MATARAM
O INFANTE D. HENRIQUE!
Há 2.345 anos,
Aristóteles, o aluno mais famoso de Platão, começou a sua Escola de Filosofia,
num jardim chamado "Lyceum" e daqui nasceu o nome Liceu que se usa
pelo mundo fora. Hoje não existem nenhuns
vestígios do "Lyceum de Aristóteles", mas ninguém duvida da sua
existência.
Há 580 anos, em
1418, o Infante Dom Henrique, que
foi Duque de Viseu,
Administrador da Ordem de Cristo e Governador do Algarve,
fundou a Escola de Navegação em Sagres,
ao sul de Portugal. Ainda hoje existem os edifícios da Escola Náutica
e a gigantesca Rosa dos
Ventos, no Promontório de Sagres,
a confirmar, irrefutavelmente, que a Escola Náutica de Sagres existiu.
O Infante D.
Henrique foi a figura portuguesa que mais influenciou os destinos da história
gloriosa de Portugal. A Escola de Navegação em Sagres tornou-se o Centro Científico
do mundo do século XV. Foi na Escola de Sagres que se estudou profundamente a
navegação por meio da Astronomia (Estrela Polar e o Cruzeiro do Sul),
as correntes marítimas do Atlântico e os ventos dominantes,
(no Norte--> no sentido dos ponteiros do relógio ; no Sul --> contra relógio) e se impulsionou ao mais alto
nível a cartografia portuguesa.
A
MINHA LUA DE MEL
A minha noiva
nasceu em Santana de Cambas, concelho de Mértola, distrito de Beja.
Portanto é alentejana. Ambos os pais dela
eram professores de instrução primária e ela
também tirou o mesmo curso
na Escola do Magistério Primário de Faro. Porque o pai era oriundo do
norte de Portugal ela veio para o
norte ensinar e eu lancei-lhe o anzol e casámos
na Sé do Porto, em 17 de Setembro de 1960.
Como já naquele
tempo eu me interessava pelo estudo dos descobrimentos
portugueses, concordamos em passar a nossa lua de mel no Algarve.
Já lá vão
38 anos! Mas que enorme diferença existe agora no Algarve! Basta dizer
que naquela altura só havia, em todo o Algarve, apenas
dois hotéis, um na cidade
de Faro e outro em
Portimão.
A minha noiva
tinha-me dito maravilhas do Algarve, do grande contraste que existia com o norte,
mas eu também quis, juntar
o útil ao agradável, e verificar os sete castelos algarvios que existem na
Bandeira de Portugal, ver o Castelo de Castro Marim, primeira sede da Ordem de
Cristo, assim com Tavira, naturalidade dos Corte Reais,
Lagos, donde saiu Gil Eanes e claro o Promontório de Sagres.
Cumprimos à risca o nosso plano e valeu
a pena!
A paisagem
algarvia, as praias, as vilas e
cidades eram
naquele tempo um sossego e de uma
paz impressionantes! Nas estradas
viam-se mais burrinhos e carroças do que automóveis, muitos gerânios e
medronheiros nas bermas. Fiquei
com a impressão de que o Algarve
tinha estado a passar uma sesta muito
duradoira, de centenas de anos!
Confesso que
à medida que nos aproximávamos do Promontório de Sagres, sentia
uma grande expectativa, por
ir visitar pela primeira vez a Escola Náutica do Infante D. Henrique!
No nosso Peugeot
403, chegámos ao Promontório de Sagres, no dia
24 de Setembro de 1960. Não
estava lá ninguém. A porta da fortaleza encontrava-se aberta e não pagámos entrada.
O recinto da famosa Escola
do Infante D. Henrique tinha um aspecto abandonado
e de desprezo! No chão só se viam ervas daninhas, secas como se aquele
lugar sagrado fosse um
deserto! Todos os edifícios estavam fechados mesmo a capela de Nossa Senhora da
Graça!
O relógio de sol,
no patamar da fortaleza, não
mostrava as linhas horárias
porque estavam cobertas de
musgo. A gigante Rosa dos Ventos, em
frente ao edifício da Escola, apresentava os cordões de ferro partidos
e enferrujados e os pilares
de pedra que delineavam a circunferência
estavam adornados de ervas
bravas.
Era um lugar ermo!
Impressionante pela sua solidão e pelo seu tamanho grande!
Até aterrador!
Calculei o que
seria aquele promontório, tão
desolado durante o inverno, com
vento a zunir, acompanhado de raios e trovões, tornando as ondas do Atlântico
furiosas espargindo a sua água
salgada pelas paredes altas do cabo!
Que lugar medonho! Seria assim no tempo do Infante D. Henrique?
