COMENTÁRIOS
SOBRE O REINO DO CONGO
Quando Diogo Cão chegou à foz
do rio Zaire em Abril de 1483 e contactou pela primeira vez o mani Nsoyo, chefe
da localidade na qual aportara, o Congo era um reino forte e estruturado, cuja
chefia máxima cabia ao Mani Congo.
Formado por grupos de etnia
banto, especialmente os bakongo, abrangia grande extensão da África
Centro-Ocidental e se compunha de seis estados, que os portugueses denominavam
de províncias e que eram.
Mpemba, onde ficava encravado o território
do Congo propriamente dito, com a capital
Mbamba, que ficava a sul, confinando com
os Ambundos;
Mbata, a mais oriental
Nsundi, a nordeste, ultrapassando a
margem direita do Zaire
NSoyo (Sonyo ) ou Sonho
na tradução portuguesa da época, situada a norte de Mbamba, banhada pelo
oceano Atlântico e pelo Zaire.
Nesta ficava o porto de Mpinda, onde desembarcaram os portugueses

Todas os estados eram governadas
por parentes do rei do Congo, com excepção da província de Mbata, que gozava
do privilégio de ter um descendente dos antigos senhores da terra,
impondo-se-lhe, porém, a obrigação de casar a filha mais velha na casa real
do Congo.
O estado de Nsundi era, por
tradição, governada pelo herdeiro do rei do Congo.
O rei do Congo considerava ainda
vassalos, ou, pelo menos, amigos, alguns reinos situados na margem direita do
Zaire, como o de Ngoio ou Angoy, em o de Cacongo, estendendo-se a sua influencia
até ao reino de Luango (actual Congo Brazaville )
Para o interior destes, e
confrontando com o estado de Nsundi, ficava a Anzicana, povoada por povos antropófagos
e que ora se comportavam como amigos, ora como inimigos do Congo. A fronteira
sul que confrontava com os Ambundos, também sofria oscilações.
Algumas
delas, como as de Nsoyo, Mbata, Wandu e Nkusu, eram administradas por membros de
uma nobreza local que assumiam os cargos de chefia há gerações, sendo o
controle político mantido por uma mesma linhagem, enraizada no local.
Outras províncias eram
administradas por chefes escolhidos pelo rei dentre a nobreza que o cercava na
capital.
A unidade do reino era mantida a
partir do controle exercido pelo Mani Congo, cercado por linhagens nobres
que teciam alianças principalmente por meio do casamento, mas era também
fortalecida pelas relações comerciais e políticas entre as diversas regiões.
O centro de poder localizava-se
na capital, mbanza Kongo, de onde o rei administrava a confederação
juntamente com um grupo de nobres que formavam o conselho real, composto
provavelmente por 12 membros, divididos em grupos com diferentes atribuições:
secretários reais, colectores de impostos, oficiais militares, juízes e
empregados pessoais. A centralização político- administrativa, ao mesmo tempo
que conferia estabilidade ao sistema, ensejava intensas e frequentes disputas
pelo poder.
A formação do reino parece
datar do final do século XIV, a partir da expansão de um núcleo localizado a
noroeste de mbanza Kongo.
Os mitos de origem registrados
no século XVII referem-se à conquista do território por um grupo de
estrangeiros, chefiados por Nimi a Lukeni, que teria subjugado as aldeias da
região do Congo e imposto a sua soberania pela supremacia guerreira.
Nos séculos XVI e XVII, após o
contacto com os portugueses, o direito do rei colectar impostos e tributos
estaria ideologicamente fundamentado na conquista efectivada pelos antepassados
das linhagens governantes, o que nem sempre era aceite pacificamente.
e as comunidades de aldeia - lubata.
A tradição representava esta divisão como entre
povos que vieram de fora e os nativos, submetidos àqueles.
Os estrangeiros seriam os
membros da nobreza, os habitantes da capital, os governantes das províncias
indicados pelo rei, isto é, os que ocupavam as posições superiores do reino.
A lubata era dominada pela mbanza, que podia requisitar parte do
excedente aldeão.
Nas comunidades rurais, a apropriação do excedente era justificada pelo poder de mediação com o sobrenatural do kitomi, ou pelo privilégio do mais velho, o nkuluntu.
Como nelas a produção supria apenas as necessidades básicas, não havia um acúmulo de bens que permitisse sinais exteriores de status para os chefes.
Enquanto
nas aldeias os chefes não tinham controle sobre a produção, baseada na
estrutura familiar e na divisão sexual do trabalho, nas cidades eram os nobres
- as linhagens governantes - que controlavam a produção, fruto do trabalho
escravo no cultivo de terras controladas pela nobreza.
As diferenças básicas que
distinguiam as cidades das aldeias eram a maior concentração da população e
a administração da produção por parte da nobreza, que se apropriava de parte
do trabalho escravo.
De todo modo, as características
da escravidão existente no Congo confirmam a tipologia elaborada por João Reis
em artigo sobre a África pré- colonial.
4. No reino do Congo havia, de um
lado, a escravidão doméstica ou de linhagem, na qual o cativeiro era
resultante de sanções sociais ou mesmo da captura em guerras, integrando-se o
escravo à linhagem do senhor.
Cativeiro em que se destacavam
as escravas concubinas, que geravam filhos para o clã masculino, ao contrário
dos casamentos entre linhagens, nos quais os filhos ficavam ligados à família
da mãe (mastrilinearidade).
Mas ao lado da escravidão de linhagem, mais amena e mitigada, existia o que João Reis chamou de escravidão ampliada ou escravismo propriamente dito: um tipo de escravidão comercial ligada à produção agrícola ou à exploração de minas, a qual seria consideravelmente estimulada e desviada para o Atlântico após o contacto com os portugueses.
São Salvador, nome atribuído a
mbanza Kongo após a conversão dos reis congoleses ao cristianismo em
1491, chegou a ter cerca de 60.000 habitantes no século XVII, sendo que de
Desde
antes do contacto com os portugueses, até meados do século XVII, a capital foi
um imã que unia as diferentes linhagens nobres, e a base da solidez do Congo,
pois mesmo quando eram travadas lutas sucessórias entre as chefias, tudo se
resolvia em função da centralização política
4 - João Reis. “Notas sobre a
escravidão na África pré-colonial”. Estudos afro-asiáticos, n.14,
Rio de Janeiro, pp.5-21.
As diferentes linhagens sempre
preferiam aderir ao grupo que no momento dominasse a política da capital,
a tentar a separação.
Quando os portugueses chegaram
ao Congo, encontraram ali grandes mercados regionais, nos quais produtos específicos
a certas áreas como sal, metais, tecidos e derivados de animais eram trocados
por outros, e um sistema monetário, no qual conchas chamadas nzimbu,
colectadas na região da ilha de Luanda, serviam de unidade básica.
O estreitamento das relações
com os portugueses intensificou o comércio regional e o internacional e
aumentou a importância dos comerciantes, muitos deles não congoleses.
