Os meus namoros com a Pedra de Dighton!
 

Por  Manuel Luciano da Silva, Médico

Entre 1960 e 1963 eu fui  “Fellow”  em Medicina Interna na   mundialmente famosa Lahey Clinic de Boston. Durante este período eu consegui que fossem publicados grandes artigos  baseados em entrevistas  que eu dei  aos dois  jornais mais importantes de Boston: “The Christian Science Monitor”  e  “The Boston Globe” a respeito das inscrições portuguesas da Pedra de Dighton.

Depois da publicação destes dois artigos passei a ser convidado para fazer palestras com diapositivos coloridos nas bibliotecas públicas, universidades e sociedades históricas, etc. Durante três anos consegui realizar 22 palestras  na Cidade de Boston e arredores.   Todas gratuitas. Nunca mais me poderei  esquecer  da conferência que eu fiz na Biblioteca Pública de Boston. Depois de eu terminar a minha palestra  entramos no período  de perguntas  e respostas e uma senhora  fez esta observação:  Eu nunca vi ninguém falar duma pedra  com tanto entusiasmo! O que é que o motiva a falar assim?”  Porque a audiência e eu estávamos bem dispostos eu respondi  à  senhora desta forma descontraída:  “Porque  a Pedra de Dighton é  a minha amante!”  Esta minha resposta causou um grande alarido e enormes gargalhadas! Depois  desta noite, sempre que viesse a propósito nunca hesitei em fazer a mesma declaração que a Pedra de Dighton  tem sido a minha “amante” durante décadas e também “amante”   de minha mulher! 

Na realidade ambos temos  gasto milhares de horas e milhares de dólares em  várias actividades para preservamos a Pedra de Dighton,  inspirados no seu significado histórico  a favor da História  de Portugal.

(1) O meu primeiro  namoro  com a Pedra de Dighton  começou em Outubro de 1943,  quando no Colégio de  Oliveira de Azeméis,   o meu Mestre  de História Universal, o   saudoso Professor  João Santos, me pediu  para que quando eu emigrasse para os Estados Unidos da América,  onde o meu pai  já trabalhava,  eu fosse visitar a Pedra de Dighton  e tirasse  uma  foto da pedra  para lhe enviar.

(2) Eu vi a Pedra de Dighton pela primeira vez no dia 14 de Agosto de 1948,  mas quando cheguei ao local ela estava quase toda coberta pela  água das marés  no Rio Taunton, em Massachusetts.  Tive que regressar ao outro dia quando a maré estava  vazia, mas fiquei muito desapontado porque a pedra estava totalmente  coberta de musgo e de lama muito fedorenta devido  aos  esgotos da Cidade de Taunton.  Não se podia ver nenhumas inscrições e por  isso não tirei nenhuma fotografia para mandar ao meu Professor João  Santos.  Regressei a New York,  onde vivia,  muito triste por ver  que a Pedra  de Dighton estava totalmente abandonada  e sujeita a qualquer tipo de vandalismo!

 (3) O meu próximo namoro a sério com a Pedra de Dighton passou-se no dia 25 de Setembro de 1951, quando assinei o requerimento para se obter o Alvará para a  criação da organização não-lucrativa intitulada  “The Miguel Corte Real  Memorial Society, Inc.”, no Estado de New York. 

(4) Em 1952  regressei a Portugal e consegui passar o exame de aptidão à  Faculdade  de Medicina  da Universidade de Coimbra e  ao fim de cinco anos obtive  com distinção o meu Diploma  de Médico. Durante a minha estadia em Coimbra tive ocasião de rever muitos documentos e velhos mapas relacionados com os descobrimentos portugueses durante  os séculos XV e  XVI.   Foi  também neste período  coimbrão que eu  tive a calma para descobrir  a Quarta Cruz da Ordem  de Cristo   gravada na Pedra de Dighton.

 (5) Foi também neste período que estive em Coimbra que comecei a escrever o meu primeiro livro sobre as inscrições da Pedra de  Dighton.  Curioso que comecei a escrevê-lo em inglês!

(6) Em 1959, já médico, regressei  à América para fazer o meu segundo ano de internato,  (pois já tinha feito um ano de internato  em Portugal),    iniciando-o  no Hospital de São Lucas,  na cidade baleeira de  New Bedford, Massachusetts.  Foi nesta altura que renovei mais uma vez o meu namoro com a Pedra de Dighton. Com a ajuda do meu bom amigo Donald  Cordeiro,  Técnico  de Patologia do Hospital,  conseguimos obter  os serviços de um desenhador artístico para nos pintar os Símbolos Nacionais Portugueses: os dois Escudos Portugueses nas formas de “U” e “V”  e ainda  Cruz da Ordem de Cristo.  

