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Em entrevista ao
“Atlântico Expresso”, Manuel Luciano da Silva fala com paixão
do modo como se relacionou com os Açores e com os açorianos.
Recorda que praticou medicina interna durante 41 anos na Nova
Inglaterra, onde contactou com dezenas de milhares de açorianos,
essencialmente micaelenses.
Em 1965 vem aos Açores, altura em que já se correspondia com J.
Silva Júnior, com material para um programa coordenado por Artur
Raposo, um ribeiragrandense emigrado que muito amava os Açores.
Na altura, “quando ainda era necessário um visto dos EUA para
vir aos Açores, mesmo que a deslocação estivesse integrada numa
viagem ao continente”, fez no Ateneu Comercial de Ponta Delgada
e no Salão Nobre da Câmara da Ribeira Grande e guarda as
melhores recordações daquele primeiro encontro directo com a
realidade açoriana. Até porque, adiante, “quando nós
comparamos a topografia da terra onde nasci (Vale de Cambra) e a
beleza dos Açores, via que pela ligação que o povo tem com a
terra onde tiravam o produto da sua subsistência, afinidades
muito grandes, mesmo no campo da agro-pecuária, onde Vale de
Cambra foi durante muito tempo o centro dos lacticínio do país,
de onde veio o industrial Costa Leite que desenvolveu os lacticínios
dos Açores”. Por isso mesmo, “entre a beleza daquele local
considerado a Suíça portuguesa e as afinidades com os Açores,
vim a desenvolver um grande interesse por estas ilhas”.
LUTAS ANTIGAS
Manuel Luciano da Silva é, decididamente, um homem de causas: na
saúde, onde em milhares de programas de rádio, televisão,
jornais e Internet tem pugnado pela prevenção, pela alimentação
saudável e pela cultura da vida; na história, onde há muitos
anos que desenvolve estudos sobre a Pedra de Dighton e também
sobre a nacionalidade portuguesa de Colombo que defende
acerrimamente, o que o levou já a longas pesquisas, incluindo a
Biblioteca do Vaticano, onde descobriu documentos pontifícios do
Papa Alexandre VI que, segundo afirma, são provas irrefutáveis
da sua tese. Mais recentemente está a estudar a vida de um
emigrante natural da Lagoa, José Dâmaso Fragoso, a quem atribui
a descoberta de símbolos com a cruz de Cristo na Pedra de
Dighton.
Mas não é só nestes aspectos que impõe a sua perspicácia e
persistência. Em defesa dos emigrantes, já em 1965 desencadeou
uma luta para que terminassem os vistos que eram necessários para
vir aos Açores e para que as autorizações concedidas para vir a
Portugal servissem para vir aos Açores.
Por isso mesmo, diz-se incondicional defensor dos interesses
daqueles que não têm voz, nem meios económicos para fazer valer
os respectivos direitos. No âmbito da defesa da saúde de
residentes e emigrantes, recorda o Congresso de Medicina que
decorreu há dois anos em Ponta Delgada com temas comuns às duas
partes, nomeadamente a Doença do Machado – Joseph, tensão
arterial, tumores do cérebro e outras.
Para este encontro trouxe 24 médicos especialistas nas diversas
áreas e ainda hoje recorda o êxito desta iniciativa. Outra paixão
de Manuel Luciano da Silva volta-se para as questões sociais.
Muitas são as sociedades que fundou, entre as quais a Federação
Luso-Americana, a Associação Corte-Reais, os Amigos do Museu da
Pedra de Dighton e, mais recentemente, a Academia do Bacalhau da
Nova Inglaterra.
OS GRANDES PRINCÍPIOS DE VIDA
Falando com a facilidade de conversador nato que é, aquele médico
e historiador esclarece que para conseguir, durante dezenas de
anos, o ritmo de trabalho e de contactos que mantém, um pouco por
todo o mundo, criou uma filosofia de vida muito própria, segundo
a qual, diz, “primeiro está a minha família, seguindo-se a
profissão, e em terceiro lugar as minhas actividades históricas
e sociais”. Para Manuel Luciano da Silva, a família é a
estrutura base da sociedade e o equilíbrio familiar permite
grande estabilidade no trabalho e nas restantes actividades. Nesta
“trindade” de família, profissão e os outros se resume, no
dizer daquele médico, a força, a dedicação e a capacidade de
trabalhar.
Mesmo exercendo a actividade médica da qual há pouco tempo se
reformou, desde 1946 que colabora regularmente em vários jornais,
criando com isto amizades que ainda perduram
No campo político teve vários convites para exercer cargos e
submeter-se a sufrágios quer pelo Partido Democrático quer pelo
Republicano nos EUA, mas nunca aceitou porque, afirma, “o único
partido é o Portuguese American Civic Group”. E é neste espírito
que mantém há 30 anos uma rubrica semanal sobre saúde, em
directo e em diálogo com os ouvintes no programa “Despertar”
de Raul Benevides, com grande audiência na Nova Inglaterra.
Com a reforma da profissão, sente-se, agora, mais disponível
para estudar, nomeadamente, medicina, de forma a informar os que lêem
e ouvem das últimas descobertas no campo da medicina. Mantém
outro programa há 32 anos, um programa em inglês mas sobre
realidades portuguesas e que se pode considerar um “campeão de
longevidade” em programas de televisão, com história, música,
arquitectura, culinária e outros temas portugueses.
Para tudo isto, diz, o grande desafio é nunca deixar de estudar e
manter contactos com as raízes. É que, para além destes
programas, mantém outro, no Canal Português, intitulado
“Tribuna Médica” que começou para ser transmitido durante um
ano e já vai em cinco sem interrupções, tornando-se um dos mais
populares da Nova Inglaterra.
