As viagens de Diogo Cão ao longo da Costa Ocidental da Africa

Fernando Pessoa, que passou dez anos na África do Sul, no seu livro Mensagem diz:
Mensagem
O
esforço é grande e o homem é pequeno
Eu, Diogo Cão,
navegador, deixei
Este padrão
ao pé do areal moreno
E para diante
naveguei.
A
alma é divina e a obra imperfeita.
Este padrão
sinala ao vento e aos céus
Que, da obra
ousada , é minha a parte feita:
O por-fazer é
só com Deus.
E
ao imenso e possível oceano
Ensinam estas
Quinas , que aqui vês,
Que o mar com
fim será grego ou romano:
O mar sem fim
é português.
E
a cruz ao alto diz que o que me há na alma
E
faz a febre em mim de navegar
Só
encontrará de Deus na eterna calma
O
porto sempre por achar.
(Fernando Pessoa, Mensagem )
INTRODUÇÃO
A primeira referência conhecida sobre
Diogo Cão deve-se a um estrangeiro: trata-se do relato da Voyage D’Eustache Delafosse sur la côte de guinée, au Portugal &
en Espagne (1479-1481).
O
francês Eustache de
Na descrição do apresamento de um navio
castelhano na costa da Mina, em 1480, Diogo Cão desempenhava na altura as funções
de Capitão de um dos quatro navios portugueses.
O navio de Eustáquio de
Ao
certo, apenas se sabe que a sua família se instala

Segundo
a tradição , o navegador Diogo Cão nasceu nesta casa, situada
No
tempo de D. João I, o seu avô Gonçalo Cão fora companheiro de armas do rei,
prestara relevantes serviços à Pátria nas lutas com Castela, pelo que lhe
havia sido feita a doação de Badajoz.
Seu
pai fora igualmente batalhador nos tempos de Afonso V e distinguido nas
campanhas efectuadas pelo rei.
D.
João II tinha boas referências sobre Diogo Cão e não foi por acaso que o
escolheu para dar continuidade aos descobrimentos.
Em
1481, quando D. João II tomou conta dos destinos do país, os portugueses
tinham chegado ao Cabo de Santa Catarina (actual Gabão), e os descobrimentos
estavam praticamente parados.
Sobre
a vida do navegador pouco se conhece, sendo escassas e ambíguas as informações,
à semelhança do que se passa com as viagens pelas quais é recordado.
Aos
descobrimentos realizados por Diogo Cão referiram-se os cronistas Rui Pina
(1440-1522), Garcia de Resende (1470-1536), António Galvão (1490-1557), João
de Barros (1496-1570), e o cosmógrafo
e roteirista Duarte Pacheco (1570).
Todas
essas notícias, úteis para o conhecimento de alguns pormenores, são, porém,
bastante incompletas e confusas quanto a pontos fundamentais, tais como o número
de viagens, datas em que foram realizadas e extensões.
Rui
de Pina (Crónica de D. João II cap. 62º ) começa
por aludir a uma viagem encetada em 1485, acrescentando logo ter havido outra
antes, de que não diz a data; descreve sumariamente as duas, apontando como
limite da primeira o Zaire, e acaba a narração com a chegada dos navios ao
Tejo, em conclusão da segunda viagem, facto a que atribui a data de 1489.
Garcia
de Resende (crónica D. João II, capº CL V)
descreve uma viagem de Diogo Cão ao Congo em 1485, acrescentando, de passagem
que aquele navegador «outra vez já lá fora por seu descobridor». Nada diz
dessa primeira viagem, descreve aquela que considera segunda, e fá-la seguir de
uma terceira, já sem referências a Diogo Cão; em nenhuma alude a navegações
para sul da foz do Zaire.
António
Galvão ( Tratado dos descobrimentos pág. 26), descreve
uma só viagem, começada em 1484, dando-lhe por limite o Trópico de Capricórnio
« .... chegado ao rio de Manicongo, pôs nele padrão de pedra com armas e
letras reais....; daqui foram ter ao rio Pico de Capricórnio pondo padrões
onde pareceu ser necessário ».
João
de Barros ( Asia, Dec. I, livro 3º cap III ) descreve duas viagens : à
primeira, que diz começada em 1484 e concluída em 1486, dá como termo a foz
do Zaire; à segunda, feita logo após a primeira, atribui o reconhecimento de
mais 200 léguas para além daquele rio.
