MATARAM O INFANTE D. HENRIQUE!
Por Manuel Luciano da Silva, Médico.

  Há 2.395 anos,  o grande filósofo grego Platão fundou, em Atenas, a sua Escola de Filosofia chamada "Academia" porque ele dava as aulas, ao ar livre, num jardim chamado "Academus". Os seus alunos chamavam-se "peripatéticos"  porque  caminhavam à volta do jardim. Hoje não existem vestígios nenhuns da Escola de Platão, mas ninguém duvida que ela existiu.

Há 2.345 anos, Aristóteles, o aluno mais famoso de Platão, começou a sua Escola de Filosofia, num jardim chamado "Lyceum" e daqui nasceu o nome Liceu que se usa pelo mundo fora. Hoje não existem  nenhuns vestígios do "Lyceum de Aristóteles", mas ninguém duvida da sua existência.

Há 580 anos, em 1418, o Infante Dom Henrique,  que  foi  Duque de Viseu, Administrador da Ordem de Cristo e Governador do Algarve,  fundou a Escola de Navegação em Sagres,  ao sul de Portugal. Ainda hoje existem os edifícios da Escola Náutica  e a gigantesca  Rosa dos Ventos,  no Promontório de Sagres, a confirmar, irrefutavelmente, que a Escola Náutica de Sagres existiu.

O Infante D. Henrique foi a figura portuguesa que mais influenciou os destinos da história gloriosa de Portugal. A Escola de Navegação em Sagres tornou-se o Centro Científico do mundo do século XV. Foi na Escola de Sagres que se estudou profundamente a navegação por meio da Astronomia (Estrela Polar e o Cruzeiro do Sul),  as correntes marítimas do Atlântico e os ventos dominantes,  (no Norte--> no sentido dos ponteiros do relógio ;  no Sul --> contra relógio) e se impulsionou ao mais alto nível a cartografia portuguesa.

A MINHA LUA DE MEL

A minha noiva nasceu em Santana de Cambas, concelho de Mértola, distrito de Beja.  Portanto é alentejana. Ambos os pais dela  eram professores de instrução primária e ela  também  tirou o mesmo curso  na Escola do Magistério Primário de Faro. Porque o pai era oriundo do norte de Portugal  ela veio para o norte ensinar e eu lancei-lhe o anzol e casámos  na Sé do Porto,  em 17 de Setembro de 1960.

Como já naquele tempo eu me interessava pelo estudo dos  descobrimentos portugueses, concordamos em passar a nossa lua de mel no Algarve.

Já lá vão  38 anos! Mas que enorme diferença existe agora no Algarve! Basta dizer que naquela altura só havia, em todo o Algarve, apenas  dois hotéis, um  na cidade de  Faro  e outro em Portimão.

A minha noiva tinha-me dito maravilhas do Algarve, do grande contraste que existia com o norte,  mas eu também quis,   juntar o útil ao agradável, e verificar os sete castelos algarvios que existem na Bandeira de Portugal, ver o Castelo de Castro Marim, primeira sede da Ordem de Cristo, assim com Tavira, naturalidade dos Corte Reais,  Lagos, donde saiu Gil Eanes e claro o Promontório de Sagres.  Cumprimos à risca o nosso plano e  valeu a pena!

A paisagem algarvia, as praias,  as vilas e cidades  eram  naquele tempo um sossego e de  uma paz impressionantes!  Nas estradas viam-se mais burrinhos e carroças do que automóveis, muitos gerânios e medronheiros nas bermas.    Fiquei com a impressão  de que o Algarve tinha estado a passar uma sesta  muito duradoira, de centenas de anos! 

Confesso que  à medida que nos aproximávamos do Promontório de Sagres, sentia  uma grande  expectativa, por  ir visitar pela primeira vez a Escola Náutica do Infante D. Henrique!

No nosso Peugeot 403, chegámos ao Promontório de Sagres, no dia  24 de Setembro de 1960.  Não estava lá ninguém. A porta da fortaleza encontrava-se  aberta e não pagámos entrada.   O  recinto da famosa Escola do Infante D. Henrique tinha um aspecto  abandonado  e de desprezo!  No chão só se viam ervas daninhas,   secas como se aquele  lugar sagrado  fosse um deserto! Todos os edifícios estavam fechados mesmo a capela de Nossa Senhora da Graça!

O relógio de sol,  no patamar da fortaleza,  não  mostrava as linhas  horárias  porque estavam cobertas  de  musgo. A gigante Rosa dos Ventos,  em frente ao edifício da Escola, apresentava os cordões de ferro partidos  e enferrujados e os  pilares de pedra  que delineavam a circunferência  estavam adornados  de ervas bravas.

Era um lugar ermo! Impressionante pela sua solidão e pelo seu tamanho grande!  Até aterrador!

