O  RETRATO DE MIGUEL CORTE REAL

Por Manuel Luciano da Silva, Médico

Todas as honras desta grande descoberta vão direitinhas para o Doutor Américo da Costa Ramalho, Professor da Universidade de Coimbra e especialista em Cultura Helénica e Humanista,  em Portugal.

Foi  este académico  que descobriu  um  elogio em latim, contemporâneo de Miguel Corte Real, escrito pelo poeta  italiano Cataldo Sículo,  que residia temporariamente em Lisboa   e  foi publicado na colectânea POEMATA, em 1502.  

 

 

Pintura de Gaspar Corte Real.  Miguel Corte Real foi à  procura  do irmão em Maio de 1502. Nem um nem outro  jamais voltaram  a Portugal.   Que eu saiba não há pintura nenhuma de Miguel Corte Real.

 

 

 

Nunca  ninguém tinha analisado este poema em relação ao navegador Miguel Corte Real. Logo  no começo da sua monografia  o Professor Costa Ramalho alerta-nos:

"Não há dúvida nenhuma de que se trata do famoso Miguel Corte Real e traz, pelo menos,  um subsídio  histórico para  sua biografia, até hoje não aproveitado."

O poema consta de quarenta  e quatro versos dedicado a "michaele curie regalis " ou seja a Miguel Corte Real. Vamos rever a tradução  do referido poema feita pelo Professor Ramalho: O título do poema é como acima se disse --  "Dedicado a Miguel Corte Real".

Nos primeiros versos o poeta expressa a sua "humildade poética" mas ao mesmo tempo  revela bem claro o nome do protagonista como sendo  descendente dos famosos Corte Reais.

Diz o poema:

"Foge-me o talento e a eloquência, apodera-se  de mim o terror, quando tento  dizer os feitos de tão grande capitão".

 "É aquele que tem o nome do príncipe celeste  dos cavaleiros e a quem os antepassados legaram o apelido de Corte Real."

"Tudo quanto faz é digno de triunfos, digno de ser posto em tábua de cedro."

"Avô e bisavô o tornaram nobre pelo sangue. E ele os adorava em todas as virtudes."

"Ele tudo realiza, segundo o pensamento de quem lho ordena (o Rei)."

"Cavaleiro ilustre, ora actua como soldado, ora veste armas ligeiras. Em qualquer caso, a sua presença significa victória."

RETRATO FÍSICO E CARACTER

E agora vêm os versos que nos dão em pormenor a aparência, o retrato físico e o carácter do famoso navegador Miguel Corte Real:

"É amável com pessoas amáveis, brando com brandos amigos, mas com os arrogantes torna-se bastante ríspido."

"Não aprendeu  as belas letras na infância, mas ensinado pelo seu talento tudo sabe."

"De aspecto, é sereno e belo, e mais belo é o seu íntimo. Da sua boca eloquente jorra uma graça variada".

"Gosta de dar muito, com mão larga, a quem o merece e piedosamente se esforça  por não prejudicar  a quem o não merece". 

PORTEIRO-MOR

Qual era a posição oficial de Miguel Corte Real? 

É Cataldo Sículo que nos informa:

"Talvez queiras saber qual é o ofício deste Senhor?

"O Rei confia-lhe todos os encargos. Principalmente como porteiro-mor do palácio  sobre as muralhas, é ele quem, no meio do silêncio geral, manda trazer os alimentos."

"A este homem tão leal confia D. Manuel com razão os seus segredos, tão grande é a virtude que nele reside, tão grande a honra."

GUERREIRO

E agora vem a parte  guerreira de Miguel Corte Real  que era totalmente desconhecida:

"Passou às costas africanas em navios. Era o comandante. Preparava-se para aí conquistar uma fortaleza, pondo-lhe cerco".

"Fosse inveja, fosse o fado iníquo, a multidão dos companheiros  entrega-se a vergonhosa fuga, sob a pressão do inimigo".

"Ele com uma pequena força , faz frente aos africanos que se precipitam ao ataque e retira coberto de sangue, depois de grande morticínio."

E o poeta  Cataldo conclui  o seu poema comparando o  heroísmo de Miguel Corte Real aos heróis da Antiga Grécia.

