O dia mais triste da minha vida!
Por Manuel Luciano da Silva, Médico
28 de Dezembro de 2004

Ainda hoje --  Dezembro 28 de 2004 -- considero o dia 9 de Janeiro  de 1946, o dia mais triste da minha vida! Foi o dia em que saí de Lisboa, Portugal, num navio  americano do tipo “Liberty” a caminho da grande cidade de  Nova Iorque. 

Nunca mais me posso esquecer daquela manhã cinzenta, fria, cheia de nevoeiro na baixa de Lisboa! Os prédios mostravam as suas paredes externas velhas e com manchas pardas  grandes e  até a água do  rio Tejo não era azul,  mas sim  escura! Os vários  navios atracados na  doca de Alcântara  parece que pertenciam todos á mesma irmandade,  pois mostravam  os seus cascos  todos negros!

Foi a minha mãe que nos acompanhou à nossa despedida – a mim e ao meu irmão, Hermínio  – para nos tornarmos emigrantes! Custou-me muito abraçar a minha querida mãe e deixá-la em terra, para dois meses mais tarde seguir a mesma rota noutro navio. É assim o fado dos emigrantes!

Eu de maneira nenhuma queria vir para a América. Queria seguir o meu sonho de entrar na Universidade de Coimbra e tirar o curso de médico. No liceu nunca gostei de aprender línguas estrangeiras  e muito menos o inglês.  Talvez por ter sido criado na aldeia, nos campos com animais domésticos, como bois, vacas, ovelhas e galinhas, nunca gostei de filmes de cowboys que mostravam sempre  pancadaria e murros e   até mortes com tiros de revolver ou espingarda. Muita violência, não era, nem é, para o meu feitio.

Por aquilo que tinha lido sobre a sociedade americana, já naquele tempo, me parecia muito violenta para o meu género.   E o meu prognóstico saiu certo.    

Quando o meu pai deu ordem para a nossa família vir para a América para vivermos todos juntos eu escrevi-lhe para me deixar ficar em Portugal para continuar os meus estudos. Mas o meu pai mandou-me um ultimato: “Ou vens ou então governa-te aí sozinho!”  O meu pai tinha razão, porque devido à depressão na América e depois á Segunda  Guerra Mundial a nossa família esteve sempre separada até  eu ter dezoito anos! E assim com conselho dos meus tios solteiros, irmãos de minha mãe, juntei a minha coragem para ser emigrante. Se naquele tempo a decisão de meu pai me pareceu incorrecta, hoje tenho que lhe prestar a minha homenagem, porque com o decorrer dos anos decidi, por minha livre vontade, viver e acabar os meus dias na América.

A travessia do Atlântico foi para mim tenebrosa. De Lisboa a Nova Iorque o navio demorou 16 dias!  Eu tinha lido, nos jornais em Portugal  que havia ainda  abundância de minas no Atlântico que afundavam os navios… E o nosso barco fartava-se de balançar. O mar tinha dias muito bravos de tal maneira que a hélice ficava exposta ao ar causando ainda mais solavancos em todo o navio…  O cheiro a   óleo com a  comida diferente a bordo causaram-me   náuseas de tal maneira  que vários  dias gritei a “ São Gregório” e  só ao fim de uma semana  é que  pude  conservar as minhas  refeições.

O navio era de carga,  só transportava uma dúzia de passageiros. Éramos 11 rapazes, todos com menos de 18 anos e um homem dos seus cinquentas anos que se ia também juntar à família.  

Cinco dias antes da nossa chegada ao porto de Nova Iorque fomos informados que por causa duma tempestade na parte norte dos Estados Unidos o nosso  barco teria que rumar ao sul até quase perto das Bermudas para depois fazer um arco em direcção  á grande cidade.  Esta foi a razão porque a nossa viagem demorou os tais 16 dias!

Chegada a  Nova Iorque

Nunca mais me posso esquecer da nossa chegada à entrada da Baía de Nova Iorque. Toda a rapaziada se tinha levantado às duas horas da manhã porque queríamos ver as luzes da grande cidade e observarmos  os famosos arranha-céus!   Grande desilusão!  O grande porto de Nova Iorque estava enevoado,  frio e não conseguimos ver nem a Estátua da Liberdade nem os arranha-céus da grande metrópole! 

Pelo contrário só víamos pedaços de gelo a flutuar nas águas da grande baía, onde poisavam  as gaivotas! A temperatura era de 27 graus Fahrenheit ou 3 graus negativos centígrados.   

