O meu encontro com
João Gonçalves Zarco
Por Manuel Luciano da Silva,
Médico
Eu nasci no dia 5 de Setembro de 1926, às 5 horas da manhã, num domingo muito quente como dizia a minha mãe, na bonita aldeia de Cavião, Vale de Cambra, no norte de Portugal. Da nossa casa que estava virada para o Atlântico, na mesma latitude de Ovar e Furadouro, (40 graus 50 minutos latitude norte), víamos os grandes navios ao longe a sulcar o Oceano. Da nossa eira, a quinhentos e vinte metros de altitude, presenciávamos muito bem o pôr do sol que era um espectáculo grandioso e maravilhoso. Era tão fascinante que, na minha memória de criança, eu nunca queria ter deixado a minha aldeia e tornar-me forçosamente emigrante!
Aos sete anos comecei a frequentar a instrução primária em Cavião e foi minha professora a Dona Bárbara. Mas poucos dias antes do Natal de 1934, a nossa família, minha mãe e o meu irmão Hermínio, emigramos para uma casa muito próximo do molhe norte do Porto de Leixões e do Farol de Leça da Palmeira.
A razão da nossa mudança foi devido ao meu pai fazer viagens num navio comercial americano entre Nova Iorque e Leixões. O navio onde ele trabalhava demorava cerca de 26 dias, ida e volta, e assim a nossa família podia estar junta em Leça da Palmeira pelo menos três dias, cada mês.
Mas ao fim de seis meses o navio onde meu pai trabalhava mudou de rota e então de comum acordo os meus pais decidiram que seria melhor a nossa família mudar para Oliveira de Azeméis, mais perto de Vale de Cambra, para terminarmos a escola primária e depois termos oportunidade de tirar o curso liceal. Passamos a frequentar a Escola Conde Ferreira em Oliveira de Azeméis sendo nosso mestre o saudoso Professor Costeira. Depois meu irmão e eu fomos admitidos no Colégio de Oliveira de Azeméis, em 1945 terminei o Curso Geral dos Liceus e em Janeiro de 1946 atravessei o Atlântico, contra a minha vontade, para me tornar ainda mais emigrante!
Ver o mar pela primeira vez!
Foi na Praia de Leça da Palmeira, junto a famoso Farol, nos rochedos dispostos em semicírculo chamados leixões, que vi pela primeira vez na minha vida as ondas do mar! Fiquei deveras intrigado porque não compreendi qual seria a força invisível que impelia as ondas marinas a baterem com tanta foca nos leixões da praia! Outra coisa que muito me surpreendeu foi o roncar estranho do Farol, principalmente quando havia nevoeiro! Foi também em 1934 que vi pela primeira vez automóveis, camionetas e carros eléctricos. Na nossa aldeia havia pelos caminhos muita bosta e excrementos de outros animais, mas não tínhamos estrada, nem electricidade, nem rádio, nem telefone. Havia sim, paz e simplicidade da Natureza!
A Ponte Romana de Leça
A escola primária que frequentei em Leça da Palmeira ficava localizada junto à ponte romana que ligava Matosinhos e Leça, mas lembro-me muito bem porque era uma ponte feita de pedra com muitos arcos… Foi destruída devido ao aumento do porto artificial de Leixões. Também me recordo dos carrinhos pequeninos que transportavam o entulho que era escavado para depois dar lugar ao espaço gigante para os grandes navios poderem atracar no porto artificial de Leixões.
Passados 72 anos
Nunca pensei que passados 72 anos viesse a publicar o nosso sétimo livro “Cristóvão –Cólon era Português”, editado pela QuidNovi, com sede em Matosinhos, sendo o Presidente da Administração o nosso sobrinho, Fernando Alberto da Silva! A QuidNovi está localizada na Praceta D. Nuno Alvares Pereira, 20 3º. CJ - 4450-218 Matosinhos, Portugal.
Este nosso livro tem sido um verdadeiro sucesso. Já foi adaptado a um filme pelo mestre Manoel de Oliveira com o titulo – “Cristóvão Colombo, O Enigma”-- o qual ganhou uma Medalha de Ouro no Festival Internacional Cinematográfica de Veneza, em Itália em 2008. Parece que a quarta edição portuguesa (de bolso) já está também esgotada!
Foi a respeito desta edição portuguesa que recebi há poucos dias uma mensagem muito simpática enviada por um nosso compatriota residente na cidade de Matosinhos, que é contígua a Leça da Palmeira.
Aqui está a mensagem do Sr. Mário Luís Rêga Santos:
Caríssimo Dr. Manuel Luciano da Silva:
É com enorme satisfação que lhe estou a escrever este Email, porque até que enfim encontrei, o seu livro sobre o nosso Cristóvão Colon.
Sou um entusiasta da história de Portugal em especial a da era dos Descobrimentos e a da minha terra que é Matosinhos. Já vi o filme «Enigma» mas queria mais e procurei o livro em vários lados e não o encontrava só agora numa iniciativa do jornal o «Público» consegui comprá-lo.
Fiquei deliciado como o sr. apresenta as provas de como Cristóvão Colon é português e o seu nome verdadeiro é Salvador Fernandes Zarco sendo ele neto do descobridor da ilha da Madeira João Gonçalves Zarco.
Sabendo nós que Gonçalves Zarco é natural do concelho Matosinhos mais propriamente da freguesia de Leça da Palmeira e até existe o lugar de «Gonçalves».
É emocionante ver escrito no seu livro a palavra Matosinhos porque até aqui as entidades oficiais não ligaram nenhum a essa enorme descoberta que o sr. fez.
Existe uma rua com o nome de Gonçalves Zarco em Leça da Palmeira e uma Escola Secundária em Matosinhos.
O senhor e a sua esposa estão de parabéns porque vocês conseguiram ir mais além que os outros, decifrar as siglas e provar o que era suposto.
Vou tirar fotografias da rua e da escola que tem o nome do nosso navegador Gonçalves Zarco e vou enviar-lhe.
Saudações portuguesas de Matosinhos
Mário Luís Rêga dos Santos
Pedi ao Sr. Mário dos Santos para me enviar fotografias da Rua Gonçalves Zarco, em Leça da Palmeira e do edifício da Escola Secundária em Matosinhos.
Aqui estão as imagens que ele me mandou:

Rua Gonçalves Zarco na Leça da Palmeira

Escola Secundária João Gonçalves Zarco em Matosinhos
Agora temos que saber se ainda existem famílias Zarco em Leça da Palmeira, em Matosinhos e noutras localidades.
Há necessidade de se organizar um Simpósio sobre as famílias Zarco que existem no Continente, nos Açores e na Madeira e até espalhados pelo mundo. Esta reunião devia ser da responsabilidade da Associação Cristóvão Colon, com sede agora em Cuba, no Alentejo.
Outra coisa interessante seria Cuba, no Alentejo e Leça da Palmeira tornarem-se “Vilas Irmãs”.
O nosso Compatriota Luís Rêga Santos muito entusiasmado já me mandou mais duas fotos ligadas às nossas investigações históricas do Cristóvão Colon e dos navegadores Corte Reais. Aqui estão as fotos.

Traineira “Gonçalves Zarco” no Porto de Leixões

Traineira “Corte Real” no Porto de Leixões.
É bem certo o que o nosso famoso Almirante Gago Coutinho escreveu depois de viajar mais de 31 mil milhas no alto mar a estudar os Descobrimentos portugueses:
“Os marinheiros portugueses descobriram muitas terras desconhecidas e só passado gerações é que descreveram as suas viagens ”!
É por isso que temos que prestar muita atenção às tradições populares.