Há 40 anos propús um único Consulado de Portugal  na Nova Inglaterra!
Por Manuel Luciano da Silva, Médico

 

 

 

 

O jornal semanal  “Portuguese Times” que se publica na cidade de New Bedford, Massachusetts, traz esta semana ( 9 de Outubro de 2002),  em primeira página uma notícia intitulada:

Proposta do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas – Um só Cônsul para Boston, Providence e New Bedford”.

Este é um assunto que me tenho interessado há mais de 40 anos!... Mas antes de prosseguir  devo esclarecer que em 1947 fui amanuense do Consulado Geral de Portugal na grande cidade de Nova Iorque  que ficava,  e ainda está,  na Quinta Avenida, No. 630, mesmo em frente à Catedral de São Patrício. Naquele consulado  aprendi a fazer passaportes, procurações e  uma  variedade de documentos  característicos dos consulados.  Mas também aprendi aquilo que não vem escrito em nenhum dos regulamentos do Código Consular—o comportamento diplomático do pessoal superior do consulado.

Nunca mais me posso esquecer dum episódio que me deixou desolado. Era uma sexta-feira cerca das três horas e meia da tarde. Apareceu à janela de recepção um português vindo de Newark, New Jersey, que queria um passaporte com urgência. Trazia consigo duas fotos e o bilhete de identidade e eu despachadamente  fiz o passaporte, e  fui levá-lo ao Chanceler Nogueira para ele  o assinar, porque eu como amanuense  não tinha categoria para assinar tal documento. Fiquei espantado e tristíssimo, quando sua excelência  me disse que não podia assinar o passaporte no mesmo dia  e que o homem tinha que voltar ao consulado na segunda-feira. Naquele tempo não havia consulado de Portugal em Newark, como há hoje. Apresentei, como pude,  as minhas desculpas ao nosso patrício, mas aquela experiência serviu-me   de aviso que tinha que sair daquele ambiente deplorável. 

E saí,  pois dentro de pouco tempo dei  entrada na Faculdade de Ciências da  Universidade de Nova Iorque como estudante em tempo inteiro. Quando informei o Cônsul Geral Bettencourt Ferreira da razão porque  ia sair do consulado, sua excelência  em vez de me encorajar a entrar na universidade, fez  este comentário infeliz. “Então quer ser doutor, o consulado já não lhe serve!”

Por ser cidadão americano e por não precisar dos serviços dos consulados de Portugal na Nova Inglaterra, observei,  calmamente, que há quarenta anos, havia consulados a mais na Nova Inglaterra. Havia um de carreia em Boston, mas os outros  três eram de quarta classe, ou chamados honorários.  Um  em Fall River, outro em  New Bedford, e ainda outro em  Providence.

Entrevista ao Fall River Herald News

Resolvi então dar uma entrevista ao Director-Editor Chefe, Herman Mello, explicando-lhe as razões porque é que Portugal devia criar um Consulado de Portugal único em Fall River e eliminar todos os outros consulados. Ele gostou tanto da ideia que publicou  o artigo na primeira página.

Fall River ainda hoje é o epicentro da comunidade portuguesa na Nova Inglaterra. É servida por óptimas auto-estradas. De Providence a Fall River são 17 milhas,  de New Bedford apenas  12 milhas  e de Boston 40 milhas.

Manter os consulados de quarta classe ou honorários era  mesmo menosprezar os portugueses desta região.  A minha proposta era para o governo português  comprar uma das grandes fábricas  téxteis abandonadas (existiam cerca de 20 em Fall River)  e criar um só Consulado Geral para toda a  Nova Inglaterra, com um adido cultural, um adido comercial, etc. 

Qualquer um destes edifícios são construídos  em granito com quatro  andares altos,  portanto fornecendo muito espaço  para,  a pouco e pouco,  se criarem as condições para se fazerem exposições culturais, comerciais, industriais, etc.

Ainda haveria espaço para se  criarem as condições para as residências do Cônsul Geral e dos seus adidos.  Mais ainda: haveria espaço para se prepararem uma centena de quartos para se acomodarem  os membros das caravanas de Portugal, como tunas, grupos folclóricos, etc. 

Haveria condições para estacionamento de automóveis, sem necessidade de pagamento.  Mas mais importante ainda. Este consulado iria criar à sua volta estímulos para  atrair  outras instituições luso-americanas para que  no seu conjunto  constituíssem um centro que muito  dignificaria  a Comunidade Lusíada na Nova Inglaterra.  

Este artigo publicado no “Fall River Herald News” serviu para  os cônsules honorários nunca mais me gramarem, porque lhes ia tirar o tacho dos emolumentos que estavam a  receber.

Mandei cópia do mesmo artigo para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, para o Presidente Américo Tomaz  e até para o Primeiro Ministro  Salazar, mas  com certeza os seus respectivos secretários limparam o anus com o pedaço do jornal...  