Duarte
Pacheco (Esmeraldo de situ orbis liv 3º cap. 4º)
igualmente atribui a partida de Diogo Cão, e também só alude a uma viagem,
terminada no Zaire.
Apesar
de tantas imperfeições e contradições, os aludidos relatos foram durante
perto de quatro séculos a informação quase única de que se dispôs
relativamente aos descobrimentos realizados por Diogo Cão.
Historiadores,
escrevendo no séc. XIX, quando já era notável o desenvolvimento dos estudos
de história das navegações portuguesas, esforçaram-se por uma explicação
razoável, porém, nunca conseguiram desfazer satisfatoriamente a confusão das
notícias quinhentistas quanto às datas e ao âmbito das viagens efectuadas por
Diogo Cão.
Em
1892 tais factos começaram a ser conhecidos, devido ao aproveitamento de outras,
e mais sólidas fontes históricas: as de carácter epigráfico, cartográfico e
diplomático, até então desconhecidas ou totalmente ignoradas.
Desde
o segundo quartel do séc. XIX, o incremento dos estudos da história das navegações
portuguesas fez despertar o interesse do que poderiam revelar essas inscrições.
Era, porém, geral a crença de tê-las a acção do tempo deteriorado a ponto tal, que nenhum esclarecimento útil ministravam.
–
O navegador, Diogo Cão percorreu (navegou) pela 1ª vez na história da navegação
marítima, a costa ocidental de África da latitude 2 sul
à latitude 22º 10´sul, o correspondente a 20 graus de descoberta da
costa ocidental africana, ao serviço de el- rei D. João II de Portugal.
Os
20 graus equivalem a
Considerando,
a estrutura real do mapa físico a sul do Equador, o navegador percorreu mais de
A proeza foi alcançada em duas
expedições (viagens):
1ª expedição -De Julho de 1482
a Abril de 1484, da era Cristã – alcance da Lat. 15º
2ª expedição - De Setembro de 1485
a 1486/1487, da era Cristã. – alcance da Lat. 22º 10´ Sul – actual
Hentiesbay ( Namíbia). – Fevereiro / Março de 1486
A
armada de Diogo Cão esteve a 1º 17´
=
O
Professor ERIC AXELSON, catedrático jubilado da Universiadde de Cape Town (cidade
do Cabo – Africa do Sul ), considerado como a maior utoridade na história do
estabelecimento dos portugueses na África austral nos séc. XV a XVII, escreve
sobre as viagens de Diogo Cão:
“
Diogo Cão que se tinha distinguido na captura de três caravelas espanholas na
Costa do Ouro, em 1480, foi nomeado para capitanear uma expedição que partiu
de Portugal em 1482.
A
frota fez escala
Na
margem sul da foz do Rio Congo, quase ao nível do mar, Diogo Cão levantou um
padrão- um pilar de pedra composto por uma coluna circular, sobreposto por um
bloco rectangular, que por sua vez tinha sobreposta uma Cruz.
O Brasão do Rei
D. João II e uma inscrição, proclamavam a soberania portuguesa sobre aquelas
águas, direito reconhecido pelo Papa, enquanto a cruz anunciava a chegada da fé
cristã.
Ao
ouvir falar dum rei todo poderoso no interior do continente, Diogo Cão mandou
emissários a fim de entrar em contacto com ele.
Continuou
a navegar para Sul e, no Cabo do Lobo, mais tarde Cabo de Santa Maria, na
latitude 13º
A
partir do Cabo de Santa Maria, as terras altas estendem-se
É
possível que tivessem escassez de mantimentos e sofressem de escorbuto, mas há
quem pense que Diogo Cão estava convencido de que tinha atingido a extremidade
Sul do continente.
Regressado
à foz do Congo, a fim de embarcar os emissários que tinha mandado ao rei, viu
que não tinham voltado.
Raptou,
então, alguns indígenas como reféns. Em Abril de 1484, Diogo Cão chegou a
Portugal e o rei, convencido de que ele tinha alcançado um notável êxito,
armou-o cavaleiro e concedeu-lhe uma pensão, assim como aos seus descendentes.