O
Congo não era uma nação voltada para o comércio, exercido em grande parte
pelos naturais de Loango, e posteriormente controlado pelos portugueses de São
Tomé e de Angola e pelos holandeses.
Mas
eram o comércio, principalmente de escravos, e o controle das minas, sempre aquém
das expectativas, os principais interesses dos portugueses no Congo quando ali
chegou Diogo Cão.
Conversão e canonização
D. João II enviou Diogo Cão,
no ano de 1482, numa expedição marítima que foi dar ao estuário do rio
Zaire em Abril de 1483.
Instruídos
para estabelecer contactos pacíficos e acompanhados de intérpretes
conhecedores de línguas africanas, os enviados do rei português tomaram
conhecimento da cidade real no interior do continente e para lá enviaram emissários.
Como estes demorassem a voltar,
retidos na corte congolesa pela curiosidade que despertou o que contavam, os
navios portugueses, recusando-se a esperar, zarparam sem eles, levando alguns
reféns.
Em Portugal esses foram tratados
como amigos e aprenderam um pouco dos hábitos, da religião e da língua do
reino.
Conforme o prometido, nova
expedição trouxe de volta os congoleses capturados, agora “ladinos”,
juntamente com uma embaixada e presentes para o mani Congo, retorno amplamente
festejado.
(5)
Disposto a abraçar a fé de Cristo, o mani Congo enviou, em 1488, uma embaixada
para o rei português, que foi presenteado com tecidos de palmeiras e objectos
de marfim, formalizando seu desejo de se converter ao cristianismo e pedindo o
envio de clérigos, assim como de artesãos, mestres de pedraria e carpintaria,
trabalhadores da terra, burros e pastores.
Junto com os pedidos, deixou
claro, segundo Rui de Pina, cronista que registrou o evento, seu desejo de que
doravante os dois reinos se igualassem nos costumes e na maneira de viver,
solicitando que alguns jovens, enviados com a embaixada, fossem instruídos na
fala, escrita e leitura latinas, além dos mandamentos da fé católica.
E, com efeito, durante todo ano de 1489 e1490 os enviados do rei do Congo permaneceram em Portugal, aprendendo o português, os mandamentos da fé católica e os costumes da sociedade portuguesa.
Em 19 de Dezembro de 1490, nova
expedição foi enviada ao Congo, a qual, em 29 de Março de 1491, chegou à foz
do rio Zaire, por eles chamado de rio do Padrão por lá ter sido colocado um
padrão indicador de que o rei de Portugal havia sido o descobridor daquelas
terras, em nome do seu reino e de Cristo.
5 - Rui de Pina. “Relação do Reino do Congo”. In: Radulet, Carmem. O cronista Rui de Pina e a Relação do Reino do Congo. Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1992, p.101
A província de Nsoyo (Sonho ou
Sono nos relatos portugueses), na qual se encontrava a foz do rio Zaire, era
governada por um irmão da mãe do rei do Congo, o mais respeitado dentre os
chefes provinciais.
Ao receber os portugueses em
M’Pinda, o chefe local mandou que todos viessem recepcionar os enviados do rei
de Portugal.
Rui de Pina deixou-nos um detalhado relato desses primeiros contactos entre portugueses e congoleses, aludindo aos festejos e reverências com que foram recebidos os portugueses e à pompa do mani Nsoyo, que veio trazendo carapuça na cabeça com uma serpente “mui bem lavrada d’agulha”.
Regista o cronista - e isto se
reveste de máxima importância -, que as “mulheres dos fidalgos” locais se
fartaram de saudar os estrangeiros, dizendo que seus maridos haviam de fazer o
melhor de si para o serviço del Rei de Portugal, “a que eles chamavam Zampem-Apongo,
que entr’eles quer dizer Senhor do Mundo.
6. Ao olhos dos congoleses, o rei
português passava, pois, a ser assimilado a Zambem-apongo, divindade
suprema dos povos banto, senhor que reinava no mundo dos mortos, pois, vale
dizer, a festa era também para João da Silva (Caçuta), congolês baptizado e
embaixador do rei do Congo morto na viagem de regresso
Senhor do Mundo, porque senhor
dos mortos, o Zambem-apongo dos congoleses foi entendido pelos
observadores portugueses como sendo o rei de Portugal, D.João II
especificamente.
Doravante, e por muito tempo,
portugueses e congoleses passariam a traduzir noções alheias para sua própria
cultura a partir de analogias que permitiam supor estarem tratando das mesmas
coisas quando na verdade sistemas culturais distintos permaneciam
fundamentalmente inalterados.
Depois da
confraternização, o chefe congolês, provavelmente associando as coisas
extraordinárias trazidas pelos lusitanos à sua linguagem cultural, pediu para
ser batizado sem mais demora.
Assim
foi erigida uma igreja de madeira, devidamente paramentada com os objectos
trazidos de Portugal para nela realizar o baptismo do mani Nsoyo.
Conta-nos Rui de Pina que,
apesar de outros nobres expressarem o desejo de serem batizados, o mani Nsoyo só
permitiu que ele e seu filho mais velho o fossem antes do rei do Congo, primazia
que sua destacada posição permitia, não permitindo aos “fidalgos de sua
Casa” que sequer entrassem na igreja.
No dia 3 de Abril, dia de Páscoa,
o mani Nsoyo recebeu o nome de baptismo de Manuel, tal qual o irmão da rainha
de Portugal, duque de Beja e ao seu filho chamou-se de D. António, inaugurando
um padrão analógico que regeria os primeiros tempos das relações entre os
dois povos.
Nessa
altura, a narrativa de Rui de Pina deixa bastante clara a relação
imediatamente percebida pelos congoleses entre fé e poder.
O baptismo foi reservado aos
maiores do reino, numa certa ordem de hierarquias. Principalmente não podia ser
usufruído antes de que o rei o recebesse, fato percebido pelo mani Nsoyo que
respondeu negativamente aos nobres que pediram para também serem batizados,
justificando o seu próprio baptismo antes do Mani Congo por ser tio do rei e
mais velho que ele.
Após a cerimónia do baptismo,
seguiram-se festejos, os padres acompanharam o mani Nsoyo até
sua casa em procissão com cruz erguida, discursaram contra as idolatrias
e superstições e Manuel mandou que todos os ídolos e templos fossem destruídos.
6 - Idem , p.140.
Rezas e missas sucederam-se
antes que seguisse a expedição para a capital real, dispondo de 200 homens
cedidos por Manuel para carregarem os presentes e carga, além dos que levavam
os mantimentos e garantiam a segurança.
Demorariam 23 dias para chegar
à corte, sendo recepcionados no caminho pelos chefes locais.
Ao se aproximar de mbanza Congo,
dia 29 de Abril, a expedição foi recebida por um membro da família real que
levou presentes para o embaixador.
O cronista descreve a recepção
da embaixada lusitana pelo rei congolês, usando terminologia familiar aos
europeus e que pareciam aos observadores aplicáveis à realidade com que se
deparavam pela primeira vez.