A ACADEMIA DO BACALHAU
Como não podia deixar de ser, Manuel Luciano da Silva afirmou ao
“Atlântico Expresso” que são inesquecíveis estes dias de
convivência nos Açores aonde veio como Presidente da Academia do
Bacalhau da Nova Inglaterra, participar no 31.º Congresso
Internacional das Academias. Considera que a organização foi
extraordinária, nos convívios, nas refeições e nos espectáculos.
Um exemplo que merece ser realçado e que Manuel Luciano da Silva
garante que vai transmitir nos EUA. A Academia do Bacalhau da Nova
Inglaterra reúne mensalmente mais de cem pessoas e é um bom veículo
de promoção daquilo que se passou nos Açores, diz o médico.
A SAGA DE JOSÉ DÂMASO FRAGOSO
Na sua grande sede de investigar, Manuel Luciano da Silva
aproveitou a deslocação a São Miguel para descobrir as raízes
de um lagoense que emigrou para os Estados Unidos em princípios
do século XX, de nome José Dâmaso Fragoso. Era sapateiro nos Açores,
quando em 1919 se fixou nos EUA. Depois de estudar à noite,
esteve no Serviço de Espionagem norte americano. Viveu em Nova
Iorque e foi professor na Universidade daquela cidade, ensinando
Português e Métodos Pedagógicos. Para Manuel Luciano da Silva,
“uma pessoa que sai daqui como sapateiro e chega a professor de
uma das maiores universidades do mundo, merece um pouco de atenção.
Num estabelecimento de ensino com 48 mil alunos e milhares de
professores, foi difícil descobrir a presença daquele docente
imigrante, mas a persistência de Manuel Luciano da Silva fez com
que aparecessem alguns dados. Junto do Exército Português, e após
muitas diligências nos Açores e no continente, conseguiu a folha
militar do jovem que depois emigrou. A partir de aí têm
decorrido outras diligências para localizar a casa onde viveu,
descendentes ou outros familiares próximos. Tudo isto tem ocupado
Manuel Luciano da Silva que guarda carinhosas recordações de José
Dâmaso Fragoso.
Este professor em Nova Iorque distinguiu-se também no campo da
investigação e daí as estreitas relações com o médico
português de Bristol. Pelo meio estava a Pedra de Dighton e foi
esta “paixão a dois” que Manuel Luciano da Silva abarcou e
que o levou às investigações em curso, sonhando que seja
prestada uma homenagem justa e perpetuada a sua memória.
Da paixão pela Pedra de Dighton, partilhada por ambos, nasceu em
Nova Iorque uma Associação intitulada ”Miguel Corte Real
Memorial Society” e daí nasceu a compra do terreno para a criação
do Museu da Pedra de Dighton, da qual existem em Portugal
Continental três réplicas feitas de fibra de vidro, apesar das
grandes dimensões da mesma, uma das quais à entrada do Museu da
Marinha, em Belém, na cidade de Lisboa. Uma outra réplica está
em Oliveira de Azeméis e outra na Biblioteca Jardim “Manuel
Luciano da Silva”, em Vale de Cambra.
A CASA MUSEU
É a propósito desta Casa-Museu e Biblioteca que Manuel Luciano
da Silva mostra o seu orgulho pelas raízes. A casa onde nasceu
foi totalmente recuperada e nela se construiu uma nova biblioteca,
com milhares de livros do espólio do médico que assim, quis doar
a Portugal o que de melhor tinha: os livros e documentos
importantes sobre medicina, história e emigração. Aliás neste
aspecto, Manuel Luciano da Silva estranha que num país como
Portugal, onde de todos os quadrantes e para todos os cantos do
mundo, ao longo dos séculos, saíram grandes levas de pessoas,
levadas pelos mais diversos motivos, que não haja um Museu ou uma
biblioteca totalmente dedicados ao fenómeno da emigração.
A biblioteca de Manuel Luciano da Silva tem milhares de livros,
algumas centenas dos quais dedicado aos Açores, segundo afirma o
próprio.
O CONCEITO DE HISTÓRIA
O grande interesse do investigador pela história, nasceu-lhe
muito cedo e não nega que é uma das grandes paixões da sua
vida. Sente mesmo que faz parte do seu ser e não consegue viver
sem estudar e sem transmitir o que aprende. E sobre a história,
tem um conceito dinâmico e não académico. Vai ao ponto de
afirmar que as grandes descobertas históricas têm sido feitas
por historiadores-amadores e não por académicos. “Os
professores normalmente ensinam matéria já descoberta” e por
isso há que acarinhar aqueles que se distinguem na investigação.
Neste contexto surge a necessidade da criação de espaços para
salvaguarda de documentos. Dá como exemplo o facto de ter
conseguido que fossem encadernados em colecções, milhares de páginas
da “Comunidade Lusíada”, uma folha portuguesa, num jornal
americano que, durante mais de 30 anos serviu de repositório a
muitos acontecimentos portugueses na diáspora. “É isso que faz
falta”, adianta. Eu consegui este arquivo que está agora à
disposição de quem quiser consultá-los.
Quase ilimitado é também o acervo de documentos que possui sobre
Cristóvão Colombo, com a tese de o grande navegador ser português
e não genovês.
E conclui, dizendo que não há nada melhor que deixar à sua
terra o que de melhor tem: o fruto de muito trabalho, cobiçado até
por muitas universidades e outros institutos norte-americanos, mas
que tem gosto que fique em Portugal.
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