Falar com as mãos é saudável e inteligente!
Por Manuel Luciano da Silva, Médico

Eu falo sempre com as minhas mãos! Eu sou um primata! Sou um  Homo Sapiens! Sou um animal mamífero que tem os polegares oponíveis aos outros dedos, portanto tenho uma destreza  que os outros animais não têm. Esta é a razão porque eu considero as minhas mãos umas das  partes anatómicas mais preciosas do meu corpo! Eu gosto de usar os meus dedos e as minhas mãos no seu todo para comunicar com as outras pessoas e  até alcançar  coisas novas com elas!

Quando eu emigrei de Portugal  para Brooklyn, um bairro da Cidade de Nova Iorque, em Janeiro de 1946, quase há 56 anos, porque eu  não falava  ainda fluentemente o inglês tinha naquela altura  mais necessidade de usar as minhas mãos. Talvez por isso, fui chamado à atenção que na América não parecia bem falar-se com as mãos... Achei tal observação muito estranha, porque sempre pensei que usando as nossas mãos comunicaríamos melhor e seríamos mais eficazes  naquilo que queríamos transmitir.  “Não, não senhor,  isso não se deve  fazer”.

Mas também depressa aprendi a expressão,  quando as moças do  Clube Social Luso-Americano, localizado na Henry Street, me perguntavam, usando a expressão idiomática.   “Como te se sentes?” E eu respondia --  “Com os meus dedos”!..  E as raparigas pensavam que eu já estava a ficar muito esperto... e a aprender muito depressa a maneira americana... 

Mas um acontecimento que me salvou do meu embaraço de gesticular  foi o Presidente Truman, quando o vi na televisão dirigindo-se  a toda a nação, falando com as mãos, ou melhor ainda, com ambos os membros superiores, como se fossem uns  parêntesis, para cima e para baixo, para dar mais ênfase às suas mensagens.  Daqui por diante comecei a ficar mais descansado, porque se o presidente desta grande nação gesticulava quando falava,   eu entendi que  também  estava dentro do âmbito da decência...

Mas confesso que a atitude crítica de gesticularmos quando falamos continuou  a preocupar-me e pus-me àlerta para descobrir quais as razões sociais para tal crítica.  Conforme me ia adaptando ao ambiente da grande cidade, observei que a Cidade de Nova Iorque, naquela altura,  tinha mais imigrantes  italianos do que viviam em Roma, na Itália.  Constatei também que havia uma abundância de italianos nos cinco bairros de Nova Iorque, que havia programas radiofónicos e  jornais diários em italiano e ainda muitos vendedores  italianos ao ar livre pelas ruas da cidade.  E todos eles gesticulavam muito quando falavam a sua língua nativa.

Aprendi até uma anedota a respeito dos italianos falarem com as mãos. Pergunta:  “Porque é que os italianos perderam II guerra Mundial?”  Resposta. “Não sei”. Resposta certa:  “Os italianos perderam a guerra porque os soldados que estavam na linha da frente,  todas as  vezes que queriam falar uns  com os outros tinham que pousar as armas e usar a expressão com  ambas as mãos:  ‘Paisano porque no me capiche’ ”? 

Não levou muito tempo para eu chegar à conclusão  que a crítica às pessoas que falavam com as mãos, foi  iniciada pelos chamados “americanos puros”, por ser típico dos italianos e portanto estrangeira, fascista e até xenofóbica! Pensei então que isso era uma crítica ridícula, tal qual continuo a pensar a mesma coisa ainda hoje, em se censurar uma pessoa que gesticule quando está a falar.  (Devo esclarecer que naquela data eu era um cidadão americano apesar de ter nascido em Portugal, porque o meu pai era cidadão americano antes de eu nascer. É  por isso que eu tenho um Certificado de Cidadania e não de Naturalização).  

Saudável e inteligente.....Esperei 56 anos! Levou-me 56 anos para encontrar a prova científica de que falar com as mãos é saudável e inteligente!  Dois professores de Psicologia da Universidade de Chicago, Dra.  Susan Goldin-Meadow e Dr. Howard Nussbaum, fizeram um  estudo muito interessante não só com jovens mas também com adultos. Dividiram-nos em dois grupos. A ambos os grupos ensinaram problemas de matemática e  uma lista de coisas para decorar.

Depois examinaram ambos os grupos separadamente. Um grupo não podia  usar as mãos e outro teve que usar as  mãos.

Resultados: O  grupo que teve que usar as mãos lembrou-se  VINTE POR CENTO mais dos problemas de matemática e das coisas decoradas,  do que o grupo que se exprimiu sem gesticular com as mãos!  Este estudo foi publicado na revista “Journal of Psychological Science”, no mês de Novembro de 2001.