Condições actuais

No passado dia 5 de Outubro, 2002, falei,  cara a cara, com o Secretário de Estado das Comunidades, Dr. José Cesário, no Hotel São Miguel, em Ponta Delgada, quando ele foi discursar  no almoço do XXXI Congresso Internacional das Academias do Bacalhau. Dei-lhe os meus  parabéns pela nova proposta, mas informei-o  que há 40  anos eu propus  uma mudança muito mais radical de se criar um único consulado na Nova Inglaterra com localização na cidade de Fall River.  Disse-me que o meu plano seria muito mais difícil de concluir  agora! Não sei porquê. Se ele e o Ministro dos Negócios Estrangeiros é  que têm a faca e o queijo na mão. 

É uma pena que os governantes em Portugal não tenham prestado atenção aos conselhos dos emigrantes que como eu já vivemos aqui na América há mais de 56 anos. Sabemos, ou temos obrigação de saber, o que é que deve ser melhor para servir a nossa comunidade portuguesa na Nova Inglaterra.

Devo dizer aqui publicamente que gosto da maneira de  ser do novo Secretário de Estado das Comunidades. Olha direito para as pessoas e é muito frontal nas suas declarações e convicções.  E quando fala as pessoas prestam muita atenção naquilo que diz. É pena que não tivesse passado por  estas bandas há quarenta anos... 

Os serviços diplomáticos nesta região estariam noutro nível  e Portugal não teria gasto tantos milhões de dólares. Imaginem quantos milhões de  dólares Portugal tem gasto e continua a gastar  só nas  rendas dos consulados de Portugal em Boston, Providence e New Bedford! Se tivessem comprado a tal grande  fábrica em Fall River, por cem mil dólares, agora  já tinham  tudo pago e melhorado muito os serviços diplomáticos na Nova Inglaterra. 

Se todos os empregados que trabalham actualmente nos três consulados, se  estivessem concentrados na mesma instituição, coordenariam esforços, seria muito menos despesa em telefones, arquivos, etc. etc.  Além disso todos nós sabemos que é simplesmente horrível para quem tem que ir pessoalmente  a qualquer  consulado em  Boston, Providente e New Bedford, por causa do estacionamento. Querem os consulados nos centros das cidades -- certamente  por vaidade hipócrita diplomática – em vez de se preocuparem em servirem  melhor os emigrantes  portugueses com condições acessíveis.

Maior escândalo consular

Não quiseram criar, há 40 anos, o consulado único na Nova Inglaterra, portanto  não evitaram que o  cônsul honorário,  Manuel  Alves Carvalho, de Providence,  se tornasse  um engajador de imigrantes a ponto tal  que ele foi apanhado em flagrante pela PIDE, (Polícia Secreta Portuguesa), sendo julgado  culpado no Tribunal da Ribeira Grande. Ele apelou para os Tribunais da Relação e do  Supremo em Lisboa, mas  perdeu igualmente  a sua causa nestes mesmos tribunais portugueses. 

Mas o caso não ficou   por aí.  Originou ainda questões judiciais nos tribunais Superior e Supremo do Estado de Rhode Island and Providence, tendo o mesmo cônsul Manuel Carvalho perdido em ambos os tribunais americanos.  Todos estes casos legais só serviram para enxovalhar mais o nome de Portugal na Nova Inglaterra.  

Se  o leitor tem Internet e quiser ver todos os pormenores deste caso único nos Estados Unidos da América, com cópias das decisões nos respectivos tribunais em Portugal e na América consulte a minha página ou website – Portuguese Merdagate,  na coluna do lado esquerdo da  página frontal da minha website e verá centenas de páginas com os documentos  originais dos tribunais portugueses e americanos. 

Eu sei bem que este meu  artigo  é outra vez bater em gato morto, mas pelo menos ficará registado  nos arquivos  históricos da comunidade portuguesa da Nova Inglaterra e será também arquivado na minha Biblioteca-Museu em Cavião, Vale de Cambra,  Portugal, para que no futuro quando  alguém vier a  estudar a história da Comunidade da Nova Inglaterra fiquem a saber que  os portugueses desta região não foram todos tolos, nem  estúpidos.

Eu hoje tenho passaporte americano e passaporte português e  também bilhete de identidade. Apesar de viver nos Estados Unidos há  mais de 56 anos continuo a defender entusiasticamente  os  interesses  culturais, históricos e sociais da nossa Pátria de Origem. E  porquê?  Porque o  faço sem interesses secundários ou  pessoais. Se enviei todo o meu espólio para Portugal fi-lo porque realmente amo muito a terra onde nasci. Este facto é uma prova irrefutável do meu sentimento patriótico português.

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