(7) Usando estes Símbolos  Nacionais Portugueses, no Domingo, primeiro  de Novembro de 1959, com a ajuda do meu colega no Hospital São Lucas, Dr. Luís Wilcy Dupont,  consegui obter  uma  fotografia  comparando os símbolos Nacionais Portugueses com as inscrições gravadas na face da Pedra de Dighton.   Esta foto foi publicada pela primeira vez,  dois dias depois,  pelo  jornal  “The Fall River Herald News” tornando-se  desde então  muito conhecida.


    Conclusão das inscrições portuguesas

(8) Com a ajuda técnica do meu bom amigo Donald Cordeiro do Departamento de Patologia  Médica,  começamos a  fazer  diapositivos coloridos sobre os navegadores e descobrimentos portugueses,  sobre  desenhos antigos das inscrições da Pedra de Dighton,   de fotografias a preto e branco e também  fotos modernas coloridas da face da Pedra de Dighton.  Conseguimos assim obter 80 slides o suficiente para eu começar a fazer palestras ilustradas. Comecei a fazer palestras aos meus colegas no hospital e fiz até uma conferência na Biblioteca Pública de New Bedford. Com estes ensaios, quando cheguei a Boston já ia  mestre…

(9) Na primeira semana de Agosto de 1960 eu dei uma  longa entrevista ao repórter  Kenneth Hufford do famoso Jornal   “The  Christian Science Monitor”  cujo artigo foi publicado em página  inteira  em  15  de Agosto de 1960,  com o título “História gravada na Pedra de Dighton”.

(10) Antes deste  artigo sair no jornal  “The Christian Science Monitor”  eu já tinha partido  para Portugal  para me casar e para participar no Primeiro Congresso  Internacional da História  dos Descobrimentos que se   realizou na Universidade de Lisboa nas  duas primeiras semanas do mês de Setembro de 1960.   Fiz a minha apresentação no dia 8 de Setembro e no dia seguinte  o jornal “Diário de Notícias” de Lisboa relatou que eu tinha recebido  “a maior salva de palmas do Congresso!”  

(11) Quando eu regressei  de Portugal o Diretor do Departamento de Endocrinologia da Lahey Clinic chamou-me  ao  seu gabinete e  perguntou-me como é que  eu tinha conseguido  que os dois grandes jornais  de Boston tivessem escrito artigos tão  grandes a respeito das minhas pesquisas histórias.  Expliquei-lhe o que é que se tratava e ele convidou-me para eu fazer uma palestra sobre o mesmo assunto  no Simpósio Médico Anual dedicado  à memoria  do Fundador da Lahey Clínica. 

No grande Auditório  da Joslin Clinic em Boston, antes de mim  falaram dois especialistas médicos e depois foi a minha vez. Com a projecção  dos meus  diapositivos e com o meu entusiasmo,   em frente de mais de duzentos  médicos,  dei-lhes a minha lição sobre as inscrições portuguesas da Pedra de Dighton.  Recebi de pé uma ovação  de toda a assistência!  E os chefes dos vários departamentos da Lahey Clinic  vieram ao palco para me apertar a mão e congratular-me!  Só na América é que fui assim aplaudido no meio de tantos cientistas!

(12)  O meu salário era tão  baixo, enquanto estive a trabalhar  na Lahey Clinic,   que não nos crescia dinheiro para irmos ao cinema ou ao teatro. Por isso eu e a minha mulher aproveitamos o nosso tempo livre para irmos para  a Biblioteca Pública de Boston e investigarmos dois  pontos importantes: (a) a influência  da   língua portuguesa  nos nomes  dos Índios Wampanoags da Nova Inglaterra e  (b) rever mais  e trinta  mil páginas  de livros que mostrassem fotografias de   canhões e espadas dos séculos XV e XVI  para  virmos a fazer a comparação de peças que viessem a ser encontradas  na Nova Inglaterra,  com peças semelhantes que  já existem nos Museus Militares em Portugal.  E esta nossa pesquisa veio a dar bons resultados mais tarde.

(13) Porque eu era um cidadão binacional – português porque nasci em Portugal e americano porque o  meu pai  já era cidadão americano antes de eu nascer – consegui a ter direito em  arrendar um apartamento no Grande Bairro Público de Dorchester,  (perto donde mais tarde se veio  a construir  a Biblioteca dedicada  ao Presidente Kennedy),  e   a nossa renda  passou a cobrir  água,  electricidade, aquecimento e gás.   Passámos a viver  melhor  neste local  até partirmos para Bristol, Rhode Island, no dia 30 de Junho de  1963.  