Diogo
Cão escolheu para o seu brazão os dois padrões que tinha levantado.
O
embaixador do rei junto da Santa Sé afirmou, com muito orgulho, que os
portugueses se tinham aproximado do Promontório Prassum, onde começa o Golfo
da Arábia.
Encarregado
de empreender uma segunda expedição, Diogo Cão partiu na segunda metade de
1485.
Devolveu
os reféns e procurou, provavelmente na ida, explorar o Rio Congo, na esperança
que pudesse vir a ser a extremidade meridional do canal que, segundo a mapa de
Fra Mauro, separava a África Austral da massa do continente e desembocava no Índico
perto de Quilóa.
Não
há dúvida que D. João esperava que Diogo Cão alcançasse pelo menos os
reinos periféricos de Prestes João ou, mesmo, o Índico, pois um tal percurso
tornava desnecessário mais expedições ao longo da costa.
A
expedição progrediu até às cataratas de Ielala, que se situam a noventa e
duas milhas náuticas do mar, onde os marinheiros gravaram várias inscrições
nas rochas, deixando assim para a posteridade um precioso registo da sua façanha.
Segundo
o cronista João de Barros, Diogo Cão viajou por terra até à capital do rei
do Congo – cidade que no século seguinte viria a receber o nome de São
Salvador – onde iniciou a duradoura aliança entre o Congo e Portugal.
Mas
também recebeu notícias desoladoras de que o rio era intransponível, por
causa das muitas cachoeiras no percurso superior, e que encontrar uma rota até
ao Índico estava fora de questão.
As
explorações tiveram assim de continuar por via marítima e, ao navegar para além
do Cabo de Santa Marta, verificou, com desilusão, que o continente se estendia
para sul, aparentemente sem fim.
No
Cabo Negro, na latitude 15º
Logo
a seguir ancorou numa baía, hoje Porto Alexandre, a que deu o nome de Angra das
aldeias, devido à existência de duas povoações.
Também
entrou na manga das areias, hoje Baía dos Tigres.
Navegando
ao longo duma costa deserta, alcançou a latitude 21º
Mais
a sul fica a serra Parda e é provável que fosse perto dali que Diogo Cão
morreu; pelo menos sabe-se que a expedição acabou neste ponto.
Diogo
Cão tinha aumentado os conhecimentos dos Europeus sobre o sul do continente
africano e o sul do Atlântico, desde o Cabo da Santa Catarina até ao sudoeste
da África (Namíbia).
Logo que os
sobreviventes da expedição de Diogo Cão chegaram a Portugal, o rei mandou
Bartolomeu Dias continuar o empreendimento.

(Réplica-caravela
Bartolomeu Dias- finais séc.XV)
Dias
deixou o Tejo em Agosto de 1487, com duas caravelas e uma naveta de mantimentos.
A
pequena frota fez escala
Lançando
ferro numa baía abrigada, provavelmente a Baía dos Tigres, Dias transferiu
mantimentos para as caravelas e seguiu para sul, deixando alguns homens na
naveta.
Para além do último
padrão erguido por Diogo Cão e para lá da Serra Parda, as caravelas teriam
navegado com terra à vista. ......”
Trezentos
anos antes da descoberta da nascente do Nilo, um português deu notícia dos
lagos imaginados por Ptolemeu. No século XVI, Duarte Lopes revelou velhos segredos ao
mundo.
Este
é um excerto do artigo que pode encontrar na edição impressa da NGM –
Portugal.
Em 1591, um livro publicado em Roma causou grande
sensação na Europa. Tratava-se da "Relatione del Reame di Congo et delle
Circonvicine Contrade", ditada a Filippo Pigafetta pelo português Duarte
Lopes, que durante seis anos viveu naquele reino da África Ocidental.
Repleta de informações
precisas sobre o Congo e outras regiões do interior africano, a "Relatione"
deu a conhecer terras e gentes de que os europeus tinham apenas notícias vagas,
desmistificando ideias herdadas de tempos antigos.
À data da viagem de Duarte
Lopes, o reino do Congo era já bem conhecido dos portugueses.
Cem anos antes, Abril de
1483, as caravelas de Diogo Cão explorando
a costa africana encontraram a foz do rio Congo, ou Zaire, o segundo maior de África
a seguir ao Nilo.