O nosso “transatlântico” não pode atracar porque todas as docas estavam cheias de navios regressados da Segunda  Grande Guerra.  Por  esta razão  os doze passageiros foram colocados num lancha  da marinha americana  e desembarcamos todos  na Doca Número  Um, na  Ilha de Manhattan, em Nova Iorque propriamente dita, onde começa a famosa avenida chamada  Broadway, que se estende até à capital do Estado, Albany,  a 250 milhas de distância.    Não desembarcamos na Ellis Island como era costume acontecer aos emigrantes regulares.   Depois vim a saber que a razão foi devido a termos dois passaportes  um português e outro  americano. Quando eu e meu irmão nascemos o nosso pai já era cidadão americano. Por  isso nós éramos  cidadãos americanos desde o nosso nascimento, embora tivéssemos nascido em Portugal.  Ficamos surpreendidos quando a polícia da Alfândega  ficou com os nossos passaportes americanos até nós atingirmos a maioridade e depois escolhermos se queríamos ou não continuar a ser cidadãos americanos. Isto aconteceu depois de completarmos os 21 anos, porque naquela altura esta era a idade de maturidade e não aos 18 anos como é agora.

Eu trazia comigo o meu violino, o meu bandolim e uma boa colectânea de músicas populares, mas fiquei muito desapontado quando os guardas da Alfândega apreenderam as minhas músicas! Protestei e perguntei porquê. Fui então informado que as músicas tinham que ser examinadas pelos serviços policiais americanos para verificarem se as mesmas não traziam nenhumas mensagens de espionagem! Claro que achei tudo isto muito estranho e desagradável. Só ao fim de seis meses é que me foram devolvidas.

Uma vez em terras americanas o meu irmão e eu tomamos um táxi a quem mostramos o nosso endereço  em Brooklyn, o maior  bairro da cidade de Nova Iorque. Observamos que devia ter nevado anteriormente porque havia ainda neve acumulada em vários lugares das ruas, misturada com lama negra, criando um aspecto muito desagradável  a quem  tinha chegado do meu querido Portugal, o qual  eu começava já  a sentir  muitíssimo  longe!...   Outra coisa que observamos e não compreendemos imediatamente, foi vermos que de vez em quando o tráfico parava repentinamente. Mas mesmo antes de chegarmos à entrada da  grande Ponte de Brooklyn, notamos que o tráfico era controlado por um sistema de luzes!  Os semáforos, coisa que não havia em Portugal!  Rimo-nos por notarmos  que  as cores das luzes de tráfico eram o vermelho e o verde, as cores de Portugal. Foi  a nossa primeira descoberta e a nossa primeira  rizada na América!

Ao atravessarmos a Ponte de Brooklyn  verificamos que era realmente uma obra gigantesca como não havia nada semelhante em Portugal.  Devido ao nevoeiro não chegamos a apreciar ainda o panorama dos arranha-céus. Pelo contrário começamos a observar o casario de Brooklyn, as casas com três andares, feitas de tijolo com escadas de ferro por fora, dos lado e nas frente sem sabermos para quê. Tudo cinzento, tudo escuro, com “montes de neve” misturada com lama e variado lixo em certas partes das ruas. Não eram cenas de boas vindas a esta terra desconhecida e para onde eu não queria vir! Sentia o meu coração triste e já tinha muita saudade da minha aldeia, dos meus amigos e da minha família em Portugal. Como poderia eu vencer nesta terra tão fria e tão feia? Apeteceu-me chorar.

Não disse uma palavra ao meu irmão, porque ele desejava  vir para a América.  Entretanto o táxi parou em frente ao 54 Cheever Street, em Brooklyn, Nova Iorque, onde o meu pai já tinha um segundo andar preparado para  a nossa vivenda. Tudo em ordem e limpinho. Mas o meu pai não estava. Era marinheiro. Chegou a ser piloto e capitão nos navios americanos. Encontrava-se na Europa  a transportar tropas americanas da França para a Inglaterra.  Entretanto nós iríamos comer ao Restaurante Silva, em 5 Hamilton Avenue,  até meu pai regressar à  nossa casa na  América!  Assim vivemos, eu e meu irmão, sem pai  e sem mãe,  pela primeira vez na nossa vida, durante  8  semanas.  Mas observamos que toda a gente estava a trabalhar. Portanto pedimos ao Sr. José Silva, dono do restaurante,  se nos podia arranjar um emprego. “Sim senhor, na fábrica onde trabalha  o meu filho mais velho e a minha nora, na rua 23 em Manhattan, na secção de limpeza da fábrica”. Foi assim onde ganhamos, meu irmão e eu os primeiros dólares na América. 

A descrição deste capítulo ficará para o próximo artigo que terá por titulo: “O meu primeiro trabalho na América”.  

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