O ensino do Português na América
tem
um fado lúgubre!
Por
Manuel Luciano da Silva, Médico
Presentemente entre dez mil línguas diferentes que há no globo, os optimistas dizem que a língua portuguesa está em quinto lugar. Primeiro é o Chinês, segundo é o Inglês, terceiro o Russo, quarto o Espanhol e quinto o Português. Se estamos em quinto lugar devemo-lo aos nossos maiores, aos nossos navegadores, exploradores, missionários, colonizadores e emigrantes!
Os portugueses que nunca saíram de Portugal, Açores e Madeira têm feito muitíssimo pouco para que o número de seres humanos no globo falem português. Pelo contrário preferem usar termos estrangeiros inferiorizando o valor da língua portuguesa. Preferem ser macacos de imitação com os seus anglicismos, americanismos, etc. É uma verdadeira lástima! Sabem mal o português (segundo as sondagens feitas por eles) e preferem, é chique, usarem expressões de outras línguas estrangeiras!
Têm sido os emigrantes, -- durante muitos anos considerados, apátridas, cidadãos de segunda, de terceira classes, -- quem têm mantido bem viva por esse mundo fora a língua portuguesa.
Agora que a emigração portuguesa terminou, ou os seus números estão pela rua da amargura, quase nulos, os governantes dos governos centrais de Lisboa, Ponta Delgada e Funchal, estão a ficar nervosos, não propriamente pela língua portuguesa, mas porque antevêem à distância que deixando de haver emigrantes portugueses, espalhados pelos cantos do globo, vai acabar-se a teta de se mandar para Portugal, Açores e Madeira aqueles biliões de dólares, ou de euros, todos os anos, cuja quantia é superior aos dinheiros que Portugal está a receber da União Europeia para ajudar a construir auto-estradas, pontes, hospitais, etc. Os emigrantes deixando de mandar dinheiro para Portugal vai ter um impacto negativo muito grande no balanço anual de pagamentos de todo o país.
Os governantes em Portugal ainda não se emanciparam, continuam com “o rei na barriga”, e só vêem as coisas pela varanda do Continente em relação ao resto do mundo! Não são capazes de compreenderem que o ensino do Português deve ser feito pela perspectiva dos emigrantes ou melhor ainda pelas perspectivas e apetites dos nossos filhos e dos nossos netos. Os governantes do governo central de Portugal quererem forçar pelas goelas abaixo o Português aos nossos jovens é fazer com que o destino do ensino do Português na América do Norte só tenha um destino fúnebre: morrer.
O exemplo das outras línguas
Eu vim para a América há 56 anos. Vim contra a minha vontade. Não queria ser emigrante porque antevia os sacrifícios que teria que passar para aprender o inglês, poder chegar a ser médico, passar os exames estaduais e adquirir a licença para praticar a medicina neste grande país. Hoje estou na América por minha livre vontade.
Mas eu lembro-me muito bem como é que naquele tempo, há mais de cinco décadas, os portugueses eram considerados os mais inferiores na escala social das comunidades onde viviam os emigrantes portugueses. Eu não gostava nada que nos chamassem “greenhorns” or gringos, e até “portuguís” no sentido perjurativo. Felizmente que os nossos imigrantes conseguiram, a pouco e pouco, imporem-se pelas suas qualidades de trabalho, pela melhoria da sua instrução e começaram a subir na escala social americana e hoje na Nova Inglaterra os imigrantes portugueses são vistos com muito melhor olhos pelos americanos e pelos outros grupos étnicos. Encontramo-nos quase ao nível da classe média trabalhadora americana. Foi um grande avanço!
Lembro-me também que nas cidades da Nova Inglaterra onde predominava a comunidade luso-americana, como New Bedford, Fall River, Taunton, e por todo o Estado de Rhode Island haviam também bem vivas comunidades italianas, francesas, polacas e até gregas. Todas elas tinham programas de rádio e jornais falados e escritos nas suas respectivas línguas. E hoje? Não existe nada!!! Até os clubes destes grupos étnicos já morreram ou estão a morrer e se alguns ainda existem já não se fala mais neles a língua das respectivas pátrias. Já não há mais jornais em italiano, nem programas de rádio em italiano. Nem em francês, nem em polaco. Até as igrejas dos franceses, dos polacos, estão a fechar! “Tudo o vento levou!”... Os filhos e os netos foram assimilados pelo meio ambiental americano. A língua inglesa passou ser a língua pátria dos filhos e dos netos...