O Professor Costa Ramalho faz uma análise pormenorizada dos vários dados revelados  neste  poema. Explica a origem do nome Corte Real que foi dado à Vasco Eanes, um dos antepassados de Miguel,  pelos grandes serviços prestados à Corte Real presidida pelo Rei D. Duarte.

Confirma a posição de porteiro-mor da Casa Real,  portanto uma das posições mais altas na Corte Portuguesa.

Explica que o verso que diz que Miguel Corte Real "Não aprendeu as belas letras na infância",  isso não quer dizer que o navegador era analfabeto!   Quere  dizer, sim,  que  Miguel Corte Real não sabia Latim.  E o Professor Costa Ramalho acrescenta que isto é muito importante para darmos razão ao facto de Miguel Corte Real não ter deixado nenhuma mensagem em latim gravada na Pedra de Dighton. Esta conclusão  é  igual à que afirmei no meu livro "Portuguese Pilgrims and Dighton Rock" publicado em 1971 e esgotado desde 1976. 

Infelizmente  a mensagem  que o  psicólogo-historiador,  Prof. Delabarre da Universidade de Brown,  sugeriu   em 1928 de que Miguel Corte Real tinha deixado na Pedra de Dighton   uma mensagem em latim = "V(oluntate) Dei Hic Dux Ind(orum)", significando: " Chefe dos Indios aqui",  é uma FANTASIA  que continua a ser repetida em muitas notas de rodapé,  que na realidade são aquilo  a que eu chamo "notas de chulé"!

Outra análise importante do  poema de Cataldo é o facto de ficarmos a saber que  Miguel Corte Real também foi guerreiro nas campanhas de Norte Africa.   Isto é muito importante para explicar a assinatura duma carta dele em 1501 dirigida ao Rei D. Manuel, que o próprio historiador Henry Harrisse teve dificuldade em entender porque não tinha dados que explicassem que Miguel Corte Real jamais tinha estado em  Málaga,  Espanha,  no ano antes de partir para a América do Norte, em 10 de Maio de  1502,  à procura do irmão Gaspar Corte Real que não tinha regressado a Lisboa  da sua segunda viagem  em 1501.

TEORIA PORTUGUESA DA PEDRA DE DIGHTON

O Professor Costa Ramalho conclui o seu trabalho desta maneira:  

 

"Durante anos, a teoria prevalecente foi  a do psicólogo, tornado historiador, Professor Edmund Burke Delabarre, que ,  descobriu o  nome de Miguel Corte Real,  o Escudo Português e a data de 1511. Posteriormente  (1951), um professor universitário de Português, José Dâmaso Fragoso, (na "New York University), revelou a existência de heráldica lusa no rochedo - três cruzes da Ordem de Cristo. E um médico de origem portuguesa, estabelecido nos Estados Unidos, o Dr. Manuel Luciano da Silva, tem sido o ardente propagandista da teoria de que o rochedo de Dighton é um documento histórico da presença de Miguel Corte Real  nas costas da América do Norte. Ele nega a mensagem em latim, reduzindo o texto da inscrição ao nome do navegador  e a uma data, 1511, além de um Escudo  Português e três Cruzes da Ordem de Cristo."

Fez, no dia 18 de Dezembro de 1998,  OITENTA ANOS  anos que o Professor Delabarre lançou a teoria portuguesa das inscrições  portuguesas  gravadas na Pedra de  Dighton.  Durante estas oito décadas TODAS  as investigações  só têm servido para consolidarem  cada vez mais a Teoria Portuguesa da Pedra de Dighton. 

Claro que fiquei satisfeito com este artigo original do Professor Costa Ramalho que chegou a ser "Visiting Professor"  de Português na "New York University",   entre 1959-1962.   Naquele tempo eu já era médico. Mas a "New York University"  foi a minha primeira "alma matter",  onde eu  me formei em biologia em 1952. 

Devemos realçar ainda mais a importância da  investigação  original do Professor Ramalho pelo facto de ser  BASEADA   na  ANÁLISE DUM DOCUMENTO CONTEMPORÂNEO DE MIGUEL CORTE REAL.  Parabéns,  ao ilustre Mestre!

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