Calculei o que seria aquele promontório,  tão desolado durante o inverno,  com vento a zunir, acompanhado de raios e trovões, tornando as ondas do Atlântico  furiosas espargindo  a sua água salgada pelas paredes altas do cabo!    Que lugar medonho! Seria assim no tempo do Infante D. Henrique?  Seria ali que o Navegador passou   tempos infinitos  a contemplar  aquele mar tenebroso  e pensar como é que os  seus marinheiros deviam fazer para conquistar e dominar aquele gigante mar desconhecido!?

 Fiquei triste ao observar tamanha desolação por aquele lugar  que eu esperava estivesse protegido e acarinhado.

Não compreendi porque é no princípio do mês de Setembro de 1960, o Governo Português tinha realizado  na Universidade de Lisboa, o Primeiro Congresso Internacional dos Descobrimentos,  com  toda a pompa e circunstância,  só para bradar aos  céus e a todo o mundo a grandiosidade dos descobrimentos portugueses, quando  afinal desprezava por completo o maior símbolo desses mesmos descobrimentos que é o campo "académico"    da Escola Náutica em Sagres!

MATARAM O INFANTE D. HENRIQUE

Depois da nossa lua de mel,  já visitamos o Promontório de Sagres onze vezes!  Até algumas vezes  acompanhados dos nossos dois filhos!  A última vez   que lá fomos,  foi no domingo, 20 de Setembro de 1998. Fomos acompanhados por um grupo de cinquenta pessoas, membros da Associação Médica de Profissionais de Saúde Luso-Americanos, da qual sou presidente  e que estávamos no sul de Portugal para participarmos na Quinta Convenção Internacional Médica, nos Hospitais de Faro, Beja e Évora.  

Coordenando a parte médica com a turística o nosso grupo  quis visitar também  a Escola de Sagres. A nossa guia em Lagos fez explicações entusiásticas em frente à  Estátua de Gil Eanes, como sendo  nativo de Lagos e que afinal passou o Cabo Bojador, destruindo para sempre  a lenda do "Mar Tenebroso". Depois em frente à Estátua do Infante D. Henrique,  também em Lagos, relatou,  com muita  genica,  o aspecto científico da Escola fundada pelo Infante D. Henrique,  de tal maneira que quando todos entramos na camioneta sentimos um crescendo de entusiasmo  e curiosidade para vermos realmente essa instituição centenária  que  tanto impacto  teve na História do Mundo.

A primeira coisa que notei quando chegamos  à fortaleza de Sagres foi de que  a entrada estava  vedada.  Tivemos que pagar bilhete. Bom, pensei, parece que isto já tem  mais ordem. Uma vez  dentro do recinto da fortaleza, parámos em frente  à grande Rosa dos Ventos.    Eu tinha pedido à guia para ser eu a explicar em inglês ao meus colegas qual era o seu significado  e a relação  que tinha com a Escola dos Descobrimentos. Posto isto, em menos de três  minutos,  estávamos todos a caminho da entrada do edifício  que é considerado  a Escola propriamente dita. Íamos  com grande expectativa de  vermos coisas e instrumentos do tempo do Infante D. Henrique e dos seus marinheiros, todos relacionados com a epopeia dos descobrimentos!

Mas o  impossível, o inacreditável é que nos recebeu dentro da Escola  Náutica!  Fomos roubados! Velhacaria!  A primeira vez que paguei entrada e não nos mostraram  ABSOLUTAMENTE  NADA  de descobrimentos!

Sabem o que é que tinham dentro do edifício? Uma exposição fotográfica de vários arquitectos portugueses.  (E eu não tenho nada contra os arquitectos, pois o nosso filho mais velho é   arquitecto.)

Não havia ABSOLUTAMENTE  NADA exposto dentro da Escola  Náutica  que estivesse relacionado com descobrimentos. Nem um mapa antigo, nem um astrolabo, nem uma bússola, nem um simples modelo duma caravela, nem uma simples  corda, nem  sequer uma âncora!  Que situação lastimosa!  Que coisa horrível! Ficamos todos desolados e desapontados!

Não se compreende  esta situação uma vez  que  este ano Portugal está  tão empenhado em glorificar os descobrimentos, com ênfase especial  no descobrimento do caminho marítimo para a India que foi   afinal o sonho, o objectivo principal  do Infante D. Henrique!

Esta  é uma situação  deplorável de ludíbrio, de engano, de vender gato por lebre,  aos visitantes. Como ficariam as pessoas se ao visitarem o Museu dos Astronautas Americanos no Cabo Kennedy,  em vez  de foguetões, cápsulas, fardamentos dos astronautas,  fotografias espaciais, encontrassem    uma exposição fotográfica dos arranha-céus de Nova Iorque, de Chicago  e de Washington! ?

Na Escola Náutica de Sagres, nem sequer lá tinham  uma simples pintura do Infante D. Henrique!  Mataram-no!  Assassinaram o Infante!  Malvados irresponsáveis!  Haveis de ter um lindo enterro!  E quando morrerdes,  ireis  todos direitinhos pró  inferno!   Amén! Assim seja!

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