E a metamorfose do nosso grupo português vai ser diferente dos outros grupos étnicos? Os Srs. de Portugal, à distância de 3 mil milhas, pensam que sim! Como estão enganados! O nosso grupo rácico na América vai ter o mesmo destino que os grupos italiano, francês, polaco e grego. Quem pensar ao contrário é estúpido e não percebe nada de sociologia.
Como é que se pode ainda salvar o ensino do Português na América? Antes de respondermos a esta pergunta temos que primeiro saber onde é que está localizada a matéria prima para podermos ensinar o Português. Onde é que estão os emigrantes, os seus filhos e os seus netos? Temos que obter uma resposta afirmativa e específica para podermos actuar duma forma pragmática e objectiva. Mas é ou não é nos filhos e nos netos dos nossos emigrantes que depomos todas as esperanças no ensino futuro do Português na América? A resposta a esta pergunta tem que ser cem por cento afirmativa, não pode ser dada com desculpas nem percentagens. Ou é ou não é! Tudo ou nada! Se assim é vamos então enfrentar o problema.
Mas ainda não respondemos frontalmente à pergunta, onde é que esta a matéria prima, os emigrantes, os filhos e os netos? Os emigrantes estão nas fábricas, nos clubes, nas associações, nas paróquias e igrejas portuguesas. E os filhos e os netos? Nas escolas elementares, nos liceus e nas Escolas Oficias Portuguesas (cerca de cinquenta na América). E nas universidades? Um número muito reduzido de alunos.
Então se o número de alunos nas universidades é o mais reduzido porque é que o Governo Português, o Instituto Camões, a Fundação Gulbenkian, a Comissão de Estudos do Ensino do Português da Assembleia da República concentram as suas atenções e as suas ajudas monetárias para as universidades americanas? Primeiro porque são burros! Segundo porque continuam a considerar os emigrantes, os seus filhos e os seus netos como cidadãos inferiores...
Não se apercebem que é de pequenino que se torce o pepino. Se quisermos que o ensino do Português na América tenha continuidade os responsáveis na educação do Português terão que ir de encontro, descer se quiserem, ao nível onde estão localizados os emigrantes os seus filhos e os seus netos. Doutro maneira será tudo fantasia, os responsáveis actuam só para manter o seu tacho, sem muitas maçadas, a armarem-se em intectualidades universitárias. Continuaremos na mesma fantasia sem enfrentarmos o problema, sem pegarmos o touro pelo cornos!...
Claro que os Srs. em Portugal responsáveis pelo ensino do Português e aqueles outros que estão nas universidades americanas não querem ouvir, nem aceitar as minhas críticas nem as minhas afirmações. Continuam a fazer ouvidos de moucos, não estão para maçadas nem para se aborrecer. É muito melhor falar de poltrona, botar faladura e usar adjectivos empolgantes, cheios de patriotismos hipócritas...do que vir ao nível dos imigrantes, gente trabalhadora e honesta! Se assim é largai-nos duma vez para sempre. Não sejais impostores, nem hipócritas, gente de duas caras!
Professores de Português nas Universidades americanas
Não sei quantas universidade americanas oferecem cursos de Português e Literatura Portuguesa. Mas estes professores também são de duas marcas, iguais a todos os outros professores universitários de outras faculdades. Nós aqui na América dizemos que os professores universitários são de duas marcas “cream” e “crap”, isto é, da ‘marca mel’ e da ‘marca merda’! Eu tive professores de ambas as marcas na Universidade de Nova Iorque e na Universidade de Coimbra.
O que nós devíamos fazer era um estudo analítico para sabermos quantos professores universitários americanos que ensinam o Português são membros activos de clube portugueses, de associações ou de paróquias-igrejas portuguesas? Para quantos jornais luso-americanos, programas de rádio e programas de televisão é que esses mesmos professores de Português participam regularmente, gratuitamente, para assim estimular, encorajar a nossa Comunidade Lusíada a ter gosto, a ter brio e honra pela língua e pela cultura portuguesa? Quantos é que fazem isso? Praticamente ninguém! Isso seria descer muito baixo, se suas excelências universitárias se misturassem com os nossos emigrantes! Suas excelências tem que falar sempre de cima da burra! Não se querem conspurcar com a nossa gente emigrante! Como é que depois vão poder arranjar alunos nos cursos deles para estudar a Língua, Cultura e História Portuguesas ao nível universitário? Nunca mais!