(14)     Apesar das minhas responsabilidades médicas na Lahey Clinic, nunca abandonei a minha “amante”, a Pedra de Dighton. Comecei por participar num programa  dominical de rádio em português que havia na cidade de  Cambridge contígua a Boston, o qual  se tornou popular.  Foi por intermédio do produtor deste programa  que consegui  estabelecer conhecimento com um Representativo Estadual  para lhe pedir para ele apresentar  uma Proposta de Lei para  que a Pedra de Dighton fosse removida da água e  colocada num paredão.  Houve uma Audiência Pública  sobre o mérito desta proposta,  mas devido a intervenção negativa do Professor Francis Rogers da Universidade de Harvard,  a Proposta  não  foi aprovada.  Consegui,   a muito custo,  convencer o mesmo Representativo para no ano seguinte  submeter a  mesma Proposta  a  nova audiência pública, mas desta vez eu tive o cuidado de saber quando é que a Universidade de Harvard estaria em  férias da Páscoa  e assim desta vez a Proposta passou  sem nenhuma objecção  e seguiu para ser aprovada na  Casa dos Representativos, no Senado e  depois foi  assinada pelo Governador para se tornar  Lei.   Quando o Rogers soube o que se tinha passado,  já era tarde de mais!

(15)      Os Oficiais do Departamento do Parques do Estado de Massachusetts  nunca acreditaram na possibilidade de uma Lei vir a ser aprovada para remover a Pedra de Dighton da água.   Ficaram nervosos, tiveram que confirmar cientificamente se a Pedra de Dighton era uma pedra solta  e só depois é que puseram  mãos à  obra.

(16)  O Paredão começou a ser construído e nós ainda estávamos  a morar em Boston.  E quando foi inaugurado no Domingo,  13 de Outubro de 1963, nós já vivíamos em Bristol, Rhode  Island. Infelizmente a pedra ficou protegida apenas por uma rede de capoeira de oito pés de altura sujeita a todo o  vandalismo.

(17)      Eu comecei a trabalhar no Centro Médico do Condado de Bristol, Estado de Rhode Island, no primeiro dia de  Julho de 1963.  Naquele tempo eu já era membro da Associação Médica Americana mas tive que me tornar  também membro da Sociedade Médica do Condado de Bristol e da Sociedade Médica do Estado de Rhode Island para poder admitir os meus doentes nos hospitais em Rhode Island.  A  ética exigida pela  Associação Médica Americana não permitia qualquer tipo de anúncio nos jornais, rádio ou TV. (Esta exigência estúpida, só  acabou em 1969). Como é que eu me poderia tornar conhecido para aumentar a minha clientela em Bristol?

(18)      Resolvi então pôr  em prática a minha regra original dos cinco Pês:  (1) Polícia; (2) Press ou imprensa; (3) Priest ou Padre; (4) People ou Povo e (5) Pharmacies ou  Farmácias.

(1)   Na primeira semana de Julho de 1963 fui-me apresentar à Policia de Bristol, porque no desempenho das nossas profissões  --  médica e policial --  iríamos  certamente  ter encontros comuns na vida prática.  Fui muito bem acolhido pelo Chefe e oficiais.

(2)    No dia 8 de Julho fui apresentar os meus cumprimentos ao Director do jornal, Mr. Roswell Bosworth Sénior do “Bristol, Phoenix”, jornal  17 anos  mais antigo  que o “The New York Times”,  e que me recebeu  muito bem.  No dia 12 de Julho de 1963, publicou  na primeira página a minha fotografia e a minha biografia,   ficando  desta maneira toda a Comunidade de Bristol a saber que tinha chegado a esta localidade um novo Médico  Luso-Americano, especializado em Medicina  Interna.   

(3)    O meu terceiro Pê foi  o Padre.  Telefonei para Reitoria da Igreja de Santa Isabel de Bristol, a maior  paróquia católica portuguesa nesta localidade e marcamos a nossa visita  com o  Monsenhor Henrique Rocha. A minha mulher, o  nosso primeiro  filho Manuel  e eu fomos muito  bem recebidos.

(4)    O quarto Pê foi o povo luso-americano a morar em Bristol.  Quantos Clubes é que  existem nesta cidadezinha? Quatro! Fiz-me logo membro de todos eles. E depois mantive  sempre boas relações com estas associações durante os anos que exerci  a minha prática clínica.

(5)     O último Pê foi as Pharmacies  ou Farmácias.  Fui a todas elas  em Bristol e Warren,  vila contígua,  apresentar os meus  cumprimentos  a todos os  farmacêuticos que  me receberam extraordinariamente bem por considerarem  o meu gesto muito original e de boas relações profissionais.   