Regressando em 1485 subiram
a foz do rio Zaire às cataratas de Ielala, onde deixaram os seus nomes gravados
nos rochedos junto ao rio Zaire a montante de Matádi.
Em
finais de 1488, Bartolomeu Dias regressando ao Reino, depois de encontrar
a passagem do cabo de Boa Esperança - ligação do oceano Atlântico com o Índico
-, aportou a M’Pinda e trouxe uma embaixada congolesa, sendo um dos principais
o Caçuta, que já estivera em Portugal em 1484/1485 no tempo de Diogo Cão.
Em
Dezembro de 1490, uma nova expedição, trouxe o Caçuta de volta ao Reino do
Congo, e morreu de doença
Nos anos a seguir, enviaram
os seus dois filhos para Lisboa a fim de aprenderem português e se instruírem
nos ensinamentos da nova fé.
Missionários franciscanos,
dominicanos e agostinhos, bem como alguns comerciantes, estabeleceram-se
É consensual que em
torno da figura de Diogo Cão, subsistem duas grandes questões por esclarecer.
Em que circunstâncias
ocorreu a sua morte e ou quantas viagens teria feito para sul do cabo de Stª
Catarina ( actual Gabão).
Na
verdade, boa parte do que se julga conhecer sobre as viagens de Diogo Cão
depende dos padrões que deixou ao
longo do seu trajecto e respectivas inscrições, cartas, gravações, crónicas
e a oração de obediência ao Papa:
-
Três (3) padrões actualmente na Sociedade de Geografia em Lisboa ( o Padrão
de S. Jorge – os quais existem alguns fragmentos- , o Padrão de Stº
Agostinho e o Padrão do Cabo Negro).
-
Um ( 1) padrão, actualmente na Alemanha ( Padrão do Cabo) ou Cape Cross.
- Toponímia
incluída nas cartas de Cristóforo Soligo, datada de
1486, de Henricus Martellus de 1489 e do globo de Martim Behaim, de 1492.
-
Gravações nas pedras das cataratas de Ielela, 160Km (
-
Oração de Obediência que D. João II, envia ao papa Inocêncio VIII e que foi
lida em Roma por Vasco Fernandes de Lucena em 11 de Dezembro de 1485.
-
Crónicas de Rui de Pina, Garcia de Resende e de João de Barros.
Com
as viagens de Diogo Cão, para além
do Cabo de Santa Catarina (Gabão ) inicia-se
a prática de assinalar com padrões de pedra (calcário) as terras descobertas
pelos portugueses e de se estabelecer os primeiros contactos com o rei do Congo,
cuja residência ficava em M’Banza Congo (S. Salvador
- Angola) para o interior e a sudeste das cataratas de Ielala (100Km).
Partindo do Tejo as
caravelas seguiram para S. Jorge da Mina, (Gana) entreposto comercial edificado
em princípios de 1482, por Diogo de Azambuja a mando de D. João II.
Dirigiram-se depois
ao cabo de Santa Catarina (actual Gabão), última etapa atingida no reinado
anterior D. Afonso V.
Foi
reconhecida a costa a Sul daquele cabo e descoberto um grande rio a que puseram
o nome rio do Padrão ou Rio Poderoso (actual rio Zaire ou Congo), onde foi
erguido na foz e ponta extrema na margem Sul, (hoje conhecido por Moita Seca
–Ponta do Padrão), um padrão de
pedra a que puseram o nome de Padrão de S. Jorge.
Mais a sul, no cabo
do Lobo (actual Cabo de Stª Maria a sul de Benguela), até onde prosseguiu a
expedição, foi colocado o segundo padrão, a que chamaram Padrão de S.
Agostinho (Cabo do Lobo). Os portugueses seguiram pouco mais além até à baía
de Moçâmedes?
Os navios terão então regressado a
Portugal, em Abril de 1484. Diogo Cão foi distinguido por D. João II, pelos
serviços prestados.
O objectivo seria
continuar a exploração da costa africana para além da Baía de Moçâmedes,
convencidos que estavam de terem atingido o Promontório Prassum.
