Magalhães: repouse descansado, que ninguém te tira as glórias!
Pelo Professor Jin Guo Ping    Barreiro, Portugal
23 de Julho de 2004

Apesar de que “1421-O Ano em Que a China Descobriu o Mundo” é um estrondoso best-seller mundial que se diz vender um exemplar na sua versão original em inglês ou em traduções a cada 40 segundos e a “cabeça dentro da areia” do autor sobre as muitas críticas que lhe são dirigidas, este livro continua a ser extremamente controverso. Com o seu lançamento em Lisboa, esta polémica que começou há 3 anos em Londres[1], finalmente chegou a Portugal.

Convém saber que não foi a Royal Geographical Society que convidou o Senhor Gavin Menzies para apresentar as suas “teorias”. Ele pagou um aluguer no montante de 1200 libras[2] para poder usar este prestigioso estabelecimento, a fim de credibilizar a sua imagem dum amador.

As surpreendentes ideias defendidas por Menzies foram recebidas com muito cepticismo. Ele não ficou nada desanimado e lançou em Outubro de 2003, 1421 Year China Discovered the World. Mais tarde, quando saiu a versão norte-americana (1421- The Year China discovered America ), ela foi classificada pela crítica de “Menzies' book is fractured history, a mishmash of off-base conclusions drawn from amateurish research and wide-eyed ‘discovery’ of well-known facts.”[3] Chegou a ser comparada com o tristemente famoso “Diário de Hitler” que provocou, em 1983, um grande prejuízo financeiro e escândalo à revista Stern.

Louise Levathes, jornalista de renome e autora de “When China Ruled the Seas: The Treasure Fleet of the Dragon Throne, 1405-1433”, sendo entendida do tema, conclui: “He has not, unfortunately, discovered anything new,” “What he's done is to present it in a jumbled manner so you have no idea what's going on and what the time frames are.”[4] Joaquim Ferreira do Amaral no Público afirmou: “por mais voltas que se dê o livro não vale nada do ponto de vista científico”. O Dr. Luciano da Silva não hesitou em chamar as “teorias” de Menzies de “A descoberta da América pelos chineses é uma chinesice!” O absurdo é que um inglês anda a fabricar e “vender” chinesices!

Louise Levathes destacou a dizer que Menzies desconhece fontes primárias chinesas, nomeadamente a “Ming Shi (História Oficial dos Ming)” e de “Ming Shi Lu (Verídicas Crónicas dos Ming)”, que fornecem informações detalhadas sobre as viagens de Zheng He e que não fazem nenhuma menção sobre as Américas. Evidentemente, não saber o chinês não é um crime, mas não deixa de ser uma falta de condições necessárias para investigações mais directas e sólidas.

O meio académico chinês ficou bastante perplexo quando soube das “descobertas” de Menzies. Não obstante, quando se publicou o livro, o autor auto-desqualificou-se e ficou repudiado pelos melhores estudiosos chineses, conhecedores das fontes chinesas, que põem o Senhor Menzies logo em ridículo. Em Outubro de 2003, quando foi lançada em Taiwan a versão em chinês tradicional, foi lançada ao mesmo tempo uma colectânea,[5] com 242 páginas (A4) onde se reúnem críticas do mundo inteiro, cuja maioria é da Sinofonia. Claro, sendo um tema relacionado com a história da China, as pessoas gostam de saber da reacção dos chineses.

Como é que os chineses reagiram a este livro?

Recentemente foi descoberto que os registos das viagens de Zheng He não foram destruídos, como todos pensavam: estão lá, na China...”[6]

O Menzies fugiu à pergunta e fez uma afirmação surpreendente.

Ó, Senhor Menzies, diga-nos, por favor, “lá, na China” onde? Toda a comunidade científica chinesa e mundial ficaremos muito gratos ao Senhor se nos dizer com exactidão onde estão as fontes.

