Manuel Estrela

Nasceu  em 1940, na freguesia de Rabo de Peixe, Ilha de São Miguel, Açores. Fez o ensino secundário no Seminário de Angra do Heroísmo, na Terceira. Foi funcionário da Conservatória do Registo Predial da Ribeira Grande e funcionário da Segurança Social em Ponta Delgada.

Emigrou em 1975. Trabalhou numa fábrica, na antiga Casa Cristal e há 20 anos colabora com "O Jornal" (Semanário em  Fall River). No início apenas no desposrto, mas há alguns anos é membro da Redação do mesmo jornal. Colabora na televisão e rádio regionais. É autor de vários livros ligados  à emigração.

 

O ensino do Português no mundo
Por Manuel Estrela

Muito se tem escrito, criticado e dito acerca do ensino do Português no estrangeiro e, neste caso nos Estados Unidos, mas de que tem servido? Tem melhorado? Tem progredido?

Muitas iniciativas têm ocorrido - encontros de professores, de directores das comissões, de jovens, cursos, discursos, palestras, passeios e jantares. O mais recente ocorreu em Lisboa, numa iniciativa da Direcção Regional das Comunidades do Governo Regional dos Açores e da Casa dos Açores de Lisboa,
que contou com muitos intelectuais. Tudo certo, mas.

Sendo o ensino do Português da responsabilidade do Governo português, no que se refere às comunidades fora do círculo eleitoral da Europa, pouco tem feito e o que faz nem sempre é o melhor, na nossa modesta opinião. Desde logo, pergunta-se porque existem o círculo da Europa e o círculo fora da Europa? Porquê deputados pelo círculo da Europa e pelo círculo fora da
Europa? Não somos todos portugueses com direitos iguais? Para quê essa distinção que cheira a divisão?

Poderão dizer que os problemas e os anseios dos europeus são diferentes dos outros, como se os problemas e anseios dos brasileiros e australianos fossem idênticos aos dos imigrantes nos Estados Unidos, Canadá, Venezuela ou África do Sul.

Será que o investimento no ensino da nossa Língua na Europa é igual ao investimento no resto do mundo? Por falar em investimento entre nós, recordamos o esforço do Governo
português em atribuir subsídios a Universidades para ensinarem o Português, o que se louva.

Recordamos ainda o esforço do Governo de Lisboa em subsidiar o envio de Professores devidamente habilitados para o estado de Massachusetts, para ensinar o nosso idioma em diversas escolas, sem esquecer os esforços e preocupações do Governo Regional dos Açores, junto das comunidades açorianas. São iniciativas positivas, mas será que são suficientes?

O estado de Massachusetts decretou o ensino de uma segunda língua, que em algumas áreas, não só poderia ser, como devia ser o Português, como em certas escolas em Fall River, New Bedford e Taunton. Mas existem muitas dificuldades, entre elas a falta de professores. No entanto, a exemplo do que existe em alguns países europeus, não deveria o Estado português tomar
iniciativas para chegar a acordo com Massachusetts, de modo a que o ensino do Português fosse integrado nos respectivos programas escolares oficiais?
Daqui também se chama à atenção das pessoas da nossa comunidade que podem votar e não o fazem, perdendo toda a comunidade com isso, porque pouco contamos, porque não sabemos exigir, porque não sabemos "jogar" com o poder
e a força do nosso voto.

As Escolas Oficializadas Portuguesas, que podiam ser a base do ensino, andam às costas de algumas (poucas) boas vontades quando, na realidade, repetimos, o ensino compete ao Governo português, mas parece que pouco se pensa na tal base. A FLAD (Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento) ao que consta é que se encarrega de conseguir o dinheiro ou parte dele para os tais subsídios, dinheiro conseguido à custa da Base das Lajes, pouca importância atribuiu às Escolas Portuguesas. Parece que é melhor começar pelo tecto, em vez do alicerce.

Uma das senhoras professoras que se encontram a ensinar Português no Departamento Escolar de Fall River, sob um acordo entre as autoridades portuguesas e do estado de Massachusetts, confessou-nos que chegou cheia de entusiasmo, pois pensava que iria ensinar Português a jovens "cheios de fome de Português." Apanhou uma grande decepção. Os jovens não estão motivados. E
os pais também não estão.
Esta é a triste realidade. apesar de nos parecer que ninguém liga a ela!
Para ensinar é preciso haver alunos e professores. Os professores podem existir, mas os alunos. O mais certo seria poder integrar o Português nos currículos escolares dos respectivos sistemas mas, mesmo assim, será que as nossas crianças iriam aprender, para além da Língua, a cultura, os usos e costumes dos pais e avós, afinal o que fará elas se orgulharem do nosso País de origem, de amarem a nossa Pátria-mãe?