No decurso dessa
segunda expedição, tendo inicio na segunda metade de 1485, Diogo Cão navegou
pelo Rio Zaire até às cataratas de Ielala, onde foram gravadas em rochedos
a permanência dos portugueses.
Descendo o rio,
navegaram depois para além da Baía de Moçâmedes, e são fixados mais dois
padrões, um dos quais no cabo Negro (Porto Alexandre) e o outro no cabo do Padrão
(actual Cape Cross, na Namíbia).
Não se sabe, ao
certo a data de
regresso desta expedição, (1486 ou mesmo 1487). Sabe-se no entanto que
Bartolomeu Dias partiu de Portugal na demanda do Sul de África em Agosto de
1487, já os sobreviventes da segunda expedição de Diogo Cão tinham chegado
ao reino.
E Bartolomeu Dias
fez escala na Baía dos Tigres (sul Angola ), transferiu a maior parte dos
alimentos da pequena naveta para os navios de maior porte e deixou ali alguns
homens.
Ficou assim a memória
da sua participação neste período de explorações, em que se nota claramente
o interesse em encontrar o extremo sul do continente africano, que o mesmo é
dizer, a passagem para a Índia.
Súmula
dos factos conhecidos:
--------------------Stopped here----------------
A
Primeira Viagem a sul do Equador
1482
D.
João II mandou Diogo Cão, seu escudeiro, prosseguir a descoberta para o Sul da
África.
Levava
víveres para larga demora e numerosos artigos para permuta com o gentio e
presentes aos potentados das regiões africanas a visitar.
Em
vez das cruzes de madeira que os navegadores dos reinados anteriores costumavam
colocar nas terras descobertas, levava Diogo Cão padrões de pedra calcária.
Neste
propósito, partiu do Tejo (Lisboa) com duas caravelas, no segundo semestre de
1482, acompanhado do cosmógrafo Martim Beheim?, introdutor do uso do astrolábio
na navegação e autor do afamado globo de Nuremberg, fazendo escala

Castelo S. Jorge da Mina, actual Gana - África
“
o estabelecimento da feitoria da Mina fora resolvido por D. João II em fins de
1481, sendo encarregado dessa assaz delicada missão Diogo de Azambuja, que
partiu de Lisboa em Dezembro daquele ano,, comandando uma frota constituída por
dez caravelas e duas urcas. Naquelas seguiam quinhentos homens de armas e cem
artífices, e nestas os materiais de construção, já aparelhados, os
mantimentos e as munições.
A
frota fundeou em 12 de Janeiro de 1482 defronte do lugar escolhido para
assentamento da feitoria, próximo da Aldeia das Duas Partes, um pouco além da
mina de ouro. A construção dos edifícios começou imediatamente e prosseguiu
com rapidez. Por vezes os indígenas
vieram perturbar o curso dos trabalhos, mas Diogo de Azambuja, com prudência
logrou levar a obra a bom termo rapidamente.
Navegou
até ao de Cabo de Santa Catarina, (actual Gabão), já reconhecido em 1474/75, por Lopo Gonçalves
e Rui Sequeira no reinado de D. Afonso V.
Antes de atingir o Cabo de
Stª Catarina, Diogo Cão descobriu a ilha de Ano Bom.
A viagem
para além do Cabo Stª Catarina foi feita ao
longo da costa.
Este método de navegação,
porém, se era vantajoso por permitir um meticuloso conhecimento da costa, não
era isento de graves dificuldades.
Duarte Pacheco mais tarde ainda aconselhava, “
sabendo pouco a pouco o que nella hia, a asy suas Rootas e conhecenças, e cada
província de que gente era, pela verdadeiramente saberem ho luguar em que
estauam, por onde podiam seer certos da terra que hiam buscar” ( Esmeraldo de
situ orbis )
Trecho
da Costa Africana do paralelo 2 sul (Cabo
Stª Catarina) ao Rio Zaire ou Congo
Seguindo para Sul reconhece
sucessivamente:
“Duas
moitas” ( hoje Mamas de
Banda).
“Serra
da Praia Formosa” (Luango).
