"MUITOS CÃES AO MESMO OSSO!"
Por Manuel Maria Duarte

( A selecção  em Portugal dos candidatos às listas dos vários partidos faz-se por um sistema feudalista... como este autor explica.  (a) Luciano da Silva) 


Não é preciso saber ler nem escrever para conhecer este dito. É tão português como todos os que lá nasceram. E também é conhecido por muitos dos que, nascidos neste País, foram criados por familiares ou alguém que falasse  a língua de Camões.

Ocorreu-me devido às eleições: as que se realizaram, aqui, e as que ocorrerão, em Portugal, dia 20 do próximo Fevereiro.

Toda a gente sabe que há os mais variados sistemas de governo e que isso implica diferenças, por vezes substanciais, em muitos aspectos. Sem pretender ser exaustivo, falarei, apenas, sobre o que se passa, por aqui, e o que acontece, em Portugal. Muito ao de leve, claro. 

Enquanto neste País concorre quem quer, no da nossa origem concorre quem os agentes partidários entendem. Melhor dizendo: aqui, o concorrer ou não depende do próprio, enquanto que por lá depende dos dirigentes distritais e do "quase" dono do partido, que tem a sua quota reservada, para  quem muito bem entender.

Aqui, vota-se em quem se quer; em Portugal, vota-se em quem os outros escolheram. Aqui, há liberdade de escolha; lá, há liberdade de votar em quem os outros votaram. Esta é, apenas, a PEQUENA diferença, entre um e outro sistema. Num, aparentemente, há liberdade absoluta; no outro, há liberdade condicionada à vontade dos "mandões".E ainda há quem diga, com um descaramento impressionante, que a democracia portuguesa, com meia-dúzia de dias de existência, é mais "livre" do que a estadunidense!


Coitados...!Ah! E a disciplina partidária? No rectângulo, "à beira-mar plantado", quem, na Assembleia da República, tiver a ousadia de votar contra o parecer do seu partido...na próxima ficará de fora das listas. Aquilo é uma espécie de "tudo ou nada". Aqui, o Presidente já anda preocupado com os congressitas das duas Casas, embora a maioria seja republicana, em ambas! Quer dizer, tanto republicanos, como democratas, votam a favor ou contra, conforme entendem ser a melhor opção.

Os congressitas assumem compromissos, perante o eleitorado dos Estados pelos quais concorrem e têm de os honrar. Caso contrário, podem dizer adeus à reeleição. E isso leva-os a cumprir o prometido, não alinhando em disciplinas parlamentares, pois que estariam a prejudicar o seu futuro e, mais ainda, a passar por "falhos-de-palavra".

Ora, em Portugal, por razões as mais variadas, entre as quais não falta o interesse monetário (ganha-se bem, como deputado), os interessados chegam a meter cunhas e a lutar duro por um lugar nas listas, mesmo que não seja do acordo dos dirigentes distritais, mas, antes, do chefe do partido, que, como disse antes, tem uma boa percentagem de lugares à sua disposição, onde poderá arrumar os seus amigos e conhecidos. E é por isso que encimo este escrito com "MUITOS CÃES AO MESMO OSSO". Até porque as lutas intrapartidárias são, muitas vezes, mais renhidas do que as interpartidárias. Porque com as primeiras há alguma coisa a ver e com as segundas só os filiados são permitidos de "botar opinião".


    Afora a possibilidade remota dos afeiçoados serem consultados sobre algumas emendas aos regulamentos partidários,  tudo continuará na mesma, já que, assim, tal como está, temos sempre "os mesmos e mais forte". E, de qualquer maneira, "eles" lá vão figurando, até ao dia em que seja possível chegar a sua vez. Porque, alterado o regulamento, a "vassourada" correria com os instalados permanentes e mandá-los-ia "pregar para outra freguesia".

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