Assim, o Mani Congo e os chefes
que o cercavam foram imediatamente identificados como o rei e sua corte; os
nobres congoleses associados aos fidalgos portugueses e os cargos
administrativos e honoríficos foram chamados pelos equivalentes europeus.
Conforme as descrições do
evento, o Rei ordenou que todos os fidalgos e toda a sua Corte saíssem com
arcos, lanças, trombas, tímbales e muitos outros instrumentos que eles usavam,
e quando os cristãos chegaram à capital, foram recebidos com grandes estrondos
e logo hospedados em umas “casas grandes honradas e novas” providas em tudo
do que por eles cumpria.
E chegaram ante El- Rei “que
estava em um terreiro de seus paços”, acompanhado de grande multidão e posto
em um estrado rico ao seu modo, nu da cinta para cima, com uma carapuça de pano
de palma lavrada e muito alta, posta na cabeça, ao ombro um rabo de cavalo
guarnecido de prata, da cinta para baixo coberto com uns panos de damasco
presenteados por El-Rei de Portugal e no braço esquerdo um bracelete de marfim.
7.Enquanto isso as pessoas
festejavam, levantando as mãos em direcção ao mar e gritando em louvor a deus
e ao rei lusitano, ou pelo menos assim o entenderam aqueles que deixaram o
registo do dia.
Foram iniciados os trabalhos de
construção de uma igreja, que seria consagrada à Virgem Maria e demoraria um
ano para ser levantada. Enquanto isso os clérigos iam falar ao rei sobre as
“maravilhosas obras de Deus, para que, com sua agradável conversação, o
conduzissem ainda mais à fé de Cristo”.
8. Este não mais quis esperar pelas
maravilhas
do baptismo e pediu para ser batizado imediatamente, no que foi atendido.
Preparou-se um cômodo, de uma casa escolhida, ergueram-se altares, acenderam -
se tochas e velas, prepararam-se bacias cheias d’água, e aí o mani Congo foi
batizado, tomando o nome do rei de Portugal e os outros fidalgos, nomes de
fidalgos da “Casa d’El-Rei de Portugal”, seguindo na linha analógica
predominante desde o começo das relações entre os dois povos.
O embaixador português foi,
enfim, fartamente presenteado e deixou no Congo quatro clérigos, os ornamentos
da igreja usados nos cultos e “um negro que conhecia as duas línguas e que,
igualmente, era experimentado nas letras de uma e da outra língua, negro que
começou a ensinar a muitos fidalgos e a seus filhos e a muitos homens honrados
e virtuosos”
9.Idealmente a igreja deveria servir
de posto avançado no percurso da expansão portuguesa. O retorno da expedição
lusitana seguiu com uma embaixada do mani Congo
agradecendo os presentes e favores recebidos, comunicando seu baptismo e intenção
de multiplicar os conversos (para o que pedia mais padres), oferecendo-se como súdito
em troca do apoio militar recebido e finalmente expressando sua intenção de
enviar um embaixador directamente a Roma, a modo de prestar obediência ao chefe
maior da Igreja, mas deixando claro que devia a sua fé à acção do rei de
Portugal.
7 - Idem, p.145.
8 - Idem, p.121.
9 - Idem, p.129.
E, com efeito, entrevendo boas
possibilidades de comércio com o reino do Congo e da expansão do catolicismo -
as duas faces inseparáveis da expansão ultramarina lusitana-, Portugal iniciou
então uma intensa relação comercial com o reino do Mani Congo capitaneada
pela difusão da fé cristã.
Morto D.João I do Congo, e após
uma luta sucessória e fratricida na qual não faltaram tentativas, da parte de
algumas facções nobres, em remover o cristianismo de que haviam sido excluídos,
ascendeu ao trono D. Afonso I, o mais importante rei da história luso-congolesa,
chefe político e espiritual da catolização do reino do Congo. Isto porque, na
verdade, seu pai, D.João I, não obstante convertido, logo abandonaria o
cristianismo, pressionado por sectores da nobreza que não aceitavam a nova
religião.
Para
eles, ela não se mostrou eficaz contra os infortúnios que então assolavam o
reino. Além disso, o rei e os nobres resistiam a aceitar a monogamia imposta
pelos padres, um dos temas mais polémicos na aceitação da nova religião, uma
vez que a extensão da rede de solidariedades tecida pelos casamentos era peça
fundamental nas relações de poder tradicionais.
Com a morte de João I e a
deflagração da luta sucessória, subiu ao trono um outro filho seu que não
seguia os preceitos do cristianismo, apoiado pelos nobres defensores das tradições
congolesas.
Mas
Afonso conquistou o trono depois de lutas com seu irmão e reinou por trinta e
sete anos, de
10. Seu filho Henrique chegou a ser
consagrado bispo (1518- 1531), o que não foi visto com bons olhos pelo clero e
pela coroa portuguesa, pois dessa forma diminuía o controle exercido pelo
Estado por meio do monopólio da religião.
Antes de tudo, D. Afonso
promoveu um autêntico “aportuguesamento” das instituições políticas do
reino, em consonância com D. Manuel, rei de Portugal, que a isto o estimulou.
Assim, a justiça do Estado
passou a se guiar pela normas portuguesas, a partir da embaixada de Simão da
Silva, portador do Regimento de 1512, e os antigos chefes de linhagem das províncias
passaram a intitular-se de condes, marqueses, duques.
Trata-se de matéria riquíssima
que não temos condições de desenvolver aqui, mas vale o registo de que, sob a
inspiração política e institucional portuguesa, o Estado congolês foi
perdendo as características tradicionais de confederação ou chefatura
pluritribal para assumir, ainda que no plano das instituições e da etiqueta
política, aspectos da monarquia ocidental, centralizando-se mais nitidamente -
traço que sobreviveria ao reinado de Afonso I, perdurando até o século XVIII,
não obstante as dilacerantes crises políticas que o reino atravessou no século
XVII
10 - John Thornton.
“The Development of an African Catholic Church in the
Journal of
African History, n.25, 1984, p.155.
Por outro lado, Afonso I recebeu grande ajuda dos portugueses para incrementar o comércio de cobre extraído em regiões ao norte do Congo que, trazido para a capital , tornou-se um meio valioso com o qual o rei podia adquirir mercadorias européias.
Essas importações e o incremento no comércio, ao aumentar a riqueza do rei, permitiram assegurar a lealdade de nobres importantes, construindo a base de um longo e memorável reinado.
Também o comércio de escravos com os portugueses, em fase inicial de implantação, tornou-se monopólio real com redes de comércio que chegavam a São Tomé, o centro de todo tráfico da África ocidental, e até mesmo ao Benin.
11.Quando
o comércio de pessoas fugiu do controle do rei, com mercadores desrespeitando
as rotas estabelecidas
e o monopólio real, Afonso I escreveu ao rei português reclamando que até
mesmo nobres congoleses estavam sendo capturados em guerras interprovinciais
para serem vendidos como escravos.
