Portugal abraçando o Mundo!
Por Cristina Malhão-Pereira
madrugada@sapo.pt
Encompassing the Globe: Portugal
and the world in
the 16th and the 17th Centuries
Exposição sobre a Expansão Portuguesa
que se encontra em Washington até 16
Setembro, 2007
Não consigo compreender como aqui, na nossa terra, quase não se fala sobre este esplêndido evento que tão magnificamente fala de nós, e que, de uma vez por todas, veio repor a verdadeira grandeza das nossas descobertas. Foi esta exposição inaugurada a 24 de Julho pelo Presidente da República mas, para meu gosto, pouco tem sido referenciada em Portugal.
A ideia deste projecto, que me maravilhou por ser um reconhecimento internacional sobre as consequências culturais da nossa expansão, começou em 1992, quando Jay Levson, comissário da imensamente importante exposição organizada pelos Americanos para honrarem Colombo e a descoberta da sua muito amada terra, verificou, que grande parte dos itens que iria expor, tinham muito mais a ver com os Portugueses, que com qualquer outra povo ou nação. Logo aí Levson concluiu que seria necessário organizar outra exposição, essa, unicamente para falar da importância das descobertas e inacreditáveis viagens Lusas.
O local escolhido para tão importante evento foi, nada menos que Washington, a capital do país que hoje em dia, quer se goste, quer não, governa o Mundo! Mas nem mesmo assim nós, os presumivelmente mais interessados e indiscutivelmente mais beneficiados …nem assim, ligamos alguma!
O Smithsonian Institution é um local emblemático de Washington, situado no quadrado onde a Casa Branca e todos os grandes museus, incluindo o Air Space Museum, estão inseridos. É um sítio que poderemos considerar em ebulição, tal o movimento de gente que permanentemente entra e sai pelas suas portas, visitando agora esta fantástica exposição sobre a Expansão Portuguesa, e que, no folheto que à porta nos é distribuído, afirma ser a maior mostra montada na Sackler Galery até à presente data.
O edifício propriamente dito foi oferecido por James Smithson, um abastado inglês que viveu entre 1765-1829, e que dedicou toda a sua vida à investigação. Embora nunca tendo visitado os USA, decidiu, quando da sua morte, deixar a sua enorme fortuna a uma instituição em Washington, que se dedicasse à difusão do conhecimento. No século XlX, em 1855, foi construído o edifício principal, uma casa com torre, o castelo, que é o símbolo da instituição e onde se encontram hoje algumas galerias, assim como os fantásticos restaurantes e lojas do museu, onde agora estão à venda peças do nosso artesanato assim como as réplicas que encontramos nos lojas dos museus portugueses.
ENCOMPASSING THE GLOBE, ou Abraçando o Mundo, está dividida em seis secções independentes, organizadas de modo geográfico, mostrando cerca de 250 peças.
Na primeira – A Época dos Descobrimentos, refere essencialmente a nossa expansão e cartografia. Dá ênfase ao modo como os Portugueses baptizaram o globo e faz um paralelo entre os mapas que íamos desenhando e as actuais fotos feitas por satélite, obtidas pela NASA. A precisão dos mapas por nós feitos à medida que íamos descobrindo, é perfeitamente fascinante, e está superiormente demonstrada.
Na segunda – A Costa Africana, centra-se principalmente nas três áreas que produziram melhores obras de arte, influenciadas pelo contacto com Portugueses.
Na terceira – O Brasil e o Novo Mundo.
Na quarta – O Oceano Índico, de Mascate às Ilhas das Especiarias.
Na quinta – Mercadores e Missionários na China.
Na sexta – A Chegada dos Bárbaros do Sul, documenta as trocas culturais entre Portugal e essas partes do globo, principalmente o Japão.
As inúmeras e extraordinárias peças expostas, integram um magnífico catálogo, que eu, além de ter comprado, tive que trazer nos meus cansados joelhos até casa. Sim, porque eu nunca tenho ajudas, ou convites para integrar as comitivas pagas pelo Zé povo.
Durante a visita tive dois desgostos, o que comparado com o orgulho que todo o resto me deu, não são absolutamente nada. O primeiro foi ver que uma artista convidada, uma artista plástica brasileira, aproveitou o local, onde só se fala bem de nós, para expor um trabalho, feito em azulejos brancos tipo casa de banho, de onde vomitam vísceras ensanguentadas e que segundo a autora, pretende simbolizar as matanças feitas pelos Portugueses nas suas conquistas. Outro foi, ao acompanhar uma guia, uma docente, que ia mostrar a exposição a um grupo de professores, ouvi-la logo no inicio, ao chamar a atenção para um magnífico quadro holandês que retrata Lisboa pelo ano de 1500 e que tem em primeiro plano um príncipe negro de chapéu de plumas, adornado com espada e capa de São Tiago, e mais para os fundos vários outros negros, alguns a serem empurrados possivelmente pela polícia, comentar: - “Os portugueses, como se vê, já eram imensamente esclavagistas”. Mais à frente, a mesma senhora comentou: - “É incrível como um povo tão diminuto conseguiu fazer tanto e manter um comércio tão activo em tantas partes do globo…bom, mas isso só durou 200 anos, porque logo em seguida os holandeses substituíram-nos”. Aí, eu que já estava amuada com a história dos escravos, como se os ingleses e demais outros povos também não tivessem tido escravos, ou como se os americanos não tivessem até feito muita gala em todos os filmes de cowboys que ao longo dos anos nos foram mostrando, se orgulharem de como iam matando e enfiando em reservas, os verdadeiros senhores daquela terra, os hoje em dia miseráveis índios…disse: -“ Peço desculpa, mas nos meus dias, lembro-me muito bem de Nehru ter expulso os portugueses de Goa, Damão e Diu, portanto, nós mantivemo-nos na Índia até muito depois dos ingleses, que por sinal só lá foram parar porque nós, em dote, lhes demos Bombaim. E como é do conhecimento geral, os holandeses chegaram à Índia um século depois de nós e os ingleses mais ou menos dois séculos mais tarde. Só que os ingleses tiveram que sair escorraçados, envoltos em sangrentas e pouco dignificantes guerras e muitos anos antes de nós. Também, e isto há poucos anos, os ingleses tiveram que entregar, e com rudeza, Hong Kong. Enquanto que nós saímos de Macau em condições de simpatia, e bastante depois dos Ingleses. Portanto, se não se importa, terá que me fazer o favor de corrigir esse pormenor. Porque em boa verdade os portugueses mantiveram-se no Oriente mais de 500 anos e não apenas 200!”
No catálogo também tive outro desgosto, esse provocado pelo artigo do historiador português, cujo texto me pareceu ser o único a querer dizer, e bastante, mal de nós próprios…Revelou esse senhor uma imaginação exausta, e deu o chamado tiro no pé! Mas nós já estamos habituados. Enquanto que os estrangeiros, fascinados, cantam a nossa história, nós, principalmente os que vivem à custa de subsídios, auto-flagelam-se.
Mas nada disso me incomodou, visto que no final fiquei horas a ler os livros com os comentários dos visitantes. Entre milhares, o que mais me emocionou, feito por um homem com nome inglês, dizia: - “Eu julgava que a globalização tinha sido feita pela Internet, afinal, percebi hoje, que ela começou, e de uma forma extraordinária, feita pelos Portugueses e há já mais de 500 anos!”
Bordo do Madrugada, 7 de Agosto de 2007