“Ponta
ou Praia Branca” (Lândana),
actual enclave de Cabinda
Foz do Rio
Chiluango – Lândana – enclave de Cabinda
“Ponta
da Barreira Vermelha”
( Molembo), norte de Cabinda
“Cabo
do Paúl”, a
sul da actual cidade de Cabinda
1483 – Chegada ao Rio Zaire
Passado aquele Cabo, aos navios deparou-se em 23
de Abril, dia de São Jorge, uma corrente de
A curiosidade das tripulações,
já de si aguçada pelo facto de navegarem em novos mares, devia ter sido
despertada por esta inesperada circunstância.
À medida que caminhavam, experimentavam os
efeitos de uma corrente vertiginosa que cortava o mar perpendicularmente à
costa : “ e no inverno desta terra, que he do mês de
abril atee o fim de setembro, traz este Rio tam grande corrente d’ auguoa doce,
que a trinta léguas em mar se sente a força dela (Esmeraldo.)
Torneando e atravessando a
corrente da embocadura do rio, a armada penetra num majestoso estuário de
margens baixas e foram dar com a
margem esquerda, junto à foz.
Viram uma língua de
terra, nesse bocado de terra frisada, que avança pelo mar como braço recurvado
de muralha a proteger um ponto e que olha de um dos lados para o Atlântico e do
outro para a foz do Zaire, arribou as caravelas de Diogo Cão.

Rio
Zaire ou Congo – ( Ponta do Padrão, actual cidade do Soyo e M’Pinda, residência
do Manisoyo). Ao
encontro do Manisoyo em M´Pinda
Festivamente, a tripulação
desembarca, a que, pelo grande volume de água e impetuosidade de corrente, os
marinheiros puseram o nome de Rio Poderoso, conhecido também por rio do
Manicongo e mais tarde por Rio do Padrão.
O
navegador perguntou o nome da terra, o pescador respondeu: "Kinzadiko"
("não sei"). Ao interrogá-lo sobre o nome do grande rio, Ndom Lwolo
respondeu: "Nzadi" ("Rio").
O
visitante concluiu que o rio se
chamava "Zaire".
Diogo
Cão manifestou o desejo de ser apresentado à rainha. A soberana foi informada
deste acontecimento e desta solicitação, mas lembrou-se que o seu antepassado
Nezinga recebera ordens do tio, o Ntotila/ Manicongo, que a impediam de, como
seu suserano, estabelecer relações com povos estrangeiros. Por isso a rainha
recusou qualquer contacto com os visitantes mas mandou-os conduzir a Mbanza
Kongo....”
Espantados ficaram os
habitantes do Soyo, gente pacífica, ao verem surgir, das grandes águas, navios
e homens jamais vistos e que não faziam parte da sua taxonomia habitual.
No
século XVII, (1694) um missionário italiano Bernardo de Gallo, recolheu as
primeiras imagens gravadas nas memórias dos mais velhos e transmitidas de geração
para geração:
«
Os negros do Soyo, vendo a novidade dos navios, sem saber
que coisa aquilo era começaram a gritar com sinais de admiração, amindele,
amindele (igual a mudele, branco na significação actual, mas, naquele tempo,
amindele significava coisas, como baleias, que vêm do mar) .»
Embora Diogo Cão não contactasse a rainha
(Malele kya Nsi), foi aconselhado ir ao encontro do Manisoyo (Ndom Malele kya Nsi), chefe e soberano local,
representante do Rei do Congo, à
praça de M’Pinda,
Pelos naturais do baixo
Soyo e do Manisoyo, residente em Praza, M’Pinda (
A 26 de Abril de 1483, na presença de diversos
naturais e do Manisoyo, os nautas ergueram à latitude 6º
Ponta
do Padrão. O Padrão de S. Jorge foi colocado à direita desta língua de
terra.
Do
lado esquerdo o oceano Atlântico, em cima e direita o estuário do rio Zaire
Estabelecida a certeza da
existência deste potentado, Diogo Cão, em obediência às instruções
recebidas do próprio D. João II, que lhe mandavam proceder de forma a ganhar a
confiança dos povos que encontrasse, levando-os a abraçarem o cristianismo,
escolhe 2 portugueses idóneos para levarem ao imperador um presente, de muitas
coisas variadas umas das outras.