O
comércio de escravos era antigo naquela região, mas as regras tradicionais
estavam sendo violadas. Não apenas prisioneiros de guerra ou pessoas
endividadas estavam sendo negociadas, mas as rotas tradicionais, controladas
pelos chefes locais, estavam sendo ignoradas em prol de novos caminhos que
burlavam o controle real.
Tudo
isso ameaçava o poder real com a evasão de tributos que lhe seriam devidos
pelos privilégios tradicionais e o enriquecimento de chefes e comerciantes
abalava as bases de seu poder.
Somando-se
a isso, a região do N’dongo (futura Angola), começava a atrair o interesse
dos comerciantes portugueses que buscavam justamente fugir aos monopólios
existentes no Congo, concorrendo com o tráfico de escravos controlado pelo rei
congolês e pelos comerciantes autorizados pelo rei lusitano.
De
todo modo, quando os portugueses chegaram à foz do Zaire, o Congo, assim como
outros reinos da região, estava em processo de franca expansão, como os
registos de guerras frequentes atestam.
A
escravização das populações conquistadas permitia aos reis ampliar sua
riqueza pessoal assim como fortalecer exércitos e o corpo administrativo
composto por dependentes directos, além de
aumentar o volume de tributos recebidos dos territórios ocupados. Assim,
a expansão permitia o acúmulo de riqueza e um reforço da centralização política.
Quando
os portugueses chegaram àquela parte da África, portanto, não só encontraram
uma grande população cativa, como as condições necessárias para sustentar
um amplo mercado de escravos, no qual havia espaço para os estrangeiros recém-chegados.
No
caso congolês, o próprio processo de centralização e fortalecimento das
cidades frente às aldeias estava baseado na crescente existência de escravos,
concentrados principalmente
Não
só no Congo, mas em vários estados da África centro - ocidental os escravos
eram resultado das guerras de expansão, sendo fundamentais na centralização e
reforço das lealdades.
11
- Wyatt MacGaffey. “Dialogues of the deaf: europeans on the Atlantic coast of
Schwartz,
(org). Implicit Understandings.
Mann.
Kongo, Ndongo, West
12.
Afonso I reinou nesse período, e apesar dos problemas que seu reinado enfrentou,
expandiu as fronteiras do reino, fortaleceu a centralização do poder real,
desenvolveu a capital, disseminou o cristianismo e a educação formal,
valorizando sobremodo a leitura e a escrita. Não seria exagero ver em seu
reinado, sobretudo do ponto de vista religioso e político-institucional, o
processo que Serge Gruzinski chamou de ocidentalização, estudando o México na
mesma época.
13.
Lembrado até hoje como o mais poderoso rei da história do Congo, Afonso I,
esse defensor implacável da fé cristã, assemelha-se em muitos aspectos ao
ideal de rei missionário e cruzado, rei que combate os infiéis com a ajuda de
forças divinas, amplia e consolida as fronteiras da cristandade.
As
bases do catolicismo congolês fincaram raízes profundas no seu reinado, que se
prolongou até quase meados do século XVI.
Catolicismo
que, não obstante, foi incapaz de remover por completo as tradições
religiosas locais, do que resultou um complexo religioso original, híbrido, a
um só tempo católico e banto.
Crise
congolesa: Mbwila e a fragmentação política
14.As
relações luso-congolesas estabelecidas no reinado de Afonso I entraram em
lento mas progressivo colapso a partir da segunda metade do século XVI e,
sobretudo no século XVII, após a morte de Álvaro II, em 1614.
Na
verdade, não obstante a retórica da Coroa portuguesa de que o rei do Congo não
era vassalo de Portugal, senão um “irmão em armas de seus reis”, como dele
disse D.João IV, o fato é que Portugal sempre viu no Congo uma possibilidade
de expandir a fé católica e garantir o tráfico de escravos em partes d’África.
Portugal
atendeu muito pouco às reivindicações dos monarcas congoleses, como se
percebe na correspondência entre as duas Coroas no período, e acabaria
deslocando seus interesses no tráfico para Angola.
A
deterioração das relações luso-congolesas só fez crescer no século XVII, a
ponto de, no reinado de Garcia Afonso II (1641-1663), o Congo ter se aproximado
dos holandeses, que haviam tomado Luanda anos antes.
Garcia
II desenvolveu, na verdade, uma política ambígua, cortejando e deixando-se
cortejar pelos batavos, porém, recusando a pressão holandesa para abandonar o
catolicismo romano. Desatendeu, por outro lado, as exigências do padroado da
Coroa Portuguesa, admitindo no reino capuchinhos italianos e espanhóis, embora
tenha ratificado um tratado que garantia importantes concessões territoriais a
Portugal na vizinha Angola.
12
- John Thornton. Africa and Africans in the Making of the Atlantic World,
1400-1680,
13
- Serge Gruzinski, . La colonisation de l’imaginaire - l’
occidentalisation dans le Méxique. Paris,Gallimard,
1988.
14
- Charles Boxer. Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola. São
Paulo, Companhia Editora Nacional,1973, pp.287 e segs.
Apesar
das cautelas de parte a parte, Congo e Portugal seguiriam doravante caminhos
distintos, quando não opostos, até o frontal embate de 1665.
Referimo-nos
à batalha de Mbwila (Ambuíla), quando os congoleses foram derrotados pelos
portugueses, seguindo-se um período de guerras internas ligadas à sucessão
real.
Portugueses
e congoleses enfrentaram-se em Mbwila em relativa igualdade numérica, mas,
enquanto o exército congolês era formado principalmente por camponeses
recrutados, o exército português era composto em sua maioria por guerreiros
imbangalas (jagas), povo criado na tradição guerreira.
A
guerra ocorreu em torno a uma disputa sucessória em Mbwila, importante região
do N'dembo, estando os portugueses interessados em controlar o território que
seria passagem para as cobiçadas minas de ouro e prata.
Na
batalha morreram milhares de congoleses, muitíssimos nobres e o rei António I
teve sua cabeça cortada e enterrada em Luanda, enquanto sua coroa e seu cetro,
emblemas reais, foram remetidos a Lisboa à guisa de trofeus.
Junto
com o rei, haviam morrido os principais candidatos ao trono, abrindo-se então
um complicado processo sucessório que fortaleceu a posição de Nsoyo.
Depois
da batalha, São Salvador (mbanza Congo) foi à ruína com as linhagens nobres
fugindo das guerras sucessórias para outras províncias.
De
todo modo, a maioria dos autores que se detiveram na história congolesa deste
período atribuem a desestruturação do reino a causas externas, localizando no
aumento do número de escravos traficados, na intensificação das guerras
regionais e na alteração do equilíbrio entre os poderes tradicionais os
principais motivos das guerras civis que assolaram o Congo até o início do século
XVIII.
John
Thornton é de opinião diferente, desvendando os mecanismos internos que
levaram às guerras civis e ao longo período de lutas sucessórias após a
derrota de Mbwila.