Como os chineses já não dão nenhuma importância às suas “teorias” que são meras hipóteses, sem pernas nem cabeça, à luz de fontes chinesas, passou a um baixo ataque: “Mas, ele reconhece que não poucos estudiosos da China Continental estão contra as suas teorias. Na sua palestra, afirma que os maiores defeitos dos estudiosos da China Continental nos seus estudos foram não terem ido a bibliotecas e museus fora da China para procurar provas.”[7] O Senhor que diz ter visitado 900 bibliotecas e museus, que é que encontrou de credível? Repetimos aqui o que Louise Levathes diz sobre si:“He has not, unfortunately, discovered anything new,”

Senhor Menzies, como que é o Senhor se tornou milionário? Não foi à custa das mais ousadas “invenções” sobre a história da China? O Senhor que andou pelo mundo inteiro, alguma vez pesquisou em alguma biblioteca chinesa? Na sua obra, não reproduziu notas de tradução como fossem parte do corpo do texto?

O Senhor armou-se em e(x)sperto, com uma estratégia bem pensada: Se for rejeitado, escudar-se-ia em “amadorismo” e se for temporariamente aceite, passaria a “historiador” com “sorte”. O Senhor não sabe o que diz, mas bem sabe o que quer. Uma coisa é certa, o Senhor já não vai ter as horas e as honras que o seu compatriota Joseph Needhan teve. A China já é outra.

Senhor Menzies, pode ter certeza que o Mundo Chinês não é só a China Continental. O que o Senhor não sabe é que, ao ter conhecimento da sua “descoberta” do Mapa-múndi de Frai Mauro e antes da publicação do seu livro, o autor destas linhas já denunciou à Sinofonia[8] que não foi o Senhor quem o descobriu na Itália, o português Visconde de Santarém já o publicou em Paris, em meados do século XIX.[9] O Senhor por ser ignorante, é que se considerou e se considera o grande “descobridor”. Já que o Senhor tanto gosta da história de Portugal, permita-me ensinar-lhe um ditado popular português: “A ignorância é a mãe de todos os atrevimentos.” E o povo chinês diria, por analogia: “A ganância é a mãe de todos os atrevimentos.”

Os chineses foram os mais enganados, mas rapidamente desenganados. Custa-nos ver que o Senhor está a lançar poeiras ao olho dum público laico no Ocidente e que se enche de direitos e mais direitos de “inventor”. Isso não lhe parece minimamente imoral? “Devia haver uma lei internacional para levar a tribunal um indivíduo destes que com mentiras consegue ludibriar tantas pessoas dos seus dólares com as suas mentiras!” como sugere indignado e com razão o Dr. Luciano da Silva.

De todas as maneiras, perante o meio académico internacional, o Senhor Menzies já está crucificado no pelourinho da ética e moral! Pelo menos pela perspectiva chinesa.

As “chinesices” made in England têm de ser desfeitas por fontes chinesas.

Além da Ming Shi (História Oficial dos Ming) e de Ming Shi Lu (Verídicas Crónicas dos Ming), há outras fontes chinesas mais fidedignas, por ser coevas e não censuradas, tais como, inscrições lapidares e epitáfios de alguns participantes das expedições marítimas de Zheng He, que constituem manancial informativo primário mais seguro do que os registos oficiais.

Em Outubro de 1983, em Taicang da Província de Jiangsu da China, foi descoberto o epitáfio[10] de Zhou Wen, participante de várias expedições marítimas de Zheng He, que o Senhor diz ser o primeiro circun-navegador do Mundo. O Senhor anda a dizer ter visitado cerca de um milhar de museus e bibliotecas no mundo inteiro, nunca visitou esta pedra tumular que está depositada no Museu Memorial de Zheng He de Taican, durante as suas pesquisas à escala planetária. Sabemos que numa visita que fez à China, antes da saída do seu livro, esteve neste museu, de modo que devia ter conhecimento deste epitáfio. Sabemos que o Senhor não sabe chinês, mas da pesquisa sobre o epitáfio existe um resume em inglês.[11] Parece que o Senhor o ignorou, de propósito, para poder “cozinhar” a suposta rota da primeira viagem à volta do Mundo.

