças de barcos desfeitos pelo mar bravio nos areais sem fim.
Costa dos Esqueletos - Namíbia
A sagrada esperança do continente africano inflectir para Oriente ou Norte, sentimento à muito procurado, desde a Baía de Moçâmedes, não chegara ao seu termo.
Os nautas encontravam-se perante uma grande colónia de focas e leões marinhos, que em toda a extensão do cabo da Serra ocupavam ordeiramente as suas posições.
Junto ao cabo, desembarcaram na praia onde o mar é mais sereno e durante algum tempo folgaram erguendo o último Padrão, conhecido pelo Padrão do Cabo da Serra.
Diogo Cão, entendeu não avançar mais.
A costa inóspita e deserta onde se encontravam não oferecia aos visitantes quaisquer meios de subsistência. (a não ser pescado em abundância e em último recurso a colónia de focas).
Dunas do deserto do Calaári - Namíbia
Talvez, com o intuito de observar lá do cimo, a linha da costa mais para sul, decidiu embrenhar-se por terra a dentro em direcção à Serra. Do alto, o campo de visão torna-se mais amplo. Observação directa, que pode resultar na esperança de observar in loco uma abrangência mais definida e ampla da costa a inflectir para oriente ou norte?
Ninguém o seguiu, nem a sua guarda pessoal, pois o mestre não o consentira.
Enquanto se embrenhava, deixou de ser visto por aquelas elevações de terreno, que ora aqui e ali o encobriam dos olhares atentos dos marinheiros.
Perto da Serra ou já de regresso foi atacado por um grupo de leões famintos.... ou na encarniçada caminhada, sob um calor ardente, se esvaneceram as suas forças, ficou inanimado para sempre longe dos olhares dos marinheiros?!....
Nas aturadas buscas para o interior, os nautas observaram grandes dunas do deserto, orvalho matinal aninhado na vegetação rasteira, e falésias como que a indicarem leitos de rios que outrora por ali passaram.
Falésias do deserto do Calaári
Diogo Cão acabara de desaparecer sem deixar rasto.
Os nautas seguiram até à ponta dos Farilhões (última etapa conhecida no mapa de Martellus), as caravelas retrocederam.
A adversidade da costa desértica e o mar bravio não permitia aos mareantes permanecer por ali por mais tempo.
Naquela costa traiçoeira, de dia referenciaram cabos e angras, à noite ancoragem em alto mar de velas desfraldadas, a costa não oferecia enseadas e portos seguros, para protecção das caravelas.
A aproximação à costa tinha como prevenção a medição constante da fundura (braças), para os barcos não encalharem.
O espaços a partir do deserto do Namibe ( Moçâmedes) e deserto do Calaári, são ocupados por vegetação rasteira onde abunda a Welwitchia Mirabilis, as acácias e outras espécies espinhosas.
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Welwitchia Mirabilis - Planta que só existe no deserto de Namibe( Moçâmedes) e deserto do Calaári
(Acácias em flor Benguela)
O Mapa de Henricus Martelus , tem sido interpretado ao longo dos tempos como sendo uma alusão que a 2ª viagem teve o seu "términus" – fim – morte, por alturas da Serra Parda- Namíbia, e não que o navegador aí tivesse morrido.
Parece que os apologistas desta teoria, lendo e relendo as Décadas da Ásia de João de Barros, sempre acreditaram (acreditam) que Diogo Cão depois de ter atingido a latitude da Serra Parda, o Cabo do Padrão da Serra hoje Cape Cross, voltou para trás e terá subido o Rio Zaire à procura do Manicongo – Rei do Congo na sua residência (M’Banza), e que depois disto volveu ao reino e dele (navegador) nunca mais houve notícia.
Diogo Cão comprometera-se demasiado, também por culpa dos melhores da frota, ao anunciar a D. João II, em Abril de 1484, a aproximação ao promontório Prasso, onde começa o Golfo arábico?
À luz dos documentos daquele tempo, considerando "O Mapa de Fra Mauro", e a "Oração de Obediência ao Papa", os portugueses estavam a alguns dias de navegar pelo golfo arábico.
Esta notícia terá provocado um espanto geral na corte do Papa? Jamais alguém teria ido tão longe por mar, como os portugueses.
Nessa 2ª viagem, Diogo Cão e os nautas convencidos e animados que estavam, depois de terem dobrado o cabo Saco, ficaram perplexos (desiludidos) ao verem diante de si uma grande baía e a linha da costa a indicar o sul.
Depois desse cabo, uma larga angra a perder-se vista, descrevendo uma tranjectória (arco de 60 Km de costa).
A terra continuava sem qualquer espécie de arvoredo, estendendo-se o areal sem fim.
Tamanha desilusão, terá provocado a apreensão geral da tripulação.
Seguindo a direcção do sul, dão com um cabo, onde implantaram o Padrão do Cabo Negro.
Depois entram numa angra, onde observam duas aldeias.
Os habitantes locais viviam miseravelmente da pesca e moravam em sebas (construídas à base de esqueletos dos cetáceos), cobertas da própria areia da praia.
Os nautas não sabiam que a partir dali a vida das tripulações iria tornar-se hora a hora mais dura e o esforço de continuar a navegação corresponderia porventura a perdas importantes de entre a gente que as compunha.
Sem recursos (víveres e escassez de água), a viagem não podia ir mais além, onde chegaram.
Diogo Cão, cedendo à forças da natureza, porque não era de fácil contentamento, decidiu explorar aquela zona interior da Serra Parda, talvez com o intuito de avistar lá do cimo, uma amplitude mais vasta do horizonte da costa para sul?!
Envolto no mistério, seguiu em frente e desapareceu, deixando de ser visto pela bruma (névoa) do deserto ou pelas grandes dunas.
A caminho da Índia (frota de Pedro Álvares Cabral), em de Maio de 1500, Bartolomeu Dias naufragou e morreu no oceano Atlântico, perto do Cabo da Boa Esperança..
Vasco da Gama, o primeiro europeu a atingir a Índia por mar, 20 de Maio de 1498, morreu em Cochim (Índia) 24 de Dezembro de 1524. Transladado em 1539 para a Vidigueira aí permaneceu até 1889. Hoje, os seus restos mortais repousam no mosteiro dos Jerónimos (Lisboa).
Pedro Álvares Cabral, foi sepultado em Santarém, igreja de Nª Srª da Graça.
Diogo Cão desiludido e equivocado por não ter encontrado a passagem para o Oceano Índico, como anunciara (Abril de 1484) a el-rei D. João II, seu senhor, deixou a armada no Cabo do Padrão da Serra (Março de 1486), seguindo para o interior árido, em direcção à serra …, na convicção de avistar lá do cimo uma amplitude mais vasta do horizonte costeiro, quem sabe, uma vez que já não dispunha de meios para continuar a viagem para sul.
Como responsável máximo não se apresentaria ao rei, dando o dito por não dito.
Com esta atitude salvaria a honra do convento!.
Os tripulantes regressaram ao reino, afinal o responsável máximo desaparecera, talvez não fossem responsabilizados pelo insucesso da expedição.
No regresso passaram ainda por M’Pinda (Rio Zaire), prometendo ao Manisoyo, irmão da mãe do rei do Congo (Manicongo) voltar, mas não trouxeram a embaixada Congolesa.
Diogo Cão desapareceu da história, como sempre acontece àqueles que nas grandes lutas são feridos de insucesso.
Sobre o seu nome fez-se um silêncio impressionante.
E todavia ele deixou aos seus continuadores preciosos ensinamentos, que logo foram aproveitados por Bartolomeu Dias e ainda por Vasco da Gama: para vencer a costa árida era necessário transportar os próprios mantimentos.
Bartolomeu Dias, por sua vez, tirou uma nova lição: a navegação devia ser realizada pelo mar largo – o grande golfão de Camões – " por onde se encurta a viagem e nos fica mór proveito "
De Cabo Verde navegar-se-ia durante seiscentas léguas na direcção do sul, até ao 19º e daí, cortando o ângulo para ESSE, durante oitocentas e cinquenta léguas, atingir-se-ia o paralelo 37º S, a quarenta léguas do Cabo, que assim seria facilmente dobrado.
Desta forma se aproveitavam a favor da navegação os ventos dominantes do Atlântico Sul.
Mais tarde os navios à vela navegavam como quem demanda os portos do Brasil, remetendo para a costa africana os 24º de lat. S. Logo que topavam ventos de feição.
Como consequência imediata das viagens de Diogo Cão, deve ser considerada ainda a expedição que foi ao Congo em Dezembro de 1490, sob o comando de Gonçalo de Sousa, o qual regressaram à sua pátria os negros levados a Portugal, que foram educados em letras e religião no Convento de Santo Elói, indo também, em satisfação dos desejos do rei do Congo, muitos padres franciscanos, com materiais para templos e alfaias para o culto.
Nesta fase decisiva das descobertas, quando o Cabo das Tormentas já havia sido montado, grande importância devia atribuir à evangelização do Congo para que para ele se distraíssem navios, gente e cabedais.
Esse interesse acentuou-se no reinado de D. Manuel I, que chegou a encarar a possibilidade de realizar pelo Zaire a ligação com a Abissínia, aproveitando o Lago Central africano, de que com tanta insistência davam notícia os exploradores portugueses do século XVI.
Do Congo se estendeu também para sul a acção dos portugueses, de tal forma que, já antes de 1526, estes haviam atingido o coração do Reino de Angola e, 60 anos depois, penetravam no Reino de Benguela.
As viagens de Diogo Cão costumam ser consideradas como marcando o início da história da grande colónia de Angola, pois que a história do Congo com ela se foi pouco a pouco fundindo, como se fundiram na verdade os outros dois antigos reinos indígenas da Matamba e Benguela.
Não cabe a Diogo Cão a glória de ter dobrado o Cabo, como Luciano Cordeiro por momentos suspeitou.
Mas a sua figura avulta com notável destaque, entre todos os precursores de Vasco da Gama: por sua acção as navegações ao longo da costa africana atingiram um momento de patético interesse.
Saindo da fase da nebulosa esperança, para alcançarem uma definida certeza; por sua acção se desvendou a existência de um grande império abaixo do Equador, descoberta que, atraindo gente de armas, exploradores, colonos e missionários, teve como consequência imediata a organização da Capitania de Angola, base de que foi a colónia da África Ocidental.