Com
o enriquecimento das linhagens governantes do Nsoyo, não só devido ao grande
aumento do comércio que passava por M’Pinda, seu porto, mas principalmente
com o aumento da riqueza produzida na cidade devido à concentração de
escravos e tributos, surgiu uma alternativa de aliança entre as linhagens em
disputa, que não dependiam mais apenas da linhagem então reinante.
No
seu entender, o poder centralizado do Congo foi destruído pelas rivalidades
entre Nsoyo e São Salvador - agudizadas no “período holandês” - , pela
derrota em Mbwila e pelas lutas entre as linhagens nobres.
Depois
de Mbwila, toda a nobreza transferiu-se para as províncias, que se tornaram
mais autónomas e passaram a escolher seus administradores, independentemente do
poder central, pelo qual, no entanto, a disputa era constante.
Cada
chefe local cercou-se de um grupo de auxiliares, reproduzindo nas províncias a
estrutura da corte real e escolhendo seu sucessor. As rivalidades entre as
linhagens provocaram guerras permanentes que empobreceram a população em
consequência de recrutamentos forçados, destruição de plantações e
escravização dos derrotados, vendidos para os comerciantes de Luanda ou para a
Loango dos mercadores.
Nsoyo,
a mais forte província, cuja capital teve a população dobrada entre 1645 e
1700, quando contava com cerca de 30.000 habitantes, desenvolveu-se muito nesse
período, beneficiando-se dos escravos trazidos de São Salvador, em ruínas.
A
intenção de Nsoyo era manter um rei fantoche no poder, servindo aos interesses
da nobreza local, e, para tal, apoiava algum pretendente ao trono o suficiente
para lá colocá-lo, mas não o suficiente para que se fortalecesse no cargo.
No
entanto, a crise política, qualificada por alguns como verdadeira “anarquia”,
tomou conta do reino congolês. Entre 1665 e 1694, houve nada menos do que 14
pretendentes à coroa do reino, alguns com sucesso, outros nem tanto, e muitos
deles assassinados.
No
final dos seiscentos, o Congo possuía três reis, sendo D. Pedro IV o mais
poderoso deles, aparentemente, e talvez o único capaz de levar adiante um
projecto de reunificação congolês.
Kimpa
Vita e a ressurreição imaginária
Foi
neste contexto de crise e fragmentação que irrompeu o antonianismo, movimento
que, seja em termos religiosos ou políticos, fornece-nos importantes pistas
para compreender as complexas relações entre catolicismo e monarquia na África
banto.
A
fundadora da “seita” foi a jovem aristocrata Kimpa Vita, nascida de família
nobre congolesa na década de 1680, batizada Dona Beatriz, mulher que fora
sacerdotisa do culto de Marinda (nganga marinda), embora educada no
catolicismo.
Kimpa
Vita contava entre 18 e 20 anos quando, cerca de 1702-1703, acometida de forte
doença, disse ter falecido e depois ressuscitado como Santo António. E seria
como Santo António que Kimpa Vita pregaria às multidões do reino - daí o
movimento ter ficado conhecido como antonianismo -, seguindo o rastro de
outras várias profetisas que lhe precederam na mesma tarefa, como a Matuta,
em meio à crise que assolava o reino.
A
pregação de Kimpa Vita possuía forte conotação política. Preconizava o
retorno da capital a São Salvador e a reunificação do reino, chegando mesmo a
envolver-se nas lutas facciosas da época. Melhor exemplo disso ocorreu quando
de sua chegada a São Salvador, onde encontrou Pedro Constantino da Silva, nobre
militar enviado por D. Pedro IV, a quem proclamou “Rei do Congo” em troca de
sua adesão ao antonianismo.
Assegurou-se
ainda, por meio de vários acordos, da aliança de famílias nobres adversárias
de D. Pedro, a exemplo dos grupos de Kimpanzu, especialmente da família Nóbrega,
enraizada no sul da província de Nsoyo.
As
alianças estabelecidas por Kimpa Vita, metamorfoseada
15.Com
efeito, o movimento anotarão confirma, antes de tudo, o êxito do processo de
canonização do Congo inaugurado no
século XV e cristalizado sob o reinado de Afonso I na primeira metade do século
XVI.
O
Deus dos antonianos era, sem dúvida, o Deus cristão, o Deus dos missionários,
com o qual Kimpa Vita dizia jantar todas as sextas-feiras, após “morrer”,
para “ressuscitar” no dia seguinte.
Santo
Antônio, por outro lado, santo mui valorizado na missionação realizada no
Congo, era a persona assumida pela profetisa, por ela chamado de
“segundo Deus”.
Africanizando
o catolicismo, “a Santo Antônio congolesa” dizia que Cristo nascera
15
- Charles Boxer. A Igreja e a expansão ibérica. Lisboa, Edições 70,
1981, p.132.
Nazareth.
Afirmava
ainda que a Virgem Santíssima era negra, filha de uma escrava ou criada do
Marquês de Nzimba Npanghi e que São Francisco pertencia ao clã do Marquês de
Vunda.
O
catolicismo do movimento antoniano era, portanto, muitíssimo original,
implicando uma leitura banto ou bakongo da mensagem cristã. Modelava-se, em vários
aspectos, na acção pedagógica dos missionários, mas condenava o clero
oficial, sobretudo os missionários estrangeiros, aos quais acusava de
“haverem monopolizado a revelação e o segredo das riquezas para exclusiva
vantagem dos brancos” em prejuízo dos “santos negros”.
Rejeitou,
igualmente, boa parte dos sacramentos católicos: o baptismo, a confissão, o
matrimônio, ao menos no tocante à liturgia e aos significados oficiais,
abrindo caminho, no caso do matrimônio, para a restauração legitimada da
poligamia.
Adaptou,
ainda, certas orações católicas, a exemplo da Ave -Maria e sobretudo do Salve
Rainha. Proibiu, ainda, a veneração da cruz, esse grande nkisi católico-bakongo,
em razão de ter ela sido o instrumento da morte de Cristo.
Kimpa
Vita prometia a todos os que aderissem à sua pregação uma próxima “idade
de ouro”, e não apenas no sentido figurado, pois dizia que as raízes das árvores
derrubadas converter-se-iam em ouro e prata e que das ruínas das cidades
surgiriam minas de pedras preciosas.
Prometia,
ainda, tornar fecundas as mulheres estéreis e outras mil bem-aventuranças,
granjeando imenso apoio popular. Não se escusava, porém, de ameaçar os
reticentes com as piores penas, incluindo a de
transformá-los em animais.
Organizou
para tanto uma verdadeira igreja antoniana, um clero, onde pontificavam outros
santos, como São João, e uma plêiade de sacerdotes denominada de “os
antoninhos” que saíam a pregar a excelência da nova igreja e o poder taumatúrgico
e apostólico “da Santo Antônio” que a chefiava.
Kimpa Vita despertou obviamente a ira dos
missionários capuchinhos e das facções nobres adversárias do antonianismo e
postulantes do poder real.
O próprio D.Pedro IV, de início
cauteloso e hesitante em reprimir o movimento, terminou por ceder às pressões
dos capuchinhos italianos, ordenando a prisão da profetisa e de São João,
“o anjo da guarda” da profetisa que os frades diziam ser seu amante.