Seria ali que o Navegador passou
tempos infinitos a
contemplar aquele mar tenebroso
e pensar como é que os seus
marinheiros deviam fazer para conquistar e dominar aquele gigante mar
desconhecido!?
Fiquei
triste ao observar tamanha desolação por aquele lugar
que eu esperava estivesse protegido e acarinhado.
Não compreendi
porque é no princípio do mês de Setembro de 1960, o Governo Português tinha
realizado na Universidade de Lisboa,
o Primeiro Congresso Internacional dos Descobrimentos, com toda a pompa
e circunstância, só para bradar
aos céus e a todo o mundo a
grandiosidade dos descobrimentos portugueses, quando
afinal desprezava por completo o maior símbolo desses mesmos
descobrimentos que é o campo "académico" da Escola Náutica em Sagres!
MATARAM
O INFANTE D. HENRIQUE
Depois da nossa
lua de mel, já visitamos o Promontório
de Sagres onze vezes! Até algumas
vezes acompanhados dos nossos dois
filhos! A última vez
que lá fomos, foi no domingo, 20 de Setembro de 1998. Fomos acompanhados
por um grupo de cinquenta pessoas, membros da Associação Médica de
Profissionais de Saúde Luso-Americanos, da qual sou presidente
e que estávamos no sul de Portugal para participarmos na Quinta Convenção
Internacional Médica, nos Hospitais de Faro, Beja e Évora.
Coordenando a
parte médica com a turística o nosso grupo
quis visitar também a
Escola de Sagres. A nossa guia em Lagos fez explicações entusiásticas em
frente à Estátua de Gil Eanes,
como sendo nativo de Lagos e que
afinal passou o Cabo Bojador, destruindo para sempre
a lenda do "Mar Tenebroso". Depois em frente à Estátua do
Infante D. Henrique, também em
Lagos, relatou, com muita
genica, o aspecto científico
da Escola fundada pelo Infante D. Henrique,
de tal maneira que quando todos entramos na camioneta sentimos um
crescendo de entusiasmo e
curiosidade para vermos realmente essa instituição centenária
que tanto impacto
teve na História do Mundo.
A primeira coisa
que notei quando chegamos à
fortaleza de Sagres foi de que a
entrada estava vedada.
Tivemos que pagar bilhete. Bom, pensei, parece que isto já tem
mais ordem. Uma vez dentro
do recinto da fortaleza, parámos em frente
à grande Rosa dos Ventos.
Eu tinha pedido à guia para ser eu a explicar em inglês ao meus colegas
qual era o seu significado e a relação
que tinha com a Escola dos Descobrimentos. Posto isto, em menos de três
minutos, estávamos todos a caminho da entrada do edifício
que é considerado a Escola propriamente dita. Íamos com grande expectativa de
vermos coisas e instrumentos do tempo do Infante D. Henrique e dos seus
marinheiros, todos relacionados com a epopeia dos descobrimentos!
Mas o
impossível, o inacreditável é que nos recebeu dentro da Escola
Náutica! Fomos roubados!
Velhacaria! A primeira vez que
paguei entrada e não nos mostraram ABSOLUTAMENTE
NADA de descobrimentos!
Sabem o que é que
tinham dentro do edifício? Uma exposição fotográfica de vários arquitectos
portugueses. (E eu não tenho nada
contra os arquitectos, pois o nosso filho mais velho é
arquitecto.)
Não havia
ABSOLUTAMENTE NADA exposto dentro
da Escola Náutica
que estivesse relacionado com descobrimentos. Nem um mapa antigo, nem um
astrolabo, nem uma bússola, nem um simples modelo duma caravela, nem uma
simples corda, nem
sequer uma âncora! Que
situação lastimosa! Que coisa
horrível! Ficamos todos desolados e desapontados!
Não se compreende
esta situação uma vez que
este ano Portugal está tão
empenhado em glorificar os descobrimentos, com ênfase especial
no descobrimento do caminho marítimo para a India que foi
afinal o sonho, o objectivo principal
do Infante D. Henrique!
Esta
é uma situação deplorável de ludíbrio, de engano, de vender gato por lebre,
aos visitantes. Como ficariam as pessoas se ao visitarem o Museu dos
Astronautas Americanos no Cabo Kennedy, em
vez de foguetões, cápsulas,
fardamentos dos astronautas, fotografias
espaciais, encontrassem lá
uma exposição fotográfica dos arranha-céus de Nova Iorque, de Chicago
e de Washington! ?
Na Escola Náutica de Sagres, nem sequer lá tinham uma simples pintura do Infante D. Henrique! Mataram-no! Assassinaram o Infante! Malvados irresponsáveis! Haveis de ter um lindo enterro! E quando morrerdes, ireis todos direitinhos pró inferno! Amén! Assim seja!