PARTIRAM
O NARIZ AO INFANTE D. HENRIQUE !
Ao
contemplar aqueles tão majestosos panoramas,
medito por instantes, quão
ruidosas e monstruosas deviam ter
sido as lavas incandescentes, originadas
das entranhas da Terra, para dar forma àqueles
montes e vales, contornados
suavemente e curados pelo
tempo de muitos milhares senão milhões
de anos!
De
qualquer lugar em São Miguel
podemos observar a interligação
íntima que existe entre os
elementos da Natureza - o mar, céu,
nuvens, bocas de vulcões, montanhas, elegantes criptomérias,
vacas bucolicamente pastando
nas encostas dos montes,
pincelados com paredes
coloridas de hortenses -- por toda
esta beleza sui generis, eu
desejava ser poeta para fazer rimar e declamar
toda aquela maravilha paradisíaca que nos estimula
tão profundamente para
perguntar a nós mesmos, onde está o Poder
Omnipotente que criou tamanha majestade?!
VILA
FRANCA
De
todas as povoações de São Miguel aquela por quem tenho uma simpatia especial
é Vila Franca do Campo. Gosto do seu nome: Franca.
É um nome positivo e convidativo. Mas
além disso fascina-me a sua história, por estar ligada ao Príncipe Dom
Henrique, porque foi ele que deu ordem para que se construísse ali a primeira
igreja nos Açores, dedicada
a São Miguel e se fizesse de
Vila Franca a primeira capital dos Açores.
O Arcanjo São Miguel é também padroeiro de Oliveira de Azeméis, no Continente, onde eu fiz
a minha primeira comunhão! Curioso
que o Santo-mor da Capela da
Universidade de Coimbra, onde me formei (1957),
também é o Arcanjo São
Miguel!
Cativa-me
também a história melodramática de Vila Franca por causa das
destruições que sofreu devidos aos
fortes abalos sísmicos nos anos de
1552 e de 1591. Mas o espírito indomável das suas várias gerações,
ressuscitou das suas
cinzas e escombros, como fénixes, construindo
e criando, como podemos
constatar hoje, uma bela
vila-cidade, com um panorama
deslumbrante desfrutado do Santuário Rural da Nossa Senhora da Paz.
Dali
do alto observamos o casario com os
seus telhados avermelhados, constratando com o verde dos campos, das
proteções das quintas, feitas de faias ou incensos, das plantações de bananeiras e do branco das estufas de
ananases, como a lembrar, no seu
conjunto, as cores garridas da Bandeira de Portugal!
E no mar azul, está, muito quieto, o
célebre Ilhéu tal qual um
gigante adormecido, pronto a
proteger Vila Franca!...
O
povo de Vila Franca é crente e tem fé, como mostra nas suas procissões e
festividades. Mas também é alegre e
divertido como vemos nas suas danças
populares. Revela
ainda o seu poder artístico criador na
produção de
belas peças de cerâmica, como podemos observar
no Museu Etnográfico de Vila Franca.
MONUMENTOS
HISTÓRICOS
Deve-se
aos lidadores religiosos e cívicos
um conjunto de monumentos históricos que muito dignificam Vila Franca:
Câmara Municipal, Matriz, Misericórdia, (com a Igreja Nosso Senhor Bom Jesus da Pedra), o
Jardim Público Antero de Quental, a estátua
do Fundador Gonçalo Vaz Botelho (o Grande),
o Monumento ao célebre Bento de Góis e ainda o busto Dr.
Simas, médico benemérito, que
tive o prazer de conhecer em
1966, quando da minha primeira visita a São Miguel.
Mas
o monumento que mais me encanta de Vila Franca
é a estátua do Infante D.
Henrique feita de calcário branco
pelo Mestre Simões de
Almeida (Sobrinho) inaugurada em 1932, para
comemorar o V Centenário da
descoberta dos Açores e colocada à beira mar, mesmo em frente ao Ilhéu da
Vila.
De
todas as estátuas que conheço do
Infante D. Henrique esta é aquela que para
mim mais revela profundamente o
poder de pensamento e de
concentração que o célebre
Infante devia ter tomado muitas
vezes no Promontório de Sagres, onde
tinha a sua Escola Náutica de
Navegação.
É
impressionante e imponente o contraste da estátua
de calcário branco, colocada num sopé de basalto negro,
de origem vulcânica, meditando
atentamente o Ilhéu, como que se
estivesse a desafiar o Adamastor, a
quem o Infante D. Henrique queria
destruir com a sua persistência em mandar Gil Eanes, natural de Lagos,
a dobrar o Cabo Bojador, em 1434.
Existe
na cidade de Fall River, Massachusetts, uma
cópia de bronze
da estátua de mármore do Infante D. Henrique igual à que está em Vila Franca do Campo. Foi inaugurada em
1940, para coincidir com a comemoração
do Centenário da Fundação de Portugal. Foi
um micaelense emigrante de nome José
Silva que muito lutou para que a estátua fosse colocada no centro de
Fall River. E ainda lá
está hoje.
Foi
a face desta estátua do Infante D. Henrique que eu escolhi para
abrilhantar a capa do meu livro: "Os Pioneiros Portugueses e a Pedra de
Dighton". Talvez por isso
ambas as edições, tanto
portuguesa como americana, estão
esgotadas, há mais de vinte anos!....
Calculem
a minha tristeza, quando no dia 5
de Setembro de 1998, no mesmo dia em que celebrava 72 anos, ao visitar Vila
Franca, acompanhado de minha mulher, Sílvia,
e do meu colega de curso, Dr. Valdemar Lopes Pereira e sua Esposa, Dona Adriana, fomos
visitar a célebre estátua do Infante D. Henrique, à beira mar em Vila
Franca do Campo.
Eu
seguia todo contente,
porque sentia que ia ver outra vez
um velho amigo
sincero, que já não via, desde 1966 -- há 32 anos! -- e o qual me
tinha servido de inspiração para eu conduzir as minhas pesquisas
sobre os descobrimentos portugueses.
Qual
não foi a minha emoção e a minha profunda tristeza, quando ao preparar
a minha máquina fotográfica
vi que a célebre estátua, aquela
obra prima, lhe tinham partido
o nariz!
Malvados!
Assassinos! Quem teria sido
o tresloucado que cometeu tamanho crime?!
Fiquei raivoso e furioso de comoção!
Que lástima! Que traição!
Que falta de patriotismo! Lembrei-me logo da
tragédia semelhante
que aconteceu, há vários anos, ao
nariz da célebre estátua
"Pietà" de Miguel Angelo que está à
entrada direita do Catedral de São Pedro, em Roma!
Mas o nariz desta estátua foi reconstruído
e agora a "Pietà" está
dentro duma redoma de vidro inquebrável. O maluco que fez tal
dano foi para um sanatório de
doentes mentais.
E
tu, Infante D. Henrique,
que foste quem mandou gado cabrum, vacuum e porcuum para os Açores!
Tu, Infante D. Henrique, que
foste o "Donatário dos Açores, Administrador da
Ordem de Cristo, Governador do
Algarve, que mandaste "povoar
este Arquipélago", não tens
agora ninguém que te lave a cara e
te faça cirurgia plástica ao
nariz?!
Ou toda esta tragédia não passa dum pesadelo meu?