O estopim ou pretexto que levou à prisão
de Kimpa Vita teria sido a acusação de que tinha um filho recém-nascido, cujo
choro teria sido ouvido enquanto ela o amamentava em segredo, do que resultara o
seu desmascaramento como “falso Santo Antônio”.
Kimpa Vita foi presa, arguida pelo capuchinho
Bernardo Gallo16 e condenada a morrer na fogueira como herege do
catolicismo. A sentença foi executada
em 1708 e na fogueira arderam Kimpa Vita e seu “anjo da guarda” – o Santo
Antônio e o São João do catolicismo congolês
UM
IMPORTANTE ESTADO AFRICANO FEUDAL...
O Reino do Congo era um verdadeiro Estado feudal, englobando a actual República
do Congo - Brazzavile (ex-Congo francês), o Baixo-Congo até Kinshasa, capital
da actual República Democrática do Congo (ex-Congo belga, ex-República do
Zaire...), e uma parte do norte de Angola.
Uma
lenda a desfazer é a de que esse reino banto teria sido sempre hostil aos
europeus, o que contraria a verdade histórica.
Os
reis negros, longe de se entregarem a um nacionalismo xenófobo, desde os
primeiros contactos, em sua maioria, multiplicaram suas atenções quanto ao
relacionamento com os "brancos".
Pediram
missionários, mestres de ofícios, mercadores, enviaram embaixadas a Portugal e
ao Vaticano, mau grado as dificuldades de comunicações marítimas, solicitando
intercâmbio.
O
Rio Zaire ou Congo - "Rio Poderoso" - ou simplesmente "RIO"
(ZAIRE) impressionaria profundamente os seus descobridores, comandados por Diogo
Cão.
Aquela
torrente de água doce a penetrar, por alguns quilômetros, pelo mar dentro, era
suficiente testemunho de sua extraordinária pujança e importância.
Os
Portugueses não conheciam coisa que se assemelhasse a isso, seu Tejo pátrio
ficava muito áquem da majestade africana do "Zaire".
Rumores
corriam, conforme uma velha tradição européia, de que devia existir um meio
de comunicação com o lendário Reino do Preste-João (,afinal, este viria a
revelar-se na Etiópia com seu cristianismo copta, mais tarde). Seria por ali o
caminho?
DIOGO CÃO CHEGA AO REINO DO CONGO...INICIO DA ACULTURAÇÃO LUSÓFONA - O PADRÃO DE SÃO JORGE...
1485-
O audacioso navegador português Diogo Cão encontrou no Reino do Congo, um país
política e administrativamente bem estruturado, dividido em províncias,
confiadas a sobas vassalos, próspero e totalmente independente.
Diogo implantou o Padrão de S.Jorge (Abril de 1483) situando-o na margem
esquerda do citado grande curso fluvial. Por contactos estabelecidos com os íncolas
ribeirinhos, souberam os Portugueses da existência, no interior, dum poderoso
rei. Aquele capitão Português enviou ao potentado Negro mensageiros e
presentes. Mas não se deteve no local, prosseguiu viagem para sul.
Só
decorridas 15 luas arribou novamente ao Congo, trazendo consigo 4 Negros que
havia pêgo à chegada, os quais enviou ao rei, vestidos já à portuguesa, bem
alimentados, falando a língua portuguesa.
Foram
esses os primeiros embaixadores da civilização lusitana.
Ficou o monarca encantado, ao ouvir da boca dos seus súbditos já meio
ocidentalizados notícias precisas a respeito dos estrangeiros. E assim se
encetaram amistosas relações entre portugueses e congueses....
Foi
em 1575, quase um século depois de ter Diogo Cão assinalado com os seus padrões
toda a costa de Angola (1482 - 1486), do Zaire a Cabo Negro, que Paulo Dias de
Novais, Primeiro Governador e Capitão-Mor das conquistas do Reino de Angola
desembarcou na Ilha de Luanda, aqui fronteira, com cerca de 700 homens, 350 dos
quais homens de armas, padres, mercadores e servidores, estabelecendo o
primeiro
núcleo de portugueses, aqui entrou, além de alguns portugueses, muita gente
que nela vivia, toda, no dizer dos cronistas, «muito bem disposta ao
cristianismo».
Um
ano depois, reconhecendo não ser «o lugar acomodado para a capital da
conquistas», funda em terra firme a vila de S. Paulo de Loanda, e logo a igreja
de S. Sebastião, no morro de S. Miguel, (Museu das Forças Armadas).
A
sua volta foi crescendo a Vila e irradiando depois, tomou foros de cidade, em
1605, no governo de Manuel Cerveira Pereira.
Entretanto,
estenderam-se as conquistas ao interior de Luanda e fundaram-se os presídios de
Massangano (1583), Muxima (1599) e Cambambe (1604), de que restos ainda hoje se
encontram ao longo do rio Kwanza.
A
Câmara de Luanda deve ter inicio ao estabelecer-se em terra firme a Vila. Não
há documentos precisos da sua fundação; mas sabe-se que Paulo Dias de Novais
logo «criou os cargos e ofícios necessários ao governo da nova Colónia»; em
algumas descrições se assinala a sua presença em actos solenes, desde 1595 e
em 1611 é já a Câmara que, com o Bispo e Nobreza, elege o novo governador
Bento Banha Cardoso, por morte repentina do antecessor.
Por
várias vezes teve o Senado da Câmara intervenção directa na governação da
colónia, de
Depois
desta época, passam os Ouvidores a presidir ao Senado da Câmara; é criado
também o lugar de «Mestre de Campo» para substituir os governadores, e não
volta, senão acidentalmente, e por poucos dias desempenhar tão altas funções,
(1732).
No
entanto, a colaboração que sempre dispensou aos governadores, quer em auxílios
materiais quer morais, fazem salientar, como já foi publicado, a sua «útil e
leal acção» na defesa da colónia e a favor da colonização, se atentarmos
sobre tudo no contraste do procedimento de outras «câmaras ultramarinas»
nessas épocas, e de que as descrições de Lopes de Lima nos dão conta.
As
primeiras perturbações causadas pelas investidas holandesas tem lugar em 1624;
Em
1633 armam-se em Luanda 5 navios de guerra para combater as suas naus que na
costa de Benguela ameaçavam o comércio.
O
sossego não volta até ao aparecimento, na baía, da Grande Armada, do comando
do Almirante Pedro Houtebeen, no dia 24 de Agosto de 1641 em que os portugueses,
o governo, alarmados, abandonaram precipitadamente a cidade a caminho do Bengo,
para se acolherem ao presidio e vila de Massangano.
Seguem-se
sete anos em que os portugueses em Angola, escreveram as mais dolorosas páginas
da sua história.
Salvador
Correia de Sá e Benevides, que ao serviço de Portugal vinha no Brasil
governando, depois de feitos militantes, em terra e mar, é encarregado pelo rei
D. João IV, ao regressar de uma das viagens comerciais que, por sua determinação,
comboiava e protegia da restauração de Angola, caída em poder dos holandeses.