(19)  Nesta época tive que concentrar todas as minhas energias em desenvolver a minha clientela  em Bristol. Mas  devo confessar que no meu subconsciente continuava a pensar  em proteger a   minha “amante” …

Estava numa terra nova, bonita e pelo que comecei a observar,  antevi que iria ter sucesso, como realmente aconteceu. Por isso tratei de me familiarizar dos vários  aspectos especialmente dos meios de comunicação.  No terceiro domingo, por estar de folga  do Centro Médico, resolvi dar um passeio até à  Cidade de Newport com a minha mulher e   o nosso filho  Manuel e por saber que aos  domingos de manhã  é costume as estações de rádio apresentarem programas em línguas estrangeiras, percorri  o mostrador do rádio do automóvel e ouvi  o programa  dirigido pelo  Sr. Luís  Raposo, intitulado  “A Voz dos Açores”. Pelo carácter editorial dele apercebi-me que  era um homem com um  carácter forte  e defensor dos imigrantes portugueses. Procurei conhecê-lo pessoalmente e ficamos amigos sinceros durante  muitos anos.   Participei no  programa dele inúmeras  vezes com palestras médicas  e  históricas.  Ele ajudou-me muito nas actividades culturais e sociais em que me envolvi incluído a  defesa da Pedra de Dighton.  

Mas eu desejava também ter uma porta aberta na televisão desta região. Eu sabia que naquele tempo por lei  todas as estações de Rádio e TV tinham que dispensar  dez por cento do seu tempo de antena, às  actividades de utilidade  pública.

(19)     Em 1965 só havia  três cadeias  de TV Nacionais: ABC, CBS e NBC. Não havia  ainda a TV por cabo. Portanto eu tinha que criar  uma ideia original.   Resolvi então escrever  o guião para  treze  programas para a TV,  os quais fui apresentar ao Director do Canal  TV 6,   com  estúdios na cidade de New Bedford e que era a estacão preferida pelos imigrantes luso-americanos.    Entreguei toda a documentação  ao Mr. Vance Eckersley, Director da Estacão,   para ele rever e ao fim de duas semanas ele chamou-me  que aprovava o meu plano.   

Assim iríamos iniciar  uma série na TV  americana em inglês,  intitulada “The Portuguese Around Us”,  ( Os Portugueses  à Nossa  Volta ),   sobre assuntos culturais e sociais relacionados com as actividades da  Comunidade Luso-Americana da Nova Inglaterra.  Esta série tornou-se tão popular que foi transmitida durante 32 anos nesta região,  ao meio dia, nos Domingos durante 30 minutos.   Teve também um impacto muito grande  porque desfez o uso de termos depreciativos  para os nossos imigrantes como Portugee  e Greenhorns ou Gringos.  A outra grande vantagem  foi que este programa era muito visto na zona sudeste do  Estado de  Massachusetts  e eu tive o cuidado de convidar Representantes  e Senadores para actuar  também  na série  “The Portuguese Around  Us”. Foi desta maneira  que eu consegui “namorar” os Legisladores de Massachusetts para me ajudar nas Propostas  de Lei para apropriação dos dinheiros  para as construções dos dois edifícios para o Museu da Pedra de Dighton.

 (20)  Porque o programa de TV “The Portuguese Around Us” teve  tanto sucesso propus ao Mr. Eckersley para fazermos um programa também semanal,  dominical de 30 minutos,  mas em Português. Ele apresentou-me  mil e uma  dificuldades, que se tinha que fazer a tradução para  inglês concomitante, etc. de tal maneira que eu fui ter com a Estação  Oficial do Estado  de Rhode Island, Canal  TV 36 e comecei uma nova  série em Português, também de meia hora  semanal intitulada  “Os Portugueses” e  mantivemos esta série  durante 4 anos. Depois   tive que deixar  porque já não conseguia tempo livre para ser coordenador e moderador. Todos as pessoas  que trabalharam  nestas séries televisivas nunca  ganharam dinheiro nenhum.  Tudo foi feito por amor à  causa portuguesa!!!

(21)    Servindo-me  da rádio e da televisão consegui desfazer as fronteiras estaduais para obter  a cooperação dos Representativos   e Senadores  de Massachusetts para que as duas últimas Propostas de Lei  fossem aprovadas  para a construção do Museu  da  Pedra de Dighton.  Douta maneira  teria sido impossível.

Como é  que eu,  com uma clientela tão grande,  consegui  fazer tantas coisas  a favor da Pedra de Dighton? Não jogando golfo,  nem ténis, não  indo aos night clubs   e até ao cinema. E vendo muito pouca televisão.  

(22) Ainda continuo  a fazer conferências   sobre as inscrições da Pedra de Dighton (já fiz 497) , todas gratuitas.  Já escrevi oito livros conjuntamente  com a minha Esposa e temos também  catorze copyrights na Biblioteca do Congresso Americano.  Não contamos o dinheiro, nem  telefonemas,  nem  faxes, etc.  que gastamos para proteger Pedra de Dighton. Sentimo-nos muito  satisfeitos por vermos a obra terminada e perfeita ao fim de tantas décadas.   Valeu  a pena!

Agora o Museu pertence ao Povo Americano e à História  Americana!