“O Médico das Descobertas Fantásticas”
Por Cristina Fernandes Ferreira
Revista da
INATEL
"Associação Alegria no Trabalho"
Fundada há 71 anos
Revista “Tempo
Livre” Edição No. 175, Outubro 2006
Secção “Rota da Lusofonia”
Lusofonia
O
médico das descobertas fantásticas
Manuel
Luciano da Silva
Por
Cristina Fernandes
Ferreira
A casa onde nasceu na pequena aldeia de Cavião, concelho de Vale de Cambra, promete perpetuar a memória do seu percurso ímpar, onde as facetas de médico, historiador, comunicador e proeminente membro da comunidade portuguesa nos Estados Unidos ombrearam sempre.
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Dr. Luciano da Silva em frente à Replica da Pedra de Dighton no Pátio da Bibliotheca com o seu nome, quando foi a inauguração em 12 de Junho de 2001. |
Com 80 anos acabados de completar, Manuel Luciano da Silva afastou-se da prática médica que exerceu durante mais de quatro décadas, mas continua firme na actividade de “cientista” da história, investigando e defendendo teses polémicas como a de que Cristóvão Colombo era português.
Para Manuel Luciano da Silva, que há mais de 50 anos estuda as inscrições e a história da pedra de Dighton, em Rhode Island, não restam dúvidas de que os portugueses foram os primeiros europeus a criar uma colónia na Nova Inglaterra e que Cristóvão Colombo era português.
No livro “Portuguese Pilgrims and de Diqhton Rock”, publicado em 1971, Luciano da Silva defende que as inscrições portuguesas na pedra foram gravadas por Miguel Corte Real, em 1511, e sustenta a sua teoria com as descobertas no mesmo sentido feitas em 1918 pelo o chefe do departamento de psicologia da Universidade de Brown em Providence, o professor Delabarre, que identificou a data, o nome de Miguel Corte Real e um escudo português em forma de “V”.
Segundo Manuel Luciano da Silva, quem terá chegado à Terra Nova e à Nova Escócia foi o pai de Miguel, João Vaz Corte Real, em 1472, ou seja, 22 anos antes do contacto de Colombo com as ilhas da América Central.
Miguel Corte Real teria vindo em busca do irmão Gaspar em 1502, tendo deixando as marcas da sua presença na Nova Inglaterra. A fraca aceitação que esta tese tem tido entre a comunidade de investigadores e historiadores não preocupa, Manuel Luciano da Silva que depois de 80 anos volvidos sobre as descobertas do professor Delabarre não encontra qualquer dado que permita a refutação do que defende.
Em 1951, Joseph D. Fragoso da Universidade de Nova Iorque descobriu 3 cruzes da Ordem de Cristo e o Escudo Português em forma de “U” gravados na pedra.
O próprio Luciano da Silva, para reforçar a teoria portuguesa, diz ter encontrado uma quarta cruz de Cristo na pedra, em 1960. Dessa descoberta se apressou a dar a conhecer ao mundo no Primeiro Congresso Internacional da História dos Descobrimentos em Lisboa perante o cepticismo geral da plateia de historiadores e investigadores.
Para Luciano da Silva, o cepticismo tem origem na ignorância desses professores em interpretar as inscrições originais portuguesas na pedra e lamenta que nenhum historiador de Portugal tenha alguma vez analisado a pedra no local.
Igualmente controversa é a tese, também vertida em livro, de que Cristóvão Colombo era um judeu sefardita, 100 por cento português. Nas suas investigações sobre este tema, Manuel Luciano da Silva descartou todas as teorias conhecidas sobre a origem de Cristóvão Colon – erradamente conhecido como Colombo, diz – e começou tudo de novo.
Analisou a sigla do navegador, descobriu um monograma com as iniciais de Salvador Gonçalves Zarco, nascido em Cuba, Portugal, descobriu no Vaticano duas bulas papais de Alexandre VI, com o nome português do descobridor e verificou que Colombo deixou nas últimas 12 cartas que escreveu ao filho uma mensagem em judaico, e constatou que o emblema de armas do navegador tinha as quinas de Portugal.