Acompanhado
de 1.200 homens de armas e de uma frota de 12 navios, se faz ao mar em 12 de
Maio de 1648, fundeando em 12 de Agosto na baia de Quicombo.
A
inclemência do mar fez perder a nau Almirante e os 300 homens que continha,
levantando-se (Cardonega) «uma tormenta de marés tão fortes, coisa não vista
de
outros navegantes naquela paragem».
Mas,
mesmo sem ela e sem esses homens, Salvador Correia de Sá chega à baía de
Luanda, ante o pasmo da gente holandesa, que convencida pensa tratar-se apenas
de simples guarda avançada de grande esquadra.
Apressadamente
se refugiam os de terra na Fortaleza de S. Miguel (Museu das Forças Armadas).
Mas
o desembarque faz-se na manhã seguinte, 15 de Agosto, e em assalto bem
conduzido, rendem-se os holandeses dominados por menos de metade de homens
portugueses.
Por
alvarás régios de 28 de Setembro e 9 de Dezembro de 1662, aos oficiais da Câmara
da cidade de Luanda e seus moradores foram concedidos os mesmos privilégios dos
cidadãos da cidade do Porto, em consideração aos serviços
prestados
à Restauração de Angola.
O
seu brasão de armas fica para sempre registado nos arquivos da Torre do Tombo,
entre os das cidades e vilas portuguesas.
Como
que um novo período começa; pretende-se apagar da memória o pesadelo do
condomínio; a cidade muda o seu nome passando a ser S. Paulo de Assunção de
Luanda, por ser aquele o dia da Assunção da Virgem que no seu brasão passa a
figurar, (15 de Agosto).
Antes
da invasão holandesa e segundo a descrição de Dapper e a
sua gravura que acompanha a edição francesa da sua Obra (1686), na
cidade existiam já as fortalezas de S. Miguel ( 1638 ), no mesmo local em que
hoje se encontra, do Penedo, Santa Cruz e algumas outras desaparecidas, várias
igrejas (seis),
conventos
dos Jesuitas, dos Terceiros Franciscanos, Hopistal da Misericórdia e casario
diverso principalmente na baixa da cidade.
Mas
a cidade, depois de reconquistada, teve de ser construída de novo ( Cardonega
), restauradas as casas dos habitantes sem tectos, sem portas, as igrejas
desbaratadas, mostrando por toda parte a ruína; concederam-se «chãos de
sesmaria» aos moradores para novas casas e arimos (Lopes de Lima).
Entre
as construções mais notáveis do fim do mesmo século, existem, ainda muito
bem conservadas, a ermida de Nossa Senhora da Nazaré, que o governador André
Vidal de Negreiros iniciou em 1664, aproveitando-se para comemorar a batalha do
Ambuila (1665), dos mais repugnantes feitos de armas da história de Angola e
reproduzido num quadro de azulejos da época, na capela-mor, a igreja do Carmo e
a Cerca, restos do Convento das Carmelitas (1663), com (belos azulejos também),
e ainda a fortaleza de S. Miguel (Museu das Forças Armadas) completada na época,
com recinto fechado, de terra batida e alvenaria.
São
do século XVIII o acabamento da fortaleza de S. Pedro da Barra, de S.
Francisco, no antigo lugar forte do Penedo, e de outras obras de vulto como o
Quartel de
Infantaria (1754), agora demolido, o Palácio do Governo (1761) o Terreiro Público
(1765), a Alfândega (1770), passeio Público da Nazaré (1771).
Pouca
era, porém a casaria da cidade ainda nos meados do século XIX, que só então
começa a desenvolver-se rapidamente. Das construções mais importantes desse
período são o mercado da Quitanda (1818), o primeiro cemitério (1806) e, já
no fim do século, o hospital de D. Maria Pia, notável ainda hoje pelo seu
plano e grandeza e que as obras de vulto dos últimos anos melhoraram
consideravelmente.
A
análise sucinta da evolução geral urbana em Angola, permite-nos observar um
grande número de factos, testemunhado a aplicação de critérios urbanísticos,
consentâneos as épocas económicas ou políticas.
As
características da urbanização de Luanda tomam aspectos diferentes, conforme
a civilização e os conhecimentos de cada época.
Até
meados do século XVIII a urbanização é subordinada à razões de ordem política,
económica-geográfica.
A
seguir esta época aperfeiçoam-se as práticas, urbanísticas, em resultado da
expansão colonial. Entram em função outros factores urbanos, com o saneamento
e a estética, melhoram-se os meios defensivos coloniais e o abastecimento e
distribuição de alimentos.
Depois
do segundo quartel do século XIX, a urbanização de Luanda avança mais um
grande passo.
No
meio deste século, o progresso urbano, orientado pela técnica moderna
não tem paralelo.
Os
primeiros missionários nessas áreas foram os navegadores e mercadores ainda
ligados à idéia das Cruzadas. Não raro esses navegadores utilizaram-se do
recurso de levar nativos para Portugal para prestarem informações e serem
catequizados.
De
volta às suas terras, esses homens podiam servir como intérpretes, auxiliando
os portugueses na sua empresa. Mas, para J. F. Marques, também, só muito
escassamente foi bem-sucedida a evangelização na Guiné, Senegal e Benim, por
causa da influência mulçumana.
Só
a partir das duas últimas décadas do século XV a cristianização da África
negra conheceu medidas e resultados consistentes. Com D. João II e D. Manuel I,
o esforço apostólico da Coroa portuguesa passou dos actos isolados à adopção
de uma política assentada, em traços gerais, na conversão dos reis gentios e
na formação de um clero nativo (Riley, 1998:162).
Assim,
ao lado das feitorias e dos interesses mercantis, seguiram a construção de
igrejas e capelas e a educação na fé católica de crianças e jovens,
transformando-os, posteriormente, em missionários em suas terras de origem. No
Senegal, chegou-se a construir o convento de S. Vicente do Cabo, destinado à
formação de clero negro.
A
terceira zona identificada por J. F. Marques abrangia o reino do Congo e a ponta
meridional costeira da África. A chegada ao Reino do Congo, depois de meio século
de investidas para o reconhecimento da costa ocidental da África e do golfo da
Guiné, revelou aos portugueses uma área na qual não havia a influência islâmica.
Em
fins do século XV, D. João II mandou a primeira expedição, sob o comando de
Diogo Cão, que saiu do Tejo em direcção à feitoria da Costa da Mina.
Após
curta estada, Diogo Cão rumou para o Sul e alcançou a foz do Rio Congo.
Desembarcou na margem esquerda e erigiu na moita Seca, o padrão de S. Jorge,
Ali,
entrou em contacto com Nsoyo, chefe da localidade e soube que no interior ficava
a Corte do mani Congo, Nzinga-a-Nkuwu, chefia máxima do reino.
