Faleceu
Kenneth Gordon McIntyre,
um amigo sincero de Portugal!
Por Carlos
Pereira Gomes
O
Comendador Kenneth Gordon McIntyre, faleceu no dia 20 do mês passado em
Geelong, tinha 93 anos. Distinguiu-se em muitas áreas mas, para nós,
portugueses, os seus estudos sobre a descoberta da Austrália e a sua dedicação
e promoção da história e cultura portuguesa neste país merecem a nossa
admiração e gratidão.
Por Carlos Pereira de Lemos, Consul Honorário de Portugal, Melbourne, Austrália. Fotografia de Rui Marote
McIntyre estudou na Universidade de Melbourne tendo obtido o mestrado em letras e logo a seguir leccionou, na mesma universidade, literatura. Foi durante este período de contacto com autores clássicos que McIntyre estudou Luís de Camões, tendo-lhe deixado grande impressão, não só a obra como os feitos dos nossos navegadores. E esta impressão foi ainda reforçada por uma visita que tinha feito a Timor em 1929. Mas não prosseguiu os seus interesses literários e históricos neste período porque, enquanto leccionava literatura, estudou direito e seguiu depois a carreira de advogado em Melbourne.
Como advogado deixou marca. Foi ele quem mais contribuiu para as leis que regulam a transferência de propriedades e foi autor das leis que estabeleceram Cooperativas (Building Societies) na Austrália. Durante mais de trinta anos, foi consultor jurídico do Governo federal nestas matérias. Pelo trabalho que desenvolveu neste campo e também como Presidente da Câmara de Box Hill, foi condecorado com a Ordem do British Empire (OBE). Foi também neste período de grande actividade que se dedicou ao desporto e tornou-se então famoso, não pela advocacia, mas porque inventou o "Sistema McIntyre" que ainda hoje serve de base nos jogos das finais da Australian Football League, ou seja, do "Footy". Aposentou-se em 1968 e a partir daí dedicou o resto da sua vida àquilo que estava latente no seu subconsciente, ou seja, o estudo das descobertas e navegadores portugueses. Estudou português suficiente para ler e passou temporadas em Portugal a analisar documentos históricos na Torre do Tombo e outros arquivos.
Teve também contacto com historiadores portugueses, entre eles o Almirante Teixeira da Mota, que o apoiaram. Como resultado destes estudos, publicou em 1977 a obra de grande vulto "The Secret Discovery of Australia Portuguese Ventures, 200 years Before Captain Cook". Este livro foi traduzido e publicado em Macau, em 1989, sob o título "A Descoberta Secreta da Austrália A façanha portuguesa, 200 anos antes do Comandante Cook". Infelizmente ambas as edições se encontram esgotadas, mas é possível obtê-las através da Internet por preços elevados. Este livro criou grande interesse e polémica, porque há fanáticos que só aceitam que o Comandante Cook tenha descoberto a Austrália, sem analisarem os factos. Mas o que é certo é que embora haja historiadores que não concordam com as teorias e metodologia de McIntyre, ainda nenhum consegiu refutar, com factos, essas teorias.
A grande contribuíção de McIntyre, nesta obra, é a sua análise matemática da cartografia portuguesa, do Século XVI e sua conversão para escalas modernas. Deste modo ele prova que a Carta de Delfim, publicada em 1536, revela a costa leste da Austrália como é, e este mapa termina em Warrnambool, onde teria encalhado uma caravela de Cristóvão de Mendonça em 1522, atribuindo o mapa a este Capitão português. Daí a lenda do "Mahogany Ship" e daí, com muitos outros factos, a convicção de McIntyre que foram os portugueses que descobriram a Austrália. Mas McIntyre publicou outro livro. Enquanto pesquisava os arquivos em Lisboa, descobriu um manuscrito, esquecido e poeirento sobre Arthur Phillip, que relatava os feitos dele na marinha portuguesa. Tinha sido compilado há uns cem anos, pelo bibliotecário dos Arquivos Nacionais de Lisboa, General Jacintho Ignácio de Brito Rebello. Ora McIntyre, apercebeu-se da importância deste documento porque, como se sabe, Arthur Phillip foi o primeiro e grande Governador de New South Wales, sendo considerado o fundador da Austrália.
O que poucas pessoas sabem é que Arthur Phillip foi oficial na Marinha Inglesa, onde em 31 anos de serviço, os seus méritos não foram reconhecidos e não passou de tenente. Só se realizou, quando em 1775 ingressou na Marinha Portuguesa e foi para o Brasil onde comandou uma fragata, tendo então travado lutas com os espanhóis na área de Colónia do Sacramento. Foi na Marinha Portuguesa que atingiu o posto de Capitão de fragata, e que obteve a experiência que lhe foi tão valiosa depois na Austrália. McIntyre não só usou o manuscrito do bibliotecário referido, como aprofundou o estudo sobre Arthur Phillip ao serviço de Portugal e em 1984 publicou o livro " The Rebello Transcripts - Governor Phillip's Portuguese Prelude." Mais uma obra que atesta a capacidade de investigação de McIntyre e o interesse que tinha pela história portuguesa relevante à história da Austrália. McIntyre tinha uma memória excepcional e incrível capacidade de observação.
Encontrei-me com ele duas vezes em Lisboa. Ele estava instalado num hotel perto da Avenida da Liberdade. Combinámos um dia ir juntos ao Museu da Marinha em Belém. Naturalmente que chamei um táxi, mas ele disse-me que era mais agradável ir a pé. É claro que a meio do caminho, por volta de Alcântara, eu já estava "arrumado"e ele fresco como se tivesse 20 anos. Verifiquei depois, em várias conversas que tivemos, que ele nunca usou táxis ou transportes públicos em Lisboa. Andava a pé e conhecia não só as ruas como a arquitectura dos edifícios e ligava os nomes das ruas à história. Também gostava do fado. Uma noite, em 1981, levei-o a ele e à esposa (esposa de 60 anos, falecida há 6 anos) à Adega Machado, no Bairro Alto, onde calhou de lá estarem a cantar os grandes do fado português. Saímos de lá às 4 da manhã e foi uma noite que lembrou durante muitos anos.
McIntyre era um grande comunicador e “raconteur”. Durante muitos anos, teve uma casa de praia em Somers, perto da minha. Encontrámo-nos muitas vezes na casa dele, na minha ou na praia. Conversámos durante horas ou, por outra, ele é que falava da história de Portugal, de episódios e de pessoas. Era um encanto ouvi-lo. McIntyre foi condecorado pelo governo português. Em 1983 recebeu na embaixada de Portugal em Canberra a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique, a qual lhe foi entregue pelo embaixador Dr. Rebello de Andrade. Em 2002 foi elevado ao grau de Grande Oficial da mesma Ordem e a condecoração foi-lhe entregue em Warrnambool, junto ao Padrão e bustos do Infante D. Henrique e Vasco da Gama, pelo embaixador Dr. Vieira Branco. A presença de Portugal em Warrnambool, com o Padrão, os bustos e o festival português que lá tem lugar regularmente, deve-se a McIntyre, pois sem a sua obra e a sua inspiração, nada lá existiria. Portugal perdeu um grande amigo e um grande embaixador na Austrália.