O ensino da língua portuguesa no estrangeiro está doente há muitos anos. Sofre de paralisias intermitentes, de falta de pessoal adequado em número bastante (porque as reciclagens dos professores recrutados nas comunidades no estrangeiro nunca fizeram carreira, nunca o foram de facto, aturadamente, muitas vezes se ficando por folclóricos cursos de Verão que mais parecem passeios turísticos, porque nunca se apostou a fundo na formação de jovens de origem portuguesa).
Sofre, também, de gangrenas causadas pela corrupção (apodrecimento do sistema). Durante muitos anos, os professores de português nas comunidades de emigrantes foram-no voluntariamente, por amor à Pátria. Mas quando um dia se acordou para a injustiça que era a não contagem de tempos de serviço para efeito de reforma, legislou-se em cima do joelho, aplicou-se a lei levianamente, e caíu-se numa injustiça tremenda em relação a professores residentes em Portugal, formados, e agora já com licenciatura, que fizeram a sua carreira por dezenas de anos em aldeias do interior, de lado para lado, a ganharem mal durante muito tempo, com todo o desconforto. Não se teve em conta que os professores emigrados, para além de não estarem sujeitos a essas incomodidades e sacrifícios, saíram do país de livre vontade. Emigraram para fazer dinheiro e viver bem, na maior parte dos casos nunca tendo a preocupação de investir no seu próprio aperfeiçoamento profissional.
Como era de esperar, surgiram as golpadas de quem, não tendo preparação académica, aldrabou a contagem de tempo e fica a receber tanto de pensão de reforma como aqueles que queimaram as pestanas a estudar e tiveram de cumprir rigidamente a lei. Ou, como se verificou em alguns casos, pessoas que, muito ladinas, usaram as baixas e os médicos amigos, ganharam a dois carrinhos uma boa temporada.
Estas mazelas do ensino básico e secundário foram em alguns casos, agravadas pela acção nefasta de coordenadores incompetentes, desonestos e sem escrúpulos. Ou pela ausência de coordenadores, substituídos no terreno por funcionários consulares sensíveis a cunhas. Mas noutros casos, foram detectadas por coordenadores competentes e honestos que, atempadamente, avisaram os governos de Lisboa.
Entretanto, nos países de acolhimento onde há programas de línguas internacionais e leitorados, municiados pelo Instituto Camões, verifica-se que, na esmagadora maioria dos casos, não há pessoas de origem portuguesa a formar-se em português para poderem garantir a continuidade do ensino pelas gerações fora. É o caso, por exemplo, da Universidade de Toronto, onde há um departamento encarregado de ensinar língua portuguesa há mais de 50 anos. Leitorados há, como em Montréal, onde se contam apenas três estudantes de origem portuguesa e isso tem um significado muito simples de entender: sendo o leitor pago pelo estado português e arrecadando a universidade estrangeira o montante das propinas, quem fica a ganhar são os cofres do país de acolhimento. Isto é, Portugal, país pequeno e pobre, com toda a sorte de dificuldades, anda pelo estrangeiro a fazer figura de milionário, a ensinar estrangeiros, sem proveito directo para o nosso país, mas com garantido proveito para instrutores de origem lusa que, desprovidos de escrúpulos, mamam nesta teta por anos seguidos, chegando ao ponto de porem alunos de português deficiente a ver as provas doutros alunos.
Também há lugares onde um instrutor, contratado e pago por uma universidade local, consegue uma nomeação ilegal para leitor de português numa outra universidade. Sendo pago pelo país de acolhimento e por Portugal, ao mesmo tempo e ilegalmente, o instrutor pode mesmo levar o seu despudor ao ponto de subestabelecer numa outra pessoa, que lhe faz o trabalho e ganha uma parte dos honorários. É o caso, no Canadá, com as Universidades de Toronto e de York.
Tudo somado à roda da diáspora, onde as queixas já fazem uma grande bola de neve, conclui-se que, no Instituto Camões, a falta de inspecções tem sido um facto e o compadrio inegável.
Somando-se esta lamentável situação aos não menos lamentáveis erros e lacunas do Ministério da Educação, pode compreender-se que o ensino da língua portuguesa no estrangeiro está muito doente.
Mas tem cura. E por tê-la, não se compreende que o novo secretário de estado das Comunidades, José Cesário, ande numa azáfama a querer entregar o ensino de português, todo ele, ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, esse que tão má tutela tem feito no Instituto Camões. Não se duvida que Maria José Stock, a nova presidente do Instituto Camões, faça ali uma limpeza de alto a baixo como fez no Centro Cultural de Belém – mas é garantido que essa acção vai demorar meses ou anos. E entretanto, quem vai para a cova é o ensino básico e secundário, esse onde o Instituto Camões averbou um dos seus maiores fracassos de sempre.
José Cesário, antigo emigrante e professor, deve saber que o tratamento por si preconizado representará a eutanásia da língua portuguesa no estrangeiro. Eutanásia é crime.
Quer o novo Secretário de Estado das Comunidades ficar para sempre responsável pelo assassinato, a frio, da língua portuguesa nas comunidades emigrante.
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Nota do Editor
Sou emigrante nos Estados Unidos há mais de 56 anos. Apesar de ser médico sempre me interessei pela conservação da língua, da cultura e da história portuguesa nos Estados Unidos.
Várias vezes escrevi e mandei e-mails ao Instituto Camões, mas NUNCA recebi nenhuma resposta! Porquê? Será que Camões é analfabeto?
Manuel Luciano da Silva
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Veja o artigo que escrevi recentemente a respeito do ensino do Português na América do Norte
"O ensino do Português na América tem um fado lúgubre!"