O
reino do Congo, naquela época, abrangia grande parte da África centro-oriental
e se dividia em províncias, como a de Nsoyo, administradas por linhagens nobres.
Mbanza Kongo era a capital, centro de poder de onde o mani Congo administrava a
confederação juntamente com um grupo de nobres que formavam o conselho real (Vainfas
& Souza, 1998:97).
Diogo
Cão enviou emissários portugueses rio acima, levando, segundo a crônica de João
de Barros, um presente ao rei da terra. Como não regressaram dentro do prazo,
Diogo Cão voltou ao Reino português levando alguns nativos como reféns.
De
volta ao Congo, esses homens foram integrados em uma embaixada de D. João II ao
mani Congo. Segundo a famosa crônica de Garcia de Resende, do século XV, o rei
português ofertava sua amizade e convidava o rei congolês à fé cristã,
recomendando-lhe que deixasse os "ídolos e feitiçarias" que adoravam
Diogo
Cão desceu em terra os congoleses que levara para Portugal e recolheu os
portugueses que tinham ficado da sua primeira viagem. As informações obtidas
pelos dois lados facilitaram a ulterior recepção do mani Congo, tendo cumprido
aí papel importante os reconduzidos reféns congoleses.
Assim,
para Julieta Araújo e Ernesto dos Santos (1993:642), dois aspectos marcam o início
da exploração da região. Por um lado, a penetração fluvial com a exploração
do estuário do Zaire.
Diogo
Cão subiu o curso do rio até as cataratas do Yelala, atingindo o extremo navegável
do rio. Por outro, a penetração terrestre em direcção a Mbanza Kongo, que
mais tarde seria rebaptizada de São Salvador.
Na
volta a Portugal mas já com Bartolomeu Dias no regresso da descoberta do Cabo
de Boa Esperança, passando por M´Pinda, foi a vez do Mani Congo mandar sua
embaixada a D. João II.
Junto
dos presentes, pedia "que lhe mandassem logo frades e clérigos e todas as
coisas necessárias para ele e os de seus reinos recebessem a água do baptismo",
solicitando igualmente o envio de pedreiros, carpinteiros e lavradores que
ensinassem em seus reinos a tratar da terra, mulheres para ensinarem a amassar pão,
"porque levaria muito contentamento por amor dele que as coisas do seu
reino se parecessem com Portugal" (ibidem:643).
Em
Dezembro de 1490, partiu para o Congo uma expedição sob o comando de Gonçalo
de Sousa, na qual retornou a comitiva congolesa, assim como foram enviados os
primeiros missionários. A expedição chegou ao porto de Mpinda e foi recebida
pelo chefe da província de Nsoyo, tio do mani Congo.
Ele
e seu filho foram os primeiros a serem baptizados, recebendo o nome de Manuel, o
mesmo do irmão da rainha de Portugal.
Com
isso, abria-se o caminho para a conversão. Dali partiu a expedição para a
capital real. O mani Congo quis ser baptizado imediatamente, no que foi atendido
e, seguindo o padrão analógico dos primeiros tempos da relação entre os dois
reinos, recebeu o nome do rei de Portugal.
D.
João I, no entanto, logo abandonaria o cristianismo, pressionado por certa facção
da nobreza apegada às tradições bakongo e receosa de perder suas posições
com a "nova ordem cristã" que se avizinhava.
Foi
com seu filho, Afonso, que reinou entre 1506 e 1543, que as bases da catolização
foram sedimentadas. Ainda durante o reinado de seu pai, D. Afonso entrou em
conflito com seu irmão, governador de Panga, que rejeitara a fé católica e
tinha muitos seguidores.
A
luta ganhou intensidade com a sucessão no poder. Restabelecida a paz, D. Afonso
mandou erigir a igreja de Santa Cruz, templo no qual foram baptizados muitos súbditos.
D.
Afonso ordenara ainda aos governadores que entregassem todos os objectos que
pudessem lembrar as antigas crenças. "O monarca mandou queimar tais
objectos, distribuindo em seguida imagens de santos, cruzes, rosários, etc.
Mandou, além disso, erigir três igrejas: a de São Salvador, a da Virgem Maria
e a de São Jaime" (idem:651).
Diante
das dificuldades e do precário contingente de missionários, Afonso I pediu
ajuda à Coroa portuguesa. O rei D. Manuel mandou, então, formar um grupo de moços
no convento de Santo Elói de Lisboa, o primeiro seminário europeu para o clero
indígena.
Entre
esses rapazes estava o filho de D. Afonso I, Henrique, que mais tarde seria
consagrado bispo titular de Útica.
Em
seu reinado, a conversão dos senhores do Congo e seus súditos significou não
só mudanças na vida espiritual, mas também em aspectos materiais, incluindo
desde a alimentação, vestuário e construções, até a reforma administrativa
do Reino, que se reorganizou à semelhança do de Portugal.
Segundo
A. Custódio Gonçalves (1992:533), com a tentativa de transformar o Congo em um
reino cristão, "ponta de lança da conquista espiritual da África",
acreditou-se que a introdução de novos modelos culturais através da acção
missionária o tornaria uma réplica do reino português.
A
missionação, a par das deficiências, facilitou a abrangência da educação e
a entrada dos modelos de organização política, administrativa e judicial, com
a instituição da nobreza, cortesãos e dignatários, insígnias e distintivos
de todos os graus hierárquicos, criando no Congo a Corte de São Salvador, cujo
rei se dizia irmão do monarca português.
Anterior
ao achamento do Brasil e ao domínio da Índia, a descoberta de um espaço geo-humano,
tão vasto e receptivo como o oferecido pelo Congo, proporcionaria a
possibilidade de materializar um eficaz projecto de aculturação jamais acenado
ainda a Portugal. (Marques, 1992:131)
A
colonização do território de Angola teve sua base inicial nos contactos com o
reino do Congo. A ex-província Ngola, após sua independência do reino do
Congo, mandou uma embaixada a Portugal pedindo missionários para instruírem o
reino de Angola na fé cristã.
Segundo
Araújo & Santos (1993:653), entretanto, mais que o interesse na conversão,
o soberano de Angola, reconhecendo a importância que as relações com Portugal
conferiam ao rei congolês e buscando afirmar sua independência, tentava, com a
embaixada, reatar o tráfico de escravos na região e com isso ganhar poder econômico
e político em relação ao rei do Congo.
Em
1559, foi enviada uma missão chefiada por Paulo Dias de Novais para, entre
outros fins, converter o rei angolano e suas gentes.
Embora
ao longo de todo o século XVI os portugueses continuassem a enviar escravos a
partir do porto de Mpinda e do Loango, via S. Tomé, depois da fundação de
Luanda, em 1575-76, Angola tornou-se o principal fornecedor de escravos.
No
Congo, como em Angola, a missionação esteve presente junto aos primeiros esforços
colonizadores, mas encontrou muitas dificuldades com o passar dos anos. E não
se pode deixar de enfatizar que o maior problema da missionação, sem dúvida,
foi a escravatura, da qual os religiosos não puderam passar ao largo.