Perguntem aos jovens das bandas de música, dos clubes e associações se aprendem ou não Português, se lidam ou não com a nossa Cultura. Estamos absolutamente de acordo que se deve integrar o Ensino de Português nos sistemas escolares oficiais, mas Portugal fazia isso no ensino secundário em relação ao inglês e ao francês (e continua) e, se muitos poderiam falar correctamente tais idiomas, será que aprendiam as culturas da
Inglaterra e da França? Ou pensam que os sistemas americanos vão ensinar aos nossos jovens o culto do Espírito Santo e as suas manifestações? As Chamarritas? Os Bailes Furados? Os poetas e escritores portugueses? Os Descobrimentos?

Interessa preservar a Língua, mas também a Cultura... E, depois de terminarem a escola, os jovens, tais ilhas rodeadas de inglês e outras culturas por todos os lados, vão continuar a falar português? Com quem? Até porque os nossos jovens e a maioria dos pais não estão motivados para a importância de se saber duas línguas e do enriquecimento de se beneficiar de duas culturas.

Sem alunos não haverá ensino. Por isso a motivação deveria ser uma prioridade. Como motivar? Descobrindo acções que levam os jovens e os adultos a interessarem-se. Por exemplo, entre outras, através da RTPi, de incentivos, de publicidade nos jornais, rádios e televisões das comunidades, de ajudas às associações culturais, de palestras nessas associações, nomeadamente aquelas em que as
famílias é que são membros.

Deve-se lutar pela integração do ensino de Português nos Programas Oficiais americanos, sem contudo deixar de apoiar, sempre que haja interesse, as Escolas Portuguesas e as associações que se dedicam e que fomentam a cultura
portuguesa, através de folclore, teatro, canto, dança, variedades e outras iniciativas.

Que apoios têm sido fornecidos às nossas organizações, nomeadamente àquelas que mais se dedicam aos jovens, na "guerra santa" de preservar a Língua e a Cultura do nosso país de origem?

Na verdade tem-se feito alguma coisa, mas na generalidade sem sentido e sem critério lógico... E as associações precisam de ajuda, mesmo financeira. Sabemos que uma das nossas bandas de música recebeu como prenda de Natal e Ano Novo um aumento
da contribuição predial sobre a sua sede, que eleva para 17 mil dólares esse imposto... É muito dinheiro e é uma grande injustiça para quem tanto trabalha por amor, sem qualquer salário, a uma causa nobre... O que se tem visto são esforços que passam ao lado das iniciativas populares que fomentam acções culturais e, sem o povo, não pode haver sucesso. Os intelectuais (e alguns possuem muito mérito) deveriam juntar-se mais ao povo, frequentar mais os lugares que o povo frequenta, baixar um pouco a crista cultural, para poderem atingir, para poderem tocar com o seu
saber os menos favorecidos, porque, como se sabe, muitas vezes a instrução foi uma questão de sorte e de dinheiro, e não necessariamente apenas de capacidade.

O ensino de Português precisa de envolver a comunidade, para evitar a criação de elites que o povo não aceita. E o povo está nomeadamente nas bandas de música, nos clubes e associações, irmandades do Espírito Santo, paróquias e mais. É aí que se deve investir,  onde o povo está e onde faz cultura portuguesa. Investir como se tem feito muitas vezes, fiados em teorias erradas de quem não vive a emigração, sentado em confortável poltrona que os eleitores ofereceram em Portugal, é desperdiçar dinheiro e
energias, enquanto se negam apoios a quem tanto tem feito para preservar a Língua e a Cultura portuguesas, nomeadamente com a juventude luso-descendente.

Abram os olhos à realidade! Discutir o problema do Ensino do Português no estrangeiro não é tarefa para visitantes, mas de imigrantes generosos, que esquecem o seu ego, para com o
povo português e luso-descendentes fazerem onde estão um pouco de Portugal e, participando através do voto na vida do País que nos recebeu, merecermos respeito e sabermos exigir o nosso lugar no mosaico americano, sendo bons cidadãos americanos, honrando sempre a nossa naturalidade e as nossas raízes.

Tudo seria (talvez) mais fácil e seguro se, como muitos defendem, houvesse um Ministério das Comunidades. Um dos defensores desta ideia tem sido, ao longo dos anos o Dr. Manuel Luciano da Silva. Agora o deputado socialista, Caio Roque, antigo imigrante, defendeu recentemente no Canadá a criação de um ministro-adjunto para as Migrações, coadjuvado por dois Secretários de Estado, um para a Imigração e outro para a Emigração, o que se saúda, mas daí a esta ideia ser aprovada, vai naturalmente decorrer muito tempo e muita oposição, porque em Portugal não se sabe na verdade o que é a Emigração. A Emigração (mais de 4 milhões de portugueses residem fora dos território nacional) deveria ser matéria de estudo universitário e o Conselho das Comunidades Portuguesas deveria ter liberdade de se afirmar e de ser um órgão de consulta, não para inglês ver, mas com o único sentido de melhorara vida a tantos e tantos emigrantes.

Um bom imigrante português ama de verdade as suas duas pátrias - a que o viu nascer e a que o aceitou depois, e o falar português, assim como o cultivar a nossa cultura, é um enriquecimento pessoal, comunitário e nacional, mesmo no acolhimento.

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