Artigo da Semana 
Quinta semana de Setembro de 1999

Saramago e a Pedra de Dighton
Por Manuel Luciano da Silva, Médico

  Durante os 41 anos que pratiquei medicina nunca tive tempo livre para me sentar e ver  directamente na televisão  as cerimónias da entrega dos Prémios Nobel.  Porque me reformei no dia 12 de Outubro de 1998, (Dia de Cristovão Cólon), preparei-me para ver ao vivo e em directo as transmissões,  desse acontecimento internacional, fornecidas pela Rádio Televisão Portuguesa Internacional, no dia 10 de Dezembro de 1998. Queria saborear todo o cerimonial não só dos galardoados nos campos da Medicina, Física, Química e Economia, mas em particular José Saramago, o Português que ia receber o Prémio Nobel da Literatura de 1998.

Vi toda a cerimónia e gostei. Impressionante! Não há dúvida que a recepção dum Prémio Nobel significa  a maior homenagem  que uma Instituição, uma Nação,  e indirectamente toda a Humanidade,  pode prestar  à  inteligência  de cada galardoado! Soube-me  ainda melhor  quando vi   o Presidente do Comité Central do Prémio Nobel ler em Português as qualificações porque  José Saramago tinha sido seleccionado para receber o Prémio de Literatura de 1998!   Foi um dia grande,  histórico e inesquecível não só para o grande escritor e  sua família,  mas  também para todos os portugueses, independente  dos seus partidos ou religiões, que vivem  neste planeta!

AULA MÁXIMA  DA UNIVERSIDADE
Uma coisa que eu não contava presenciar  na RTPInternacional   foi o espectáculo que decorreu no palco da Ala Máxima da Universidade de Lisboa, ANTES  das cerimónias se inciarem em Estocolmo.  Foi para mim uma grande surpresa ver  actores, tocadores e  cantores  dos  vários países lusófonos, a prestar homenagem a José Saramago  e a celebrar  com canções típicas  e alegremente  o Prémio Nobel de Literatura de 1998.

 Todos os participantes naquele festival foram levar  a Lisboa,  ao palco da Aula Máxima da Universidade de Lisboa, os seus  valores artísticos, inspirados nos bons sentimentos patrióticos portugueses e também  demonstrar o seu testemunho da presença portuguesa em várias partes do globo.

As actuações daqueles artistas TOCARAM-ME DIRECTAMENTE  porque eu também actuei  NAQUELE  MESMO  PALCO,  no dia 8 de Setembro de 1960,  quando apresentei,  no Primeiro Congresso Internacional dos Descobrimentos Portugueses,  a minha comunicação sobre as inscrições portuguesas na Pedra de Dighton.  Já lá vão mais de 39 anos!  Fi-lo, com todo o meu  entusiasmo,  motivado por um  sentimento  patriótico semelhante, prestando  homenagem e justiça aos navegadores portugueses Corte Reais,  como descobridores da América do Norte. 

No dia seguinte à minha intervenção no Congresso dos Descobrimentos,   a  9 de Setembro de 1960,  o  "DIÁRIO DE NOTÍCIAS"  de Lisboa, trazia, num cabeçalho de três colunas, na primeira página,  a seguinte notícia: 

"Ontem, no Congresso dos  Descobrimentos. AMBIENTE DE SENSACIONALISMO.

Debates Acalorados e Alto Nível de Trabalhos. Acesa discussão entre um português e um luso-americano. O sangue lusitano corre nas veias dos Indios. A Pedra de Dighton e a chegada de Corte Real à América."

  Vejamos agora o texto da notícia no "Diário de Notícias" de Lisboa:

"O período mais agitado da tarde começou cerca das 16:30, quando o Dr. Luciano da Silva, um jovem médico português  (fellow, em Medicina na famosa Lahey Clinic, de Boston) se apresentou com a sua comunicação original e desenvolvida argumentação a favor da prioridade da chegada de Corte-Real à América, sobre Cristóvão Colombo. Baseia-se o conferencista na inscrição da Pedra de Dighton.

Se não fosse o Infante  -- diz o Dr. Luciano da Silva -- não haveria Pedra de Dighton, pois as suas inscrições  foram feitas, em 1511, por Miguel Corte Real, admitindo através  de uma investigação original, que a primeira língua civilizada  falada pelos índios foi o português. Os índios, americanos -- disse -- têm, aliás, sangue lusitano.

Deve dizer-se que o anfiteatro estava repleto. Que os animados espanhóis, participantes no Congresso, se haviam concentrado na Aula Máxima e que, seguindo atentamente  o desenvolvimento da tese (aliás documentada com magníficos diapositivos e um filme colorido -"feito à custa do congressista e de sua família confessou com orgulho"-)  a comentavam em vários tons de surdina, entrando e saindo, para poderem lá fora discutir  melhor o assunto. O Dr. Luciano da Silva subira ao estrado com a sua velha "valise" repleta de fotocópias, esquemas e jornais (alguns dos seus argumentos) e ia concluindo:  o continente americano foi descoberto pelos portugueses antes de Colombo nascer. Os Profs.  Delabarre e Joseph Fragoso deram apoio ao Dr. Luciano da Silva, que fez a história da Pedra de Dighton, das inscrições e das suas interpretações. E passa a demonstrar  que os índios  aprenderam português antes de lá chegar Colombo. É o próprio "Dictionary of  American-Indian" que o sugere. Pois onde ou com quem haviam eles de aprender senão com portugueses a dizerem "bacalhau", "canada", "abrigador" e "abrigada", "saco", "curvo, "akoa", "fogo", "brigas" e tantas outras palavras da velha língua lusitana?

E vem a argumentação de que os índios americanos têm sangue português: "Testaquina"  (testa de ferro) e "Amenquina" (chefe da tribo de Maine) e "Quina" (nobreza e chefia) desdobram-se como argumentação. A América guarda muitos nomes de terras formadas com a palavra "quina" da quina do escudo português: Quinapang, Quinapaag... Os irmãos Quina -- e o orador exibe a larga "manchette" do "Diário de Notícias" de ontem -- são talvez descendentes  dos homens que levaram aos índios americanos as quinas de Portugal...

E porque é que na América se conserva  o nome de Mar dos Sargaços, em lugar de se escrever  à espanhola: Mar de los Sargazos" ou à italiana "Mar dei Sargassi"?

Uma estrondosa salva de palmas  -- a maior do Congresso... -- abalou a sala, quando o Dr. Luciano da Silva acabou  de apresentar o seu filme  (aquilo- disse -- faz-se com botas de água e sacrifício  e não comodamente  nas bibliotecas...), subindo então ao estrado para comentar e felicitar o autor o sr. Castro Júnior, logo seguido do Dr. João da Silva Lacerda, Jorge Preto e prof. Rogers. Este, porém ia pedir ao autor  calma e ausência de publicidade.  É  preciso estudar. Em quem baseava o seu trabalho?

Nalgum mestre?  "Prof" na América não é bem o título universitário português. -- e acaso ao chamar-se mestre a Aristóteles ou a Platão se lhes pede o título de "Prof."? --  rebate o Dr. Luciano da Silva.

E mais nada. O prof. Rogers é aplaudido pelos espanhóis. Há  uma certa confusão. Alguns portugueses, pensando que se aplaude o Dr. Luciano Silva associam-se...

E passa-se, para sossego de todos, a outras comunicações..."

CÚMULO  DA  VELHACARIA
Eu nunca tinha visto o professor  Francis Rogers, da Universidade de Harvard, mais gordo.... Foi o nosso primeiro encontro!  Fiquei surpreendido por ele  ter subido ao palco e pedir "ausência de publicidade da minha comunicação", quando eu tinha acabado de receber a "
MAIOR SALVA DE PALMAS DO CONGRESSO!"

Perguntou-me,  no estrado, onde é que eu tinha encontrado os  vocábulos indianos de origem portuguesa e eu,   sem cerimónia,  dei-lhe três  palmadas no ombro esquerdo  e disse-lhe: "Nas catacumbas da universidade (Harvard) onde o senhor ensina português!"

O prof. Rogers não gostou nada  que eu mencionasse na minha comunicação o nome do prof. José Dâmaso Fragoso da Universidade de Nova Iorque.   Depois vim a saber que o prof. Rogers tinha muita inveja do prof. Fragoso, que naquela altura ensinava  também português na Universidade de Nova Iorque. Mas o Fragoso falava e escrevia português muito melhor que o prof. Rogers. Basta dizer que o Fragoso, antes de emigrar para a América em 1919,  tinha tirado o curso geral dos Liceus em Ponta Delgada  e  depois trabalhou, durante muitos anos,  na secção portuguesa dos Serviços Secretos Americanos.

O prof. Rogers foi ao Congresso dos Descobrimentos com tudo pago pelo governo português: viagem, hotel e comidas. Eu tive que pagar tudo do meu bolso. Mas eu   também  tinha um Cartão de Congressista devidamente credenciado,  de contrário como é óbvio, não  poderia ter feito a minha apresentação naquele Congresso Internacional onde participaram  investigadores de mais de setenta  nações, com a presença de mais de dois mil espectadores na Aula Máxima da Universidade de Lisboa!    

O certo é que o  grande  f. d. p.  do prof. Rogers exerceu a sua influência como  "grande professor americano" sobre os organizadores do mesmo Congresso dos Descobrimentos de tal maneira que  o MEU NOME e a MINHA COMUNICAÇÃO FORAM ILIMINADOS DOS SETE VOLUMES   DAS  ACTAS  DO  CONGRESSO!  E as Actas do Congresso têm um total de três mil duzentas e dez páginas!

Mas tudo se paga neste mundo. Todos os organizadores do Congresso: prof. Caeiro da Matta, presidente; prof. Damião  Peres, vice-presidente; prof. Moreira e Sá, secretário;   e prof. Luis Albuquerque, vogal,  já todos morreram!   E o prof. Francis  Rogers também já lhes foi fazer compania há vários anos!..   O velhacão do prof. Damião Peres eliminou a minha apresentação das Actas do  Congresso Internacional  -- intitulada "Prince Henry the Navigator and Dighton Rock " -- mas  no ano seguinte serviu-se dela  para a analisar  no seu livro  --  "História dos  Descobrimentos Portugueses" (Coimbra 1961) --  gastando nove páginas para a  criticar! (páginas 476-482). 

Mas afinal para que é que se fazem congressos?  Não é para   que toda ou quer matéria ao ser apresentada num  congresso seja depois posta a teste,   exposta ao público  em geral,  para ser refutada ou aprovada?     O que o prof. Damião Peres e os outros  directores do Congresso Internacional me fizeram foi do mais alto grau de velhacaria.  Enfim já estão todos a arder no inferno!

E eu depois daquele dia memorável -- 8 de Setembro de 1960 -- já consegui realizar trezentas e quarenta e quatro conferências, com diapositivos coloridos,  em três continentes, sobre as inscrições portuguesas da Pedra de Dighton.  Escrevi dois livros (esgotados)  descrevendo  as minhas investigações, fiz inúmeros programas de rádio e de televisão sobre a matéria.  Consegui que a Pedra de Dighton fosse retirada da água.   Construiu-se um Pavilhão e  um Museu  para proteger a Pedra, num Parque Estadual com uma área igual à do Vaticano, em Roma!  Já existem  três Réplicas da face da Pedra de Dighton,  feitas de fibra de vidro, em Portugal: uma em Belém junto ao Jerónimos, outra no Museu de Oliveira de Azeméis  e outra na Casa-Museu em Vale de Cambra!   E a revista "National Geographic", com uma tiragem de mais de ONZE milhões de cópias, espalhadas por todo o mundo,  publicou a história portuguesa da Pedra de Dighton com uma magnífica fotografia  colorida, na edição de Janeiro de 1975. 

A velhacaria  dos meus inimigos  ainda me  tem dado  MAIS  entusiasmo para continuar a fazer cada vez MAIS  por Portugal e pelos Descobrimentos Portugueses! Vai ser assim enquanto eu  tiver vida e saúde!

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