Devemos notar  que a diferença não é  de dois por cento, mas sim vinte por cento! Claro que fiquei muito contente com os resultados deste estudo. Eu sempre observei que  estátuas dos  famosos filósofos e oradores  romanos e gregos  apresentam os membros  superiores estendidos,  gesticulando entusiasticamente. Todos os grandes oradores mundiais, quer para o bem ou para o mal, que foram capazes de convencer milhões de pessoas, falaram sempre muito enfaticamente com as suas mãos!  Exemplos: Hitler, Mussolini, Lenin, Billy Graham, muito lidadores religiosos e até os grandes maestros.

Pessoas cegas......Porque é que as pessoas cegam falam com as mãos? Porque é que as pessoas normais gesticulam mesmo quando falam ao telefone?  Porque quando falamos devemos usar todo o nosso corpo!  As nossas mãos são uma extensão directa do nosso cérebro! Quantas obras de arte foram feitas com as nossas mãos?! Vejamos um pianista, tocando de memória, uma sinfonia inteira, movendo os seus dedos com uma rapidez incrível, como se o seu cérebro estivesse mesmo na ponta dos seus dedos! 

Curioso que o povo do norte de Itália, onde a temperatura é geralmente mais baixa, não gesticula tanto como os italianos que vivem no sul,  onde da temperatura é mais quente. Observação semelhante se passa com os europeus do norte, os escandinavos,  em comparação com Portugal e Espanha onde o clima é mais ameno.

Quando eu era um estudante de endocrinologia na Universidade  de Nova Iorque, em 1951, tinha um professor, Dr. Boyd, que nos ensinava que todas as unidades internacionais das várias hormonas estavam guardadas num frigorífico em Londres.  E  dizia, cinicamente:  “Sabem, porquê?  Porque os ingleses têm  sempre as suas hormonas no frigorífico”.

Música e povo.......Há um provérbio que diz que podemos medir o sentimento dum povo pelas características da sua música. Não há dúvida nenhuma que os países em que  seu povo é extrovertido, cujo povo fala com as suas mãos, a sua música tem um tom feliz e aberto, tendo até predomínio das vogais. Em contrapartida os anglo-saxónicos têm uma personalidade mais introvertida, em comparação com os latinos que são mais abertos e alegres!

 

  Importância da nossa pele.......É muito importante que analisemos,  cientificamente, porque é que é saudável e inteligente  falarmos com as nossas mãos. Para isso devemos considerar a fisiologia da nossa pele. A nossa pele é o maior órgão do nosso corpo. Poucas  pessoas sabem realmente esta verdade.    Dezasseis por cento do nosso peso pertence à pele. Numa pessoa de 70 quilos a pele pesa 11 quilos e duzentos gramas;  o fígado um quilo e meio; o cérebro um quilo e quatrocentos;  os pulmões um quilo;  o coração e os rins menos de meio quilo cada.

A  pele é  não  só o  maior órgão do nosso corpo, mas também um dos mais importantes. Nós podemos viver só com um rim, só com um pulmão, mas se mais de cinquenta por cento da nossa pele for destruída por queimadura de terceiro grau, não poderemos sobreviver.

Apele tem  funções vitais muito importantes tais como:

Deus, "falando com a Sua mão", criando o Homem, Adão. Pintura de Miguel Ângelo, no tecto da Capela Sistina, Vaticano, Roma, Itália. Anos 1508-12. A área onde está Deus tem o formato dos lobos frontais do nosso cérebro.

Antena parabólica......A área total duma pessoa de 70 quilos é de vinte pés quadrados. A nossa pele funciona  como se fosse uma antena  parabólica de grandes dimensões, coleccionando toda a informação  para o nosso cérebro que funciona como se fosse um computador.

Mas este mecanismo funciona como uma via de dois sentidos.  Também transmite informação eléctrica do cérebro para a pele e para os tecidos  circunvizinhos incluído as mãos. 

Portanto  quando uma pessoa desejar  transmitir  uma mensagem forte usando as suas mãos, é um gesto   semelhante ao  Deus a dar  vida, ou o  estímulo eléctrico, a Adão, na imortal pintura de Miguel Ângelo,    no tecto da Capela Sistina, no Vaticano. 

Portanto se Deus pode usar a  sua mão, para criar vida, eu acho que posso usar  também as minhas mãos para comunicar melhor com os outros seres humanos. Não tenho vergonha  nenhuma em o fazer!  Levou-me 56 anos para conseguir obter esta  prova científica!

Por isso a minha mensagem hoje é:   nunca devemos  desanimar de provar  a nossa convicção ainda que tenhamos que esperar mais de meio século! 

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