Segundo artigo
A Pedra  de Dighton e o Dr. Luciano da Silva

Pelo Jornalista-historiador Basílio José Dias
Publicado no “Atlântico Expresso”, 13 de Dezembro de 2004
 Ponta Delgada, São Miguel, Açores

  Uma série de artigos intitulada “América- América”
 Do Século XV ao Século XX

 

O Dr. Manuel Luciano da Silva desapossou-se dos momentos de descanso que a profissão
 de médico prognostica e quando a  maré baixa autorizava, calçou botas altas impermeáveis  
e lá ía ele, a estudar a já baptizada “Pedra de Dighton ”.

(Nota do Dr. Luciano da Silva : Não tenho o prazer de  conhecer o escritor Basílio José Dias. Certamente que vou procurar o seu endereço para lhe agradecer a publicação desta série de artigos e dizer-lhe que esta é a primeira vez que ALGUÉM  publica  POSITIVAMENTE num jornal açoriano artigos sobre a veracidade Portuguesa das inscrições da Pedra de Dighton e  sobre os heróis navegadores Corte Reais. Bem haja). 

Vista aérea do Museu da Pedra de Dighton. O Pavilhão que contem a Pedra dentro de uma redoma de vidro é o edifício com a casinha pegada. 

A pedra em 1963 foi elevada 11 pés, porque até essa altura estava metida na água do rio Taunton. O outro edifício contíguo é o Museu propriamente dito, contendo os painéis e os artefactos marítimos. 

      Eis o segundo artigo desta série do  Basílio José Dias:

O Dr. Manuel Luciano da Silva, porém,  minucioso nos elementos confirmativos do que se propôs esclarecer, transcreve, na íntegra, cartas de dois diplomatas italianos, em representação em Lisboa, Alberto Cantino e Pedro Pasqualigo. Ambos descrevem  «os icebergs, o Continente-Canadá, os «índios» (o tal baptismo ou alcunha Colombiano), que Gaspar trouxera como mostra, «um tanto mais altos que os nossos naturais», vestidos com peles de animais, principalmente lontras-homens que são os mais excelentes para o trabalho e os melhores escravos que houve até agora. O seu aspecto asselvajado, encobre atitudes e gestos muito suaves, riem bastante e demonstram grande alegria.

Refere, ainda, a referida correspondência que a distância da Terra Nova a Lisboa  «Dizem ser mil e oitocentas milhas ou duas mil milhas».

Estes são alguns dos reparos dos italianos Alberto Cantino e Pedro Pasqualigo, referentes aos aborígenes americanos trazidos por Gaspar Corte Real, que eram os descendentes dos grupos mongóis, que havia 20.000 ou 25.000, ou mais milhares de anos atrás, sangraram os pés, atravessando os rochedos do estreito de Bearing.

Mas Gaspar, insatisfeito com o muito que havia praticado, teimou aprofundar conhecimentos «e que quer ainda agora a continuar a por em obra e fazer nisto quanto puder por achar», como acentua o Rei D. Manuel, em Carta Real de 12 de Maio de 1500.  D. Manuel, em cartas de 27-1-1501 e 15-1-1502, reitera autorização a Gaspar para embarcar e «fazer todo o possível para executar o seu plano».

Desta última vez, Gaspar partiu... mas não regressou. Deu início à tragedia.

Seu irmão Miguel, rogou a D. Manuel para o procurar, que a 11-1-1502, condescendeu: «fazemos saber que Miguel Corte Real, fidalgo da nossa casa e nosso porteiro mor, nos disse ora que vendo ele como Gaspar Corte Real, seu irmão, havia dias que partira desta cidade, com 3 navios a descobrir terra nova, da qual já tinha achado parte dela e como depois de passado tempo viera dois dos ditos navios à dita cidade haveriam cinco meses e ele não vinha, que ele o queria ir buscar».

Assim, devidamente autorizado, Miguel aproou à Terra que viria a tomar o nome de Cortes Reais. Partiu e... desaparecidos documentos históricos, só restou a lenda.

Em 1913, o Professor de Psicologia, Edmund Burke Delabarre, da Universidade de Brown,  interessou-se pelas «garatujas» de uma pedra de 40 toneladas, jazendo na margem esquerda do Rio Taunton, próximo da Vila de Dighton, não longe de Fall River, na Nova Inglaterra. «Garatujas», que haviam atraído a atenção do Reverendo  John Danforth, em 1680, de James Winthrop, em 1788, de Baylies e  Goodwin, em 1790.

O Professor Delabarre, durante doze  anos estudou o que se escrevia sobre o assunto, sem conseguir tirar conclusões satisfatórias. Mas insistiu na análise directa da «pedra» e, em 2 de Dezembro de 1918, distinguiu a data de 1511. Um achado, a estimular e convencer que outros estariam a aguardar a sua hora de revelação. Delabarre, desvendou, logo a seguir MI e CORT, que queriam gritar MIGUEL CORTE REAL e «viu», também, o escudo português em "V".

 

Por estas descobertas, o Professor Delabarre, foi condecorado pelo Governo Português, com a Comenda da Ordem de Cristo.

José Dâmaso Fragoso natural de São Miguel, Vila da Lagoa, prestou atenção à Pedra de Dighton desde 1928, fundando  a “Memorial Society de Miguel Corte Real"  que comprou os 49,5 acres da terra adjacente à Pedra e fundou  também a revista intitulada “ O Mundo Português”.  O Professor Fragoso ( na New York  University)  foi combatido, incluindo ofensas corporais. Mas concluiu na existência da Cruz da Ordem de Cristo. O que decidiu a teoria dos Corte Real.

Pedra de Dighton dentro da redoma de vidro no Pavilhão do Museu.

Foto de Victor Nóbrega com grande angular.

 

 

No século XX, porém, tudo se esclareceu. Já era tempo.  O Dr. Manuel Luciano da Silva, ao tempo “Fellow” do Corpo Médico da  Clínica Lahey de Boston, desapossou-se dos momentos de descanso que a profissão  de médico prognostica e quando a maré baixa autorizava, calçou botas altas impermeáveis e lá ía ele, a estudar a já baptizada «Pedra de Dighton». 

Leu, releu, luz ao alto, luz rasante, frio, chuva, tudo fazia parte do propósito de por a claro, o que fora gravado na pedra, com a lágrima da saudade no corte do cinzel. Teimou ... padeceu... decifrou: Miguel Corte Real e sua companha, foram os primeiros repovoadores do Continente Americano na era áurea portuguesa.

  Agradecimento Açoriano

O Dr. Manuel Luciano da Silva tem recebido felicitações de muitos meios intelectuais. Quanto a nós, falta a presença do agradecimento AÇORIANO. Os Açores têm forte motivo de reconhecimento a quem documentou, com sacrifícios e trabalhos, de mais, volun­tários, para que o seu ilustre Filho, Miguel Corte Real, transitasse de uma meia lenda, baseada em hipóteses possíveis, para a História real e heróica, dos descobrimentos. Não foi tarefa comezinha.  Afecto, a quem  o merece. Os Açorianos, costumam a ser corteses.

América... América, grande é o teu porte. Na seiva que te nutre, correm lembranças tristes, outras conformadas e sangue, suor, com muitas lágrimas de bons Portugueses, que sempre contigo estiveram... e se não afastam.  


Nota: Sempre por insistência do Dr. Manuel Luciano da Silva, a "A Pedra de Dighton ", ou melhor "O Padrão de Dighton ", ocupa hoje uma vitrina octogonal, num pavilhão construído para o efeito na Parque Estadual próximo da cama lodosa, onde havia jazido por milhões de anos, no Rio Taunton, a Sul  de Massachusets.

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