«E lhe mandou dizer como há dita armada era del-Rei de
Portugal, que com todo o mundo tinha paz e amizade. E por lhe dizerem quam
grande Rey elle era, desejando de ha ter com elle, e muita prestança, e trato,
o mandaua buscar, dizendo-lhe logo o proueito e honra que aos seus e a sua terra
dahy lhe poderão vir» ( Crónica de el-Rei D. João II, Garcia de Resende,
cap. CLV).
Diogo Cão decide enviar
ao potentado dois emissários (mensageiros), levando
ofertas e presentes. Seguiram para
a M’Banza (residência) por via terrestre,
23 dias de caminho, acompanhados
por guias do Manisoyo ?)..
.
Painel
representando Diogo Cão, na foz do Zaire,
depois
de haver colocado o padrão da descoberta
Foto
obtida perto da Ponta do Padrão.
Vista
geral da actual cidade do Soyo –
ex- Stº António do Zaire – Sazaire -Angola
Estaleiros
do porto Fluvial da cidade do Soyo
Diogo
Cão e os nautas foram ao encontro
do Manisoyo, na Plaza do M’Pinda, (

Restos
do padrão de S. Jorge –Sociedade de Geografia, Lisboa)
O
padrão tradicionalmente chamado de S. Jorge, assente por Diogo Cão na
extremidade da margem meridional (esquerda) do rio Zaire, fora em 1859,
encontrado em completa ruína.
Alguns
fragmentos do Padrão de S. Jorge encontram-se actualmente na Sociedade de
Geografia
E não resisto á tentação de copiar o que
Henrique Galvão dizia em "Outras Terras, Outras Gentes" :
"
Um dia, passados séculos, um navio de guerra inglês, que se esquecera de
aparecer trezentos anos mais cedo para descobrir também qualquer coisa,
assinalou a sua passagem, gloriosamente, despedaçando a tiros de artilharia o
Padrão de S. Jorge. Em compensação, os indígenas arrecadaram como relíquias
os fragmentos do Padrão. Mas esses... não eram civilizados”.
Anos
antes explicavam os indígenas (naturais do Soyo)- a guarnição dum navio de
guerra britânico fizera do padrão alvo de exercícios da artilharia; depois,
destroçado o monumento, pretendera recolher a bordo alguns pedaços dele, mas
no momento da atracação voltara-se o escaler que os trazia.
Um
escaler da marinha inglesa, tentou recuperar a parte
superior do padrão, onde se encontrava as inscrições e cruz
original, ao
dirigir-se para o navio maior, voltou-se
e a parte superior padrão perdeu-se nas águas do rio.
O escritor que relata tais memórias, extraídas de um relatório
arquivado na Sociedade de Geografia de Lisboa, comenta: « Se o escaler não se
volta, teríamos naturalmente hoje, no British Museum, a parte superior do padrão,
onde poderia ler-se, talvez, a inscrição respectiva » ( Luciano Cordeiro,
Diogo Cão, pág. 50 ).
Mas
voltou-se, e o regresso a Portugal dos míseros restos do mutilado padrão,
postos à guarda daquela Sociedade, nenhum dado útil puderam acrescentar ao
discutido problema das viagens de Diogo Cão.
Assim,
o Padrão colocado por Diogo Cão e nautas esteve 376 anos na Ponta do Padrão (Moita
Seca).
Nesse mesmo ano (1859), o governo de Angola mandou
erigir um monumento comemorativo do velho padrão, que ali permaneceu até à
independência de Angola (1975), do antigo apenas existiam o pé e uns restos do
fuste, que os indígenas ciosamente guardavam, venerando-os como poderoso feitiço,
um feitiço de branco.
Padrão Português, na Foz do Rio Zaire ( moderno ) –
Ponta do Padrão – Moita Seca
Depois
foi erigido uma outra réplica do
padrão na vila de ex - Stº António do Zaire (actual Soyo), a
Em Agosto de 1938, o então Chefe do Estado, Óscar Carmona, ali no areal escaldante na foz do rio Zaire, na presença da marinha de guerra ao som de tambores e clarins na qual prestava guarda de honra e na presença de muitas autoridades gentílicas ( sobas das regiões nortenhas e uma grande multidão compacta ), depôs uma coroa de flores em bronze, transportada pelos marinheiros vindos dos barcos de guerra, fundeados ao largo.