Segundo a inscrição tumular, Zhou Wen era natural de Hefei, nascido em 1385. Participou nas viagens marítimas de Zheng He por 5 vezes, respectivamente, em 1409, 1413, 1417, 1421 e 1431. Sobre a viagem de 1421, o epitáfio diz expressamente: “No Ano Cinchou (1421), tornou a participar na viagem, mas a meio caminho voltou para trás.”[12] Isto prova irrefutavelmente que Zhou Wen nunca realizara a tal viagem de circum-navegação, sob a pena mágica do Senhor Menzies. Por tanto, toda a rota de Zhou Wen à volta do Mundo é resultado da sua imaginação. O mesmo acontece a outras tantas supostas rotas. Não vale a pena cotejá-las uma por uma com as fontes chinesas, pois o autor as fabricou maliciosamente. O Senhor Menzies, sendo laico nas instituições chinesas, não sabe que, Zhou Wen, sendo apenas um oficial de 5b na hierarquia militar, não podia desempenhar funções de chefia, que estavam reservadas a eunucos. Com que fundamento o Senhor Menzies chama Zhou Wen de almirante? O cargo que está no epitáfio do próprio Zhou Wen é “Fuqianhu (Sub-chefe de mil famílias) do posto da direita desta Guarnição (de Taicang), com o título vitalício de Wulüe Jiangjun (General da Estratégia Militar)”[13]. “Fuqianhu (Sub-chefe de mil famílias)” era uma patente média. “Lit., place (establishment) of 1,000 households: Battalion, a basic military unit normally comprising c. 1,000 men and headed by a Battalion Commander (chíen-hu). In Chin, the Chinese rendering (ch’ien-hu) of the Jurchen word meng-an, q.v. In Yuan, 10 such units, each with a Commander ranked 5a, constituted a Brigade (wan-hu fu) or Guard (wei). In Ming, 5 such units, each with a Commander ranked 5a, constituted a Guard (wei).”[14] Wulüe Jiangjun (General da Estratégia Militar)” era apenas um título honorífico. Do “Almirante Zhoiu Wen” o almirante foi inventado postumamente por Menzies. Pelas análises acima feitas, podemos chegar inequivocamente a uma conclusão: a circum-navegação de Zhou Wen, antes de Fernão de Magalhães, descrita em 4 capítulos inteiros por Menzies é uma pura ficção, que silenciou a verdade dos factos, conhecidos dele.

O Senhor Menzies anda a apregoar aos quatro ventos a dizer que tem levado 14 anos a estudar a história das expedições marítimas de Zheng He, em que visitou mais de 120 países e mais de 900 museus e bibliotecas, mas de todas as “provas” apresentadas por ele, lamentavelmente, não há nenhuma que possa resistir à mínima crítica académica.

É muito difícil, mesmo impossível de definir o género do livro de Menzies. Sendo ficção científica, tem notas e bibliografa. Considerando-o com um ensaio “histórico”, é um disparate dos mais desvairados.

Em termos das ciências naturais, pode haver descobertas surpreendentes, como tem acontecido ao longo da história da Humanidade, mas nas áreas das ciências sociais não aconteceu nem acontecerá o mesmo. Evidentemente, o Senhor Menzies carece de formação necessária para aquilo em que tenta brilhar-se e surpreender o Mundo. O mais grave é que ele parece não perceber as diferenças entre os factos, a ficção e a fabricação, ou as apaga, com interpretações escandalosamente arbitrárias, a favor da sua “teorização”, com que tenta tirar glórias a Cristóvão Colombo, Vasco da Gama e Fernão de Magalhães.

É um pouco injusto que os “devaneios” de Menzies tenham mais “êxito” que todos aqueles que têm estudado honestamente sobre as expedições do Almirante Zheng He. Mas, certamente, a responsabilidade não é toda do Senhor Menzies. Demos palavra outra vez a Louise Levathes: “His promotional machine is nothing less than extraordinary”.

Conclusão: Estamos perante o maior fraude editorial no início deste milénio. “1421-O Ano em Que a China Descobriu o Mundo” constitui um atentado contra a inteligência e a dignidade da comunidade científica internacional.

