O
Natal na minha aldeia!
Por
Manuel Calado
Decano
dos Jornalistas na Nova Inglaterra
O Natal é um tempo diferente!
E a memória da gente gosta de esquadrinhar, de rebuscar, lá no fundo da
caixa, alguns bocadinhos que foram parte da nossa vivência passada . Recordar
é reviver . É passar de novo na pantalha da imaginação,
coisas que deixaram impressa a sua marca. Não se sabe porque umas coisas
ficaram e outras desapareceram. E as mais vivas são, precisamente, as
mais antigas. Não me recordo do que comi ontem ao almoço, mas se fechar
os olhos, posso ver com com nitidez, aquela véspera de
Natal em que chegou a nossa casa o Tio Francisco Pinhal.
O Tio Pinhal, era do Troviscal, terra de minha mãe, e aparecia lá por casa com
frequência. Andava de terra em terra, na sua missão de amolador de facas e
tesouras. Engatava pratos de faiança , frigideiras e alguidares de barro,
consertava guarda chuvas e fazia música. O Tio pinhal, além da tralha
que trazia, incluía sempre a sua concertina . Estivera em Espanha, correra seca
e meca e quem o queria ver nas suas
sete quintas, era mandá-lo tocar na "sanfona". Eu, com os meus seis
ou sete anitos, não sabia se o Tio Pinhal tocava alguma coisa de jeito . Só
sei que gostava de ouvir o som
harmonioso da sua "gaita", que ele às vezes acompanhava com umas canções,
numa linguagem que eu não percebia. Eram cantigas de Espanha, dizia ele.
O Tio pinhal tratava a todos no diminutivo. Minha mãe era a Felicidadesinha, eu
era o Manelzinho. E como todos nós possuímos a capacidade de nos lembrarmos de
tudo de bom que nos fizeram em criança, nunca esqueci os cinco tostões que o
Tio Pinhal me metia no bolso, às vezes à força, para eu ir comprar figos
passados. Meu pai, não sei porquê, não simpatizava muito com as
sanfonadelas musicais do Tio Francisco, pois quando ele aparecia, era para
ficar por lá dois ou três dias.
A nossa casa tinha duas cozinhas, a chamada cozinha nova e a cozinha velha, ou
casa do forno. Era lá que no inverno os pobres vinham aquecer-se e
enxugar as roupas. Parece que ninguém mais em Soza dava dormida a pobres de
pedir. Quando o tempo era mau juntavam-se vários, que dormiam no palheiro, no
celeiro ou no sótão das bandeiras. Minha mãe, com aquela paciência e bondade
que Deus lhe deu, lá os acondicionava, com esteiras, mantas e sacos.
Tio Francisco o
“Rachador”
Outro hóspede habitual, era o tio Francisco "rachador".
Logo que chegava, o Tio Francisco pegava no machado, e enquanto
houvesse lenha para rachar, não mais ia embora. Às vezes ficava às
semanas. Muito gostava aquela criatura de rachar lenha. Trazia com ele um
machado de lâmina larga, daqueles usados pelos antigos serradores de Madeira. O
seu machado, era toda a sua fortuna. Para ele, o machado, era tão importante
como a velha concertina espanhola do Tio Pinhal.
Enquanto meu pai, sentado ao lume, na cozinha nova, ia fazendo garatujas
na cinza produzida por um grosso toro de eucalipto, que ali ficava em
brasa por muitas horas, minha mãe, na cozinha velha, ia cozinhando para gentes
e animais, metendo couves batatas, abóboras e nabos, num enorme panelão de
ferro fundido, destinado ao porco da seba que
era tratado com carinho, para chegar, às vezes, às l8 e 20 arrobas de
toucinho. E ao mesmo tempo,os pobres, eram os seus companheiros de conversa. Um dia, vi-a lavar os pés de
um pobre paralítico, que não podia dobrar-se, e lavar-lhe a cara, com um pedaço
de pano.
Um dia perguntei ao Tio Francisco rachador, se tinha família.
Ele
contou-me que fora casado, mas que a mulher o pusera fora de
casa. "E eu só pude salvar o meu machado". Esta confissão
ficou-me gravada para sempre na memória. "Só pude salvar o meu machado".
Pensando no caso, agora dou-me ao devaneio de julgar que o pobre
homem, tinha mais amor ao machado do que à
mulher , e isso teria sido a razão do seu drama de homem só e sem
carinho familiar.
Recordo que, por ocasião de um Natal em que os Franciscos da
concertina e do machado, vieram assentar arraiais em nossa casa, iam andando à
tapona. Estávamos à mesa, na cozinha nova, quando ouvimos alarido
e altas vozes na casa do forno. Minha mãe foi a correr, e viu
o tio Francisco da concertina, com uma acha na mão, disposto a ir
ao pêlo do seu colega do machado. Dizia o da concertina, que o do machado
havia tirado uma filhós que lhe pertencia, que ele era um comedor e mal
encarado e outras
coisas feias.
Em face de tão importante controvérsia entre os Franciscos, minha mãe, com
aquela sua paciência de Job, acalmou os dois pobres velhos, foi buscar mais uma
filhós para o da concertina, e os anjos do Natal reinaram , sonoros e felizes,
no lar dos Calados, até à missa do galo. E um rapazinho chamado Manuel, que
assistiu a tudo aquilo, gravou, na sua memória ainda em formação,
todos estes acontecimentos simples da sua vivência de menino. E
recorda-os agora, neste Natal longínquo, no tempo e no espaço, como um
presente Daquele que tudo sabe e tudo pode, e trouxe até mim , estes
pedacitos de memória, que ajudaram a fazer aquilo que ainda
sou.