OS SONETOS DE CAMÕES
Análise do Dr. Magalhães dos Santos
São João da Madeira, Portugal
O meu Prezado Amigo Pedro Laranjeira – homem de muitas cordas na sua guitarra – pregou-me uma mefistofélica, maquiavélica partida:
- Saiba-me quantos sonetos Camões escreveu realmente!
À medida que procurava documentar-me, para satisfazer o capricho de D. Pedro, fui vendo onde chegava a malvadez do encomendador…
Haja quem diga com certeza quantos são os sonetos verdadeiramente do nosso grande Poeta!
Não me parece que haja alguém absolutamente sério, honesto, que possa garantir com certeza absoluta que eles são X, que estes X são garantidamente dele. Que aqueles Y não são mesmo dele.
Numa recolha efetuada pelo Dr. Artur de Magalhães Basto e publicada em 1959, figuram 210 sonetos.
Mas alguns estão estrelados e outros duplamente estrelados. Os que têm só um asterisco indicam “que o soneto foi admitido nas edições do Prof. Hernâni Cidade e não nas do Prof. Costa Pimpão: dois significam que o soneto aparece no do segundo mas falta nas do primeiro. A ausência de asteriscos denota que o soneto é comum às três edições”.
Com um asterisco contei quarenta e três. Com dois contei seis.
Dois grandes especialistas de Camões divergem. Vou ser eu a cortar salomonicamente e a proclamar que o nosso Vate escreveu tantos e quem disser o contrário mente?
Tá queto!
No prefácio do livro que consultei, diz o autor que “na primeira edição das Rimas, organizada por Francisco Rodrigues Lobo Soropita figuram 65 sonetos; seis, porém, não são de Camões…” Esta edição data de 1595, quinze anos depois da morte do Poeta. Manuel de Faria e Sousa, embora o mais erudito dos seus admiradores, também o mais cego, dizia que dava “a Camões tudo o que encontrou com sombra de seu”. E em 1685 atribuiu-lhe 296. Em 1861 uma edição já reuniu trezentos e cinquenta e dois. E depois ainda aumentou! Chegaram a quatrocentos! Qua-tro-cen-tos!
Em 1882, D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos já bradava: “A questão toma proporções impossíveis. É preciso pôr-lhe termo!”
E em 1932, numa edição organizada pelo Dr. José Maria Rodrigues e pelo poeta Afonso Lopes Vieira, figuravam somente 197.
Vinte e um anos depois, o Prof. Doutor Álvaro da Costa Pimpão só recolheu cento e sessenta e sete.
Em 1954, saiu a segunda edição das Obras Completas de Luís de Camões, com prefácio e notas do Prof. Doutor Hernâni Cidade.
A edição do Dr. Artur Magalhães Basto inclui, como já disse, duzentos e dez: “cento e sessenta e um que são comuns, embora com algumas variantes, à edição do Prof. Doutor Costa Pimpão, acima citada, e as duas outras, também recentes, do Prof. Hernâni Cidade; mais seis, publicados na edição do primeiro e que não figuram nas do segundo; e mais quarenta e três admitidos pelo Prof. Hernâni Cidade nas suas edições” (…)
Não apurei em que ano – recente –, o brasileiro Frederico Barbosa, apoiado na obra de Jorge de Sena “Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular (Portugália Editora; Lisboa; 1969), publicou mais uma edição dos (melhor será dizer: de) sonetos do nosso Luís Vaz.
E remata a apresentação com estas “esclarecedoras” palavras:
“Apresentamos, portanto, nessa edição, os 119 sonetos apontados por Jorge de Sena e acrescentamos 20 deles por nós escolhidos das edições posteriores, assim como 11 poemas considerados por Jorge de Sena e por nós como apócrifos, ou de autoria contestada”.
Diga-me só, meu caro Pedro: como se pode ser pároco nesta freguesia?
Apesar de tudo (…), aí vai o abraço cordial do seu Amigo
(a) Magalhães dos Santos