Aparentemente, o amador autor tenta trazer glórias aos antigos navegadores chineses, contra tudo o que é de conhecimento comum, quanto ás descobertas marítimas ibéricas, numa tentativa oportunista de passar por um herói da anticultura, a favor da China. No entanto, se se vier a descobrir que tudo isto não passa duma “fabricação” sensacionalista, com fins pecuniários, como não pode deixar de ser, o Senhor Menzies passará simplesmente de “mundialmente” conhecido a “tristemente famoso”. Quem perde é a história da China e a própria China. O Senhor Menzies, com as suas mais repudiáveis “fabricações”, não está a divulgar Zheng He, antes está a envolvê-lo num escândalo que acabará por ser denunciado, disso devem ter plena consciência alguns investigadores chineses tanto profissionais como amadores que fazem coro com o Senhor Menzies, fornecendo-lhe informações de fontes chinesas, fragmentadas e descontextualizadas, que lhe servem logo de mais “inspirações” para mais novas “descobertas” e “teorias” que roubem dinheiro e tempo aos curiosos por este Mundo fora.


[1] Manuel Luciano da Silva, A descoberta da América pelos chineses é uma chinesice!  www.apol.net/dightonrock/adescobertadaaamericapeloschines.htm

[2]www.salon.com/books/feature/2003/01/07/menzies/index.html

[3] Idem.

[4] Idem.

[5] Ming-Yang Su, Meng Xisi Zhu 1421 Zhongguo Faxian Shijie Zhongwai Pinglunji (Críticas Mundiais sobre 1421 - O Ano em Que a China Descobriu o Mundo, de autoria de Gavin Menzies), edição do compilador, Taiwan, Outubro de 2003. Nesta colectânea onde se reúnem críticas ocidentais, da China Continental, Taiwan, Macau e Hong Kong, estão publicados 5 trabalhos nossos, de parceria com o Dr. Wu Zhiliang, em análise e resposta das “teorias” de Menzies e de alguns apoiantes chineses oportunistas, profissionais e amadores, à luz de fontes chinesas e portuguesas. O Dr. Ming-Yang Su está a escrever em inglês um livro intitulado “The Seven Grand Expeditions of Zheng He: Facts, Fictions and Fabrications”, cuja publicação está prevista para fins deste ano.

[6] António Carvalho, Este livro tem um dramático impacte na vossa história,
 http://dn.sapo.pt/noticia/noticia.asp?CodNoticia=153297&codEdicao=1083&CodAreaNoticia=13. 
Oportunamente, analisaremos a desmentir as entrevistas recentemente dadas pelo Senhor Menzies em Lisboa, Hong Kong e Yunnan, terra natal de Zheng He.

[7] www.epochtimes.com.tw/newspage.asp?catid=16&newsid=121929

[8] Jin Guo Ping, 1459 Nian Maoluo Shijie Ditu Kaoshu (Acerca do Mapa-múndi de Frai Mauro, de 1549), in Zheng He Yanjiu yu Huodong Jianxun (Boletim de Estudos sobre Zheng He), Direcção de Ming-Yang Su e Chen Xinxiong, Universidade Nacional de Oceânia de Taiwan, nº 4, 20 de Abril de 2002, pp. 6-8. Uma versão ampliada veio a ser publicada em Jin Guo Ping e Wu Zhiliang, 1421 Nian Zhongguo Faxian Shijie zhong Putaoya Shiyuan zhi Fenxi (Análises críticas de fontes portuguesas de 1421 Year China Discovered the World), in Guo Shizimen (Abrindo as Portas do Cerco), Macau, Associação de Educação de Adultos, 2004, pp.333-356.

[9] Atlas composé de mappemondes, de portulans et de cartes hydrographiques et historiques... [ Material cartográfico ] / du Vicomte de Santarém ; introd. Helen Wallis and A. H. Sijmons, Amsterdam : Rudolf Muller 1985, Edição facsimilada da edição de Paris: Thunot, 1849.

[10] Para os detalhes, cf. Wu Luming, Zhou Wen Fufu Muzhiming Kaozheng yu Yanjiu (Estudos sobre os epitáfios do casal Zhou Wen), in Zheng He Xiaxiyang Yanjiu Lunwenji (Antologia de estudos sobre as Expedições Marítimas ao Oeste de Zheng He), Beijing, 1985, vol. II, pp. 70-82.

[11] Idem, p. 82.

[12] Idem, p. 80.

[13] Idem, ibidem.

[14] Charles O. Hucker, A dictionary of official titles in Imperial China, SMC Publishing INC. Taipei , 1995, p. 153.