Eu quero saber quantas vezes é que os professores universitários de Português já visitaram as classes da Escolas Oficiais Portuguesas na América?
Professores
de Português para
os nossos filhos e os nossos netos
Portugal, Açores e Madeira: por favor não mandem para cá professores para ensinarem os nossos filhos e os nossos netos os verbos irregulares e as regras arcaicas da gramática.
Não, não queremos cá essas fantasias que não tem praticabilidade nenhuma, nem abrem apetite nenhum aos alunos.
Reconheço que não é nada fácil ensinar, captar, ao ponto de entusiasmar uma criança, um gosto sincero pela aprendizagem de outra língua, neste caso o Português.
A meu ver teremos que primeiro explicar em INGLÊS às criancinhas o significado das coisas portuguesas, para elas primeiro compreenderem o que estão a aprender e então depois iremos para o Português. Ensinar a Língua Portuguesa, logo de chofre, sem as crianças compreenderem primeiro que a comida portuguesa é mais gostosa que a americana, que em Portugal existem azulejos muito mais bonitos que na América, que em Portugal existe o melhor vinho do Porto do mundo, que a História Portuguesa está cheia de figuras heróicas e cativantes, que a arquitectura portuguesa é muito variada e cativante, que tanto o Continente, como os Açores e Madeira existem paisagens deslumbrantes que podem ser apreciadas mesmo com diapositivos, etc.
É
preciso incutir nas crianças um gosto especial para que elas comecem a
reconhecer que a aprendizagem da
Língua Portuguesa tem um grande valor pela vida fora além da própria
cultura e
também na vida adulta encontrarão maior oportunidade de trabalho neste mundo de
globalização.
O ensino do Português na América é um grande desafio para o futuro não só dos nossos emigrantes, filhos e netos, mas também para todas as autoridades responsáveis e professores. Uma coisa é certa, se os responsáveis continuarem a desprezar os emigrantes, filhos e netos, se não se misturarem com eles, o ensino do Português só tem um destino: morrer.
Os emigrantes, os seus filhos e os netos é que têm que ser o EPICENTRO, o coração do ensino do Português na América. Se todas as energias não se concentrarem neste sentido todos os outros planos vão acabar em falhanços!
A
organização das Jornadas das
Comunidades que se realizou recentemente
em Lisboa, Portugal, fez a escolha dos participantes
exactamente ao contrário do que se devia fazer. Seleccionou
por cima, em ver de começar por baixo, pelas bases. Isto de fazer
castelos no ar nunca dá nada. É
igual a zero!
Quem esteve lá da América que falasse pela perspectiva dos emigrantes, dos filhos e dos netos?
Porque
é que alguns presidentes das Escolas Oficiais
Portuguesas, alguns
presidentes de clubes e até
alguns padres
não foram convidados? Certamente estes indivíduos estão muito mais próximos
da fogueira e sabem muito bem o é
que se deve fazer para manter a chama viva para
se ensinar o Português aos nossos descendentes.
Quero terminar com as afirmações do Sr. Manuel Estrela, autor e jornalista luso-americano, mas que também já foi presidente da Escola Portuguesa Oficial de Fall River, Massachusetts, E.U.A.
“As Escolas Oficiais Portuguesas, que podiam ser a base do ensino, andam às costas de algumas (poucas) boas vontades quando, na realidade, o ensino do Português compete ao Governo Português, mas parece que em Lisboa não se pensa assim”.
É por esta razão que a odisseia do ensino do Português na América parece que tem o destino marcado!... Portugal não quer investir agora, para colher mais tarde e vai acabar por perder tudo... Continuam com a mesma técnica que fizeram com as colónias portuguesas. O diapasão é o mesmo! É como a música da Relva: “O mesmo e mais forte!”
Ministro das Comunidades
Se é verdade que existem mais de quatro milhões de portugueses emigrantes espalhados pelo mundo, os vários governos de Portugal em manterem apenas um Secretário das Comunidades é um insulto a todos os emigrantes, não só pelo número democrático representativo que somos, mas também pela força monetária que representamos em enviarmos uma quantidade fabulosa das nossas economias para Portugal, Açores e Madeira. Enquanto não for escolhido um Ministro das Comunidades para que se possa sentar à mesa no Conselho de Ministros, Portugal vai continuar a “brincar” com os emigrantes e a considerar-nos cidadãos de terceira classe, em vez de nos acarinhar e respeitar como verdadeiros portugueses que somos, tanto ou mais do que aqueles que nunca tiveram que sair da sua terra natal!