Tratar da Saúde a Comunidade
Durante 41 anos, Manuel Luciano da Silva foi médico das comunidades portuguesas de Rhode Island (RI) e Massachusetts (MA) fazendo a ligação destas com o sistema de saúde norte-americano. Formado em Medicina pela Universidade de Coimbra e em Ciências Biológicas pela de Nova Iorque, quando chegou ao bairro de Brooklyn, em 1946, era um jovem desgostoso por ter sido obrigado a deixar Portugal. Ainda hoje considera o dia da partida para os Estados Unidos – 9 de Janeiro – como o mais triste da sua vida.
Com 19 anos, começou por trabalhar nas limpezas na fábrica Westinghouse Electric International Company e posteriormente como amanuense no consulado de Portugal em Nova Iorque. Trabalhando de dia e estudando à noite, fez um curso de inglês e obteve um bacharelato em Biologia. Era o único filho de emigrantes portugueses que frequentava a universidade.
Voltou a Portugal para concretizar o sonho de ser médico que o acompanhava desde os 12 anos e formou-se com media de 17 valores na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Regressou aos Estados Unidos onde estagiou no St. Luke’s Hospital em New Bedford, MA, e especializou-se em medicina interna na prestigiada Lahey Clinic em Boston. A integração na comunidade local e a guerra colonial que entretanto rebentara encarregaram-se de o manter afastado de Portugal.
A partir de 1963, trabalhou como médico associado do Centro Médico do condado de Bristol, RI, fez parte do corpo clínico do Roger Williams Medical Center, um dos hospitais filiados da Universidade de Brown e durante 21 anos foi director clínico do Rhode Island Veteran’s Home. Foi ainda médico chefe da União Portuguesa Continental, a maior organização portuguesa da Costa Leste dos Estados Unidos.
Em 1998, retirou-se da prática médica activa, mas continuou com os seus programas de rádio e televisão sobre saúde de que foi pioneiro ao promover informação médica na comunicação social numa linguagem simples e acessível a todos.
“Perguntar ao Médico” e “Tribuna Médica” foram alguns dos programas que animou, tendo igualmente promovido na comunicação social a sua herança portuguesa com programas como “Os portugueses na Nova Inglaterra”.
Centenas de conferências
A par da sua carreira médica e da sua actividade como historiador amador, Manuel Luciano da Silva publicou mais de uma dezena de textos quer sobre medicina quer sobre as suas descobertas históricas.
O livro “A electricidade do amor”, uma das suas primeiras obras publicadas, surgiu depois da constatação de que, tanto portugueses como americanos, desconheciam o “abc da sexualidade normal”.
No texto “As verdadeiras Antilhas: Terra Nova e Nova Escócia”, publicado em versão americana e portuguesa em 1987, o médico-historiador apresenta aquela que considera uma das suas maiores descobertas cartográficas. Tendo como referência a latitude da sua aldeia, a 40 graus norte, descobriu as linhas de latitude da Carta Náutica de 1424 que lhe permitiram concluir que as verdadeiras Antilhas são a Terra Nova, Nova Escócia e Ilha do Príncipe Eduardo, no Canadá, e não as ilhas existentes a duas mil milhas de distância ao Sul, no Mar das Caraíbas.
Foi com base nestes textos que proferiu em todo o mundo mais de 400 conferências em universidades, instituições e sociedades históricas. Toda esta actividade valeu-lhe igualmente distinções diversas nos Estados Unidos e em Portugal, onde foi agraciado com Ordem do Infante D. Henrique, depois de ter organizado o Congresso Internacional de Medicina na Nova Inglaterra, com a participação de médicos de língua portuguesa de todo o mundo.
As suas descobertas e o seu percurso ímpar, estão desde Junho de 2001 documentados na Biblioteca-Museu da Diáspora, instalada na casa que o viu nascer a 05 de Setembro de 1926, em Cavião, Vale de Cambra. É a nova menina dos olhos de Manuel Luciano da Silva que quer homenagear aqui a história dos emigrantes “feita com sangue, suor e lágrimas”.