Nos olhos de todos os presentes marejavam lágrimas sentidas pela grandiosidade do solene momento de evocação e homenagem aos nossos gloriosos antepassados, pelo seu esforço e abnegação. Os vasos de guerra salvaram tiros de canhão enquanto a gente gritava VIVA PORTUGAL. Foi a maior homenagem feita aos pioneiros das descobertas e das conquistas em que os heróis portugueses de antanho deram « Mundos Novos ao Mundo», espalhando a fé e a civilização inscrevendo na história da humanidade o nome glorioso de Portugal
A 26 de Abril de 1973, foi realizada a 2ª missa na ponta do
padrão, 490 anos depois da chegada dos portugueses, estiveram presentes as
autoridades locais do distrito do Zaire –Angola, nomeadamente os descendentes
do Rei do Congo,
sobas e regedores de vários
concelhos do distrito, bem como representantes da marinha portuguesa,
autoridades administrativas e o então governador do distrito do Zaire
coronel Carlos dos Santos..
O Mito de Diogo Cão
“....Diogo
Cão, navegador português e figura histórica do Século XV, entra finalmente
na história tradicional do Soyo como personagem mítica, embora aí apareça de
uma maneira um tanto vaga, e contudo com a missão muito precisa de reiterar a
eclosão de uma nova cultura entre os basolongo, de uma nova religião e de uma
nova civilização técnica que faz surgir bens materiais de tipo novo. Ora a
maneira como o seu mito se desenvolve é a maneira clássica dos "heróis
reformadores" da mitologia savânica desta parte de África. A sua
estrutura narrativa é semelhante à de toda essa mitologia. O protagonista
surge de algures, de longe, com uma comitiva; tem encontros com os mandatários
dos soberanos locais mas não chega a encontrar o "rei" ( ou "rainha")
do Soyo. A sua entrada em cena tem aspectos espectaculares que valorizam o
personagem e que o definem como "estrangeiro". Depois percorre um
itinerário bem definido onde a via fluvial -- a principal via comercial: o rio
Zaire -- se desenha como dominante, e acaba
Uma
segunda versão diz que Diogo Cão chegou num barco à vela (Nkumbi ya Nkutuktu)
a uma praia do Soyo
Quando
o navegador perguntou o nome da terra, o pescador respondeu: "Kinzadiko"
("não sei"). E ao interrogá-lo sobre o nome do grande rio, Ndom
Lwolo respondeu: "Nzadi" ("Rio"). O visitante concluiu assim
que o rio se chamava "Zaire". Então Diogo Cão manifestou o desejo de
ser apresentado à rainha. A soberana foi informada deste acontecimento e desta
solicitação, mas lembrou-se que o seu antepassado Nezinga recebera ordens do
Tio, o Ntotila, que a impediam de, como seu suserano, estabelecer relações com
povos estrangeiros. Por isso a rainha recusou qualquer contacto com os
visitantes mas mandou-os conduzir a Mbanza Kongo....”
A
grandiosidade do rio, despertou a curiosidade dos nautas. Diogo Cão, sondou e
explorou o estuário, navegando muitas milhas para o interior. (O mapa de Soligo
releva os contornos da embocadura- estuário- do rio ,
e parte do percurso superior).
Foram
dois meses de exploração (Maio e Junho de 1483).
Por
do sol, tendo como cenário a densa e inóspita floresta equatorial africana e o
rio Zaire, também conhecido por rio Poderoso e depois rio do Padrão, por aí
ter sido chantado por Diogo Cão, em Abril de 1483, um padrão dos
descobrimentos portugueses.
Rio
Zaire ou Congo – ( da ponta do padrão às cataratas de Ielala )
Porém,
nesta acção exploratória, e velejando para o interior, os emissários
enviados ao rei do Congo foram largados, perto de Nóqui (localidade mais próxima
da M’Banza do rei).
Seguiram
depois por via terrestre até M’Banza Congo. O Manisoyo, residente em
M’Pinda, cedera a pedido do capitão, alguns guias que se dispuseram a
acompanhá-los.
Os
nautas não se detiveram no local, (Nóqui) desceram o curso do rio, e
prosseguiram viagem para Sul.
Costa
angolana para Sul da Ponta do Padrão a escassos Km da Ponta do Padrão
Trecho da costa angolana a sul
do rio Zaire ao Ambriz