Terceiro artigo
A Pedra  de Dighton e o Dr. Luciano da Silva
Pelo Jornalista-historiador Basílio José Dias

Publicado no “Atlântico Expresso”, 27  de Dezembro de 2004
 Ponta Delgada, São Miguel, Açores
Uma série de artigos intitulada “América- América”

 Do Século XV ao Século XX

Repovadores e companhia

  Tentámos evidenciar o período dos estudos da única via aberta dos mares, para Portugal achar novas terras. Porque era preciso implantar um Império, além do enigmático horizonte, que recebesse e alimentasse o crescimento da população e alargasse o território necessário para elevar o estatuto de autoconfiança e por a distancia, as nações candidatas a trocas e negócios, na correspondente linha da igualdade.

(Nota do Dr. Luciano da Silva : Não tenho o prazer de  conhecer o escritor Basílio José Dias. Certamente que vou procurar o seu endereço para lhe agradecer a publicação desta série de artigos e dizer-lhe que esta é a primeira vez que ALGUÉM  publica  POSITIVAMENTE num jornal açoriano artigos sobre a veracidade Portuguesa das inscrições da Pedra de Dighton e  sobre os heróis navegadores Corte Reais. Bem haja). 

Eis o terceiro artigo de Basílio José Dias

  Na nossa última crónica, diligenciamos recapitular ocorrências marítimas para os lados da América, do Século XV ao Século XX.

Chamamos a atenção para o debito dos Açores, para com o Dr. Manuel Luciano da Silva, que no Século XX, deu esforço isolado, para retirar da lama das águas do Rio Taunton, próximo de Fall River, o DOCUMENTO, necessário e suficiente, para substituir da lenda ou meias hipóteses, o herói e talvez Santo Açoriano, Miguel Corte Real. As provas palpáveis que até então se escondiam com as marés, galgaram a ter­ra e instalaram-se em lugar de destaque para testemunhar os factos ocorridos 500 anos atrás.

São os documentos visíveis, que contam, a perpetuar em letras de luto, embora, no pedestal da História Trágico-Marítima, dessa era, em que a Pátria valia a aventura e a vida dos seus filhos, com a paga por conta das ondas, e dos ventos. E o imprevisto não entrava na despesa, bastava o apego ao dever a cumprir, usando nervos enrijados pela Fé e músculos sustentados pela ânsia de superar as rudezas e carências das missões.

Os barcos de Gaspar e Miguel combinaram encontrarem-se no paralelo 42 (cerca da ponta do Cabo dos Bacalhaus),  no dia 20 de Agosto para regressarem  a Portugal. Quem não aparecesse ficava para trás.  Assim no terceiro domingo do mês de Agosto, para celebrar o “Dia da Saudade” têm-se realizado Missas Campais em frente ao Museu da Pedra de Dighton.

Tentamos evidenciar o período dos estudos da única via aberta dos mares, para Portugal achar novas terras. Porque era preciso implantar um Império, além do enigmático horizonte, que recebesse e alimentasse o crescimento da população e alargasse o território necessário para elevar o estatuto de autoconfiança e por a distância, as nações candidatas a trocas e negócios, na correspondente linha da igualdade.

E acrescentamos, que Miguel e sua marinhagem, por precedência e DOCUMENTO, foram os primeiros Repovoadores da América, na era áurea desse surpreendente esforço português, para firmar a sua nacionalidade e ter direito a proteger o seu futuro.

DOCUMENTO, ao abrigo da LEI, onde constam, a data, bem legível -1511 - o nome de quem sabe escrever e se responsabiliza pelos seus actos - MIGUEL CORTE REAL - e o selo inconfundível da CRUZ DE CRISTO, que chancela a exactidão.

Fig 2Elevando a Hóstia: Celebrantes da Missa Campal--  Padre Louis Diogo da Igreja de Santa Isabel de Bristol, RI  e o Padre Cardoso da Igreja de São Miguel de  Fall River

Fig 3 Na  Missa Campal com dois padres e dois Decanos no acto da elevação dos cálices.

  Relembramos que João Vaz, localizou e deu nome a Terra Nova em 1472, que logo de seguida, outro baptismo Ihe foi conferido de Terra dos Bacalhaus, palavra esta de origem portuguesa. Talvez que o nome de Terra dos Bacalhaus, na altura, possa anunciar que antes de Cristovão Colombo pisar a ilha de S. Salvador, em 1492, em Lisboa, já se comia o, ainda hoje, apreciado peixe. Se assim  foi, mais uma contradição, da descoberta de Colombo.  De Gaspar Corte Real, respeitador do sigilo das navegações autorizadas pelo Rei, nada escreveu sobre os seus feitos.

O que sabemos sobre o que ele presenciou nas suas visitas a América, esta descrito pelos diplomatas espiões italianos, Alberto Cantino e Pedro Pasqualigo.   Cantino, escreveu ao seu «patrão», Hércules de Este, Duque de Ferrara, que vigiava ocasião de intercalar oportunidade para desviar lucres.

Damos os tópicos principais:

«No quarto mês chegaram à vista de um grandíssimo país... encontraram abundância de frutas várias  e suavíssimas e árvores e pinheiros de tão grandes altura e espessura que seriam grandes demais para mastros da maior nau que andasse nos mares... os homens deste país dizem não viverem senão da pesca e da caça de animais, dos quais a terra abunda, veados de longo pelo, cuja pele eles usam para vestuário e fazer casas e barcos... dos homens e mulheres deste lugar, agarrados pela força, cerca de cinquenta e tendo-os trazido ao Rei, os quais eu também vi, toquei e examine!; começando pelo seu tamanho, digo que são um tanto mais altos que os nossos naturais, com membros correspondentes e bem formados... os olhos são esverdeados e quando nos olham, dão uma grande frieza a toda a face; o falar não se entende mas mesmo assim não há qualquer aspereza e é portanto humano; as suas atitudes e gestos são muito suaves, riem bastante e demonstram gran­de alegria, isto quanto aos homens. A mulher tem seios pequenos e um corpo muito belo, tem um ar bastante gentil e da sua cor quase se pode dizer tão branca do que qual­quer outra... em todas as partes estão nus salvo nas partes vergonhosas que estão com pele dos veados... não possuem armas nem ferro, mas sei que trabalham e sei que o fazem com duríssima pedra aguçada,  não havendo nada tão duro que não possam  cortar com ela... este navio navegou durante um mês e dizem ser duas mil e oitocentas milhas de distância...»

Pasqualigo também escreveu. Calcula a distância de Lisboa de mil e oitocentas milhas. Pouco adianta a carta de Cantino.

Foram estes dois informadores dos ICE­BERGS, que dão nota das viagem de Gaspar.

Ao pedido de Miguel para «achar» seu irmão, o Rei D. Manuel, em 11 de Janeiro de 1502, condescendeu e acrescentou: «que sendo o caso que ele não ache o dito seu irmão, ou sendo falecido, o que Deus não mande, queremos e nos praz que toda a ter­ra firme e ilhas que ele por si novamente neste ano de mil quinhentos e dois descobrir e achar, além da que seu irmão tiver achada, ele a haja para si (Miguel) e Ihe fazemos dela doação e merece com aquelas jurisdições, direitos, capitanias, clausulas, condições...»

Foi assim, que a Terra Nova, ou Terra dos Bacalhaus, também adquiriu, por doação Real, o terceiro nome, de Terra dos CORTE REAIS.

Miguel, nem teve tempo de relatar os resultados das suas arriscadas viagens. Ele e os desditosos companheiros de infortúnio, porém, marcaram a sua presença, no linguajar das tribos índias.

Palavras portuguesas, entraram para permanecer, no dialecto dos nativos.

O Dr. Manuel Luciano da Silva, indica algumas, como prova do contacto demorado, havido com interlocutores a falar português:

Cabbo, que deu cape, em inglês. Casco, Curvo, Pico, Manha, Pouca, Vasque, Ariscos, Chepadas, Cochecho, Machias, Negas, Osso, Sabado, Tomar, que deu Tomah River, Tomah Lake; Tejo ou Tagus, que baptizou Tagus River, Tagus Lake, Sagres, havendo um local próximo da Pedra de Dighton, de nome Sagues e Saugus, uma vila a norte de Boston, Catana, Monte - Mount Hope, Montaut - Mont'Alto, Amen • Amenquina